A decisão mais radical veio antes mesmo do primeiro traço no papel. Caio Oliveira, executivo de tecnologia, queria transformar sua cobertura linear de 97 m² em Copacabana numa grande varanda. Não era uma metáfora, era um pedido literal. Mariana Maria Portillo e Pedro Pantoja, do escritório Bric Arquitetura, entenderam o recado e fizeram o que poucos ousam: derrubaram todas as paredes internas.
O resultado é um espaço onde a linha que separa dentro e fora simplesmente desaparece. As portas de vidro se recolhem nas laterais, o piso de cimento branco atravessa terraço e sala sem interrupção, e o verde do paisagismo tropical de Pedro Rabelais invade todos os cantos. Essa é uma cobertura que respira, literalmente.
Cimento branco como statement arquitetônico
Quanto ao uso do concreto branco, Pedro Pantoja conta que tem experiência com esse material e decidiu explorar seu potencial máximo. A bancada da cozinha integrada foi executada em cimento branco, assim como todo o piso do apartamento, que ganhou inserções retangulares de mármore Navona criando um padrão geométrico sutil.

“Gostamos de reverenciar grandes mestres que vieram antes de nós”, diz Pantoja ao explicar a referência ao arquiteto italiano Carlo Scarpa, conhecido por suas composições em concreto e pedra que dialogam com a passagem do tempo e a textura dos materiais.
O cimento branco reflete a luz carioca de forma única, amplifica a sensação de amplitude e mantém os ambientes frescos mesmo nos dias mais quentes. Essa decisão de material cria uma base neutra sofisticada, mas exige cuidado na manutenção. O cimento, mesmo quando bem selado, pode manchar se exposto a líquidos ácidos. Aliás, a limpeza deve ser feita apenas com produtos neutros e pano úmido, nada de produtos abrasivos que comprometam a impermeabilização.
Planta livre como escolha de vida
Derrubar paredes não é novidade na arquitetura contemporânea, mas fazer isso em 97 m² e conseguir funcionalidade total é outro nível. A dupla do Bric Arquitetura desenhou uma nova configuração que manteve apenas dois quartos e abriu todo o restante. A cozinha se integra à sala sem nenhuma barreira física, e o terraço funciona como extensão natural desse estar.
“Derrubamos todas as paredes e demos uma nova configuração ao apartamento, que exibe elementos diferenciados”, resume Pedro Pantoja. Mas o grande truque está nas portas de vidro de correr que, quando abertas e recolhidas, somem completamente da vista. Esse recurso transforma o apartamento em um único volume, onde a ventilação cruzada flui livremente e a vista para o verde do paisagismo se torna permanente.
Para quem tem medo de perder privacidade acústica, vale lembrar que a cobertura conta com sistema de sonorização integrada em todos os ambientes. Caio pode ouvir sua playlist de MPB, jazz e soul sem precisar de caixas aparentes, mantendo a estética limpa.
Paisagismo tropical que invade os espaços
O trabalho de Pedro Rabelais no terraço não é apenas decorativo, ele é estrutural para o conceito da cobertura. Espécies tropicais de diferentes alturas criam camadas de verde que chegam até as janelas redondas do banheiro, onde uma sauna foi instalada dentro do boxe.

Essa janela circular não é só charme, é um recurso de conexão visual que traz o exterior para dentro de um dos ambientes mais privados do imóvel. No terraço, além da vegetação exuberante, há uma bancada de apoio com churrasqueira e uma banheira de hidromassagem estrategicamente posicionada para a vista.
A escolha das plantas levou em conta a exposição solar intensa de Copacabana e a necessidade de espécies que criassem sombra sem bloquear a ventilação.
Mobiliário modernista como pontuação visual
Com uma base tão neutra, variando entre tons de branco, off-white e cimento, o mobiliário assume o papel de trazer personalidade. Caio apostou em clássicos do design modernista brasileiro: peças de Sergio Rodrigues, Joaquim Tenreiro e até uma criação do suíço Willy Guhl, conhecido por suas cadeiras de fibrocimento que dialogam perfeitamente com a materialidade do projeto.

O grande sofá da sala quebra a clareza geral com seu tom terroso. Foi uma exigência do morador, que não queria um ambiente completamente monocromático. “De certo modo, a paleta usada no apartamento é a mesma do meu guarda-roupa nesse momento, em que busco paz”, revela Caio. Essa sinceridade entre estilo de vida e decoração é rara — e quando acontece, o resultado é um lar que parece ter sido habitado desde sempre.
Os móveis de madeira maciça trazem peso visual suficiente para equilibrar a leveza do cimento e do vidro. Além disso, peças assinadas mantêm valor ao longo do tempo, tanto financeiro quanto emocional.
Banheiro com sauna e conexão visual
O banheiro da suíte principal merece atenção especial e dentro do boxe, foi instalada uma sauna, algo que Caio usa regularmente. A janela redonda posicionada na altura dos olhos cria uma moldura para o paisagismo externo, transformando o banho em uma experiência contemplativa.

Essa solução resolve um problema comum em apartamentos urbanos: a falta de conexão com o exterior nos ambientes molhados. Aqui, mesmo no momento mais privado, o verde continua presente. O vidro é resistente à umidade e ao calor da sauna, mas exige limpeza frequente para evitar acúmulo de calcário.
Terraço que funciona como sala extra
A bancada de apoio no terraço concentra a churrasqueira e serve como ponto de apoio para receber, enquanto a banheira de hidromassagem ocupa o canto oposto. Essa distribuição cria dois momentos distintos no mesmo espaço: um social, voltado para a churrasqueira, e outro contemplativo, onde a banheira permite observar o céu carioca.

O paisagismo tropical de Pedro Rabelais fecha o terraço visualmente, criando privacidade natural sem precisar de muros altos ou painéis. Espécies como helicônias, palmeiras e filodendros formam um jardim vertical que filtra a luz e traz movimento com o vento.
Paleta de cores que traduz um momento de vida
Caio é direto ao explicar a escolha cromática: busca por paz. Os tons neutros, do branco puro ao off-white, passando pelos terrosos discretos, não são tendência passageira. São uma resposta consciente a um estilo de vida que valoriza a desaceleração.
Essa paleta funciona porque não compete com a vista, não cansa visualmente e permite mudanças pontuais nos têxteis e objetos decorativos sem precisar reformar. É uma base sofisticada que amadurece bem, ao contrário de apostas cromáticas mais ousadas que podem enjoar rapidamente.

O piso de cimento branco funciona como um grande espelho horizontal, refletindo a luz natural e ampliando visualmente os 97 m². As peças de mármore Navona inseridas criam ritmo sem exagero, um recurso que remete ao trabalho de Carlo Scarpa nas intervenções em Veneza.
Quando a reforma reflete uma virada de vida
Caio está entrando em um período sabático, momento em que viagens pelo mundo devem marcar sua rotina. A cobertura, portanto, foi pensada também para funcionar como ponto de partida e chegada, um lugar onde é possível recarregar energias entre uma jornada e outra.
Essa ideia de refúgio urbano só funciona quando a arquitetura apoia o estilo de vida, não o contradiz. Aqui, tudo foi desenhado para facilitar: a planta livre permite reorganizar móveis rapidamente, o sistema de som integrado elimina cabos e caixas aparentes, e a manutenção foi pensada para ser mínima.
O grande acerto do projeto está em não tentar ser muitas coisas ao mesmo tempo. É uma cobertura-varanda, simples assim. E justamente por assumir essa identidade única, consegue entregar uma experiência espacial que 97 m² raramente oferecem.






