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Home Arquitetura e Projetos

A arquitetura que copia o fundo do mar para crescer sem pesar

Torre de 314 metros em Vancouver transforma esponjas marinhas em estrutura real e muda a forma de construir arranha-céus

Escrito por: Cláudio Filla
22 de abril de 2026
em Arquitetura e Projetos
(Henriquez Partners Architects/Divulgação)

(Henriquez Partners Architects/Divulgação)

A natureza costuma chegar primeiro nas soluções que a engenharia leva décadas para descobrir. É o que acontece quando você olha para o fundo do oceano da Colúmbia Britânica e encontra uma esponja-de-vidro, frágil na aparência, mas capaz de resistir a correntes intensas sem se romper. Essa criatura marinha, formada por uma trama delicada de filamentos entrelaçados, acaba de se tornar a principal referência para o primeiro arranha-céu superalto de Vancouver.

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O projeto Georgia & Abbott, assinado pelo escritório Henriquez Partners Architects, não é mais uma torre genérica querendo marcar presença no horizonte urbano. A proposta vai além: replica a geometria natural dessas esponjas para criar um edifício de 314 metros de altura que distribui cargas de forma inteligente, reduz a necessidade de pilares internos e ainda opera próximo ao carbono zero. Aliás, quando você entende como funciona a estrutura desses organismos marinhos, percebe que a arquitetura está apenas traduzindo em concreto e aço o que a biologia já domina.

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Estrutura que imita o oceano

A esponja Euplectella aspergillum não impressiona pelo tamanho, mas pela eficiência. Seu corpo cilíndrico é formado por uma rede tridimensional de elementos minerais que se cruzam em ângulos precisos, criando resistência sem adicionar peso. Pesquisadores da New York University Tandon School of Engineering e da Universidade Tor Vergata estudaram essa geometria e descobriram que ela consegue absorver impactos externos — como as forças das correntes marítimas — distribuindo a energia por toda a malha, em vez de concentrá-la em pontos fracos.

A arquitetura que copia o fundo do mar para crescer sem pesar
(NYU/Divulgação)

No arranha-céu de Vancouver, essa lógica se transforma em arquitetura. A estrutura externa do edifício recebe um padrão geométrico inspirado diretamente nas esponjas, formando uma espécie de exoesqueleto que envolve a torre. Esse sistema não é decorativo. Ele distribui as cargas de vento e peso próprio de maneira mais equilibrada, permitindo que os espaços internos sejam mais livres, sem colunas atravancando a planta. Dessa forma, há ganho real em área útil e flexibilidade para futuros usos.

O que torna esse caso ainda mais interessante é que a biomimética — ciência que estuda soluções da natureza para aplicar em projetos humanos — deixa de ser apenas conceito acadêmico e vira canteiro de obra. A conexão entre Vancouver e o oceano Pacífico não é forçada: as esponjas-de-vidro habitam justamente as águas geladas da costa canadense, tornando a referência um resgate genuíno da identidade local.

Operação próxima ao carbono zero

Falar em sustentabilidade virou lugar-comum na arquitetura contemporânea, mas aqui o compromisso se traduz em metas objetivas. O conjunto de três torres foi projetado para operar com emissões próximas ao carbono zero, o que significa controle rigoroso sobre consumo energético, uso de materiais de baixo impacto e aproveitamento máximo de luz natural. A estrutura externa em malha, além de conferir resistência, reduz a necessidade de sistemas estruturais convencionais mais pesados, cortando etapas de fabricação e transporte de aço.

No topo da torre principal, um átrio envidraçado abriga áreas verdes abertas ao público. Não é apenas paisagismo cosmético. O espaço funciona como pulmão urbano em plena vertical, trazendo vegetação para dentro de um arranha-céu e criando um refúgio onde a cidade respira. A ventilação natural atravessa o edifício pela cavidade central — assim como acontece nas esponjas marinhas, que usam seu canal interno para circular água e nutrientes.

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Praça que imita ondas

A base do empreendimento preserva a fachada de um edifício dos anos 1920, atendendo às exigências de patrimônio histórico de Vancouver. Ao redor das torres, uma praça pública foi desenhada com formas orgânicas que simulam relevos esculpidos pela ação das ondas. O objetivo é criar continuidade visual entre o projeto e o ambiente marinho que serviu de inspiração, mas também garantir que o térreo não vire apenas hall de entrada para quem mora ou trabalha ali.

A arquitetura que copia o fundo do mar para crescer sem pesar
(Henriquez Partners Architects/Divulgação)

Restaurantes, cafés e lojas ocupam o perímetro da praça, incentivando a circulação de pedestres e tornando o complexo parte ativa da dinâmica urbana. Esse tipo de desenho urbano é fundamental para evitar que arranha-céus se transformem em ilhas isoladas no meio da cidade, onde ninguém quer estar além dos horários comerciais.

Torre de habitação social como contrapartida

Entre as quatro estruturas do complexo, uma menor será destinada exclusivamente à habitação social. São 378 unidades residenciais, além de uma creche e uma galeria de arte indígena, que serão entregues prontas à prefeitura como contrapartida pública do empreendimento. Hoje, o terreno onde essa torre será construída é apenas um estacionamento. A transformação representa um ganho concreto para a cidade: mais moradias acessíveis, equipamentos culturais e valorização das comunidades originárias da região.

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Essa exigência de inclusão social faz parte das diretrizes urbanas de Vancouver, que não permite grandes empreendimentos sem retorno direto para a população. O modelo é diferente do que se vê em muitas cidades, onde a verticalização acontece sem preocupação com quem fica de fora do mercado imobiliário.

Referências culturais locais

Além da conexão com o ecossistema marinho, o projeto incorpora elementos visuais e conceituais ligados às culturas indígenas da Colúmbia Britânica. Não é apropriação estética. O escritório trabalhou em colaboração com representantes dessas comunidades para garantir que a referência fosse respeitosa e significativa. A galeria de arte no térreo da torre de habitação social, por exemplo, será dedicada exclusivamente a artistas indígenas, criando um espaço permanente de visibilidade para produções que raramente ocupam galerias comerciais.

A arquitetura que copia o fundo do mar para crescer sem pesar
 (Henriquez Partners Architects/Divulgação)

Esse tipo de integração cultural mostra que arquitetura contemporânea pode ir além da função e da forma, assumindo responsabilidade sobre o território que ocupa e as histórias que atravessam aquele lugar.

  • Veja também: Casa de 650 m² no interior de São Paulo une tijolo aparente, freijó e jardim central em projeto rústico-contemporâneo

Impacto no skyline

Com 314 metros de altura, a torre principal do Georgia & Abbott será o primeiro arranha-céu superalto de Vancouver, categoria reservada a edifícios acima dos 300 metros. A mudança no horizonte da cidade é inevitável, mas a discussão vai além da estética. O adensamento urbano planejado permite que Vancouver cresça sem expandir horizontalmente sobre áreas verdes ou agrícolas, concentrando infraestrutura onde ela já existe e reduzindo a necessidade de deslocamentos longos.

A requalificação urbana do centro de Vancouver passa por projetos como esse, que ocupam lotes subutilizados — no caso, antigos estacionamentos — e transformam vazios em pontos de convergência social, econômica e cultural. A lógica é simples: cidade densa bem planejada consome menos recursos, gera menos poluição e oferece mais oportunidades de convivência.

Arquitetura que dialoga com o planeta

O grande diferencial do projeto Georgia & Abbott não está apenas na altura ou na forma inspirada em esponjas marinhas. Está na maneira como o edifício assume compromissos reais com sustentabilidade, inclusão social e preservação cultural, sem transformar essas bandeiras em marketing vazio. A biomimética aplicada aqui não é enfeite: é estrutura, é economia de material, é melhor desempenho térmico e luminoso.

Vancouver está mostrando que é possível construir arranha-céus sem ignorar o contexto ambiental e social. A natureza continua sendo a melhor professora. Quando a arquitetura para de competir com ela e passa a aprender, o resultado é um edifício que cresce sem pesar sobre a cidade.

  • Cláudio Filla

    Cláudio P. Filla

    Fundador e Editor/Redator do Enfeite Decora
    Publicitário, gestor de mídias sociais e especialista em conteúdo digital sobre decoração, arquitetura, paisagismo, jardinagem e tendências para o lar.
    👉 Biografia completa do autor.

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