Poucas assinaturas no mundo da arquitetura são tão reconhecíveis quanto as de Zaha Hadid (1950–2016). A arquiteta iraquiana-britânica foi a primeira mulher a conquistar o Pritzker Architecture Prize — considerado o Nobel da arquitetura — e deixou como legado uma linguagem formal que desafia a geometria convencional: curvas orgânicas, superfícies contínuas e formas que parecem estar em movimento mesmo quando estão paradas. Agora, uma de suas criações mais raras será colocada à venda pela casa de leilões internacional Hermitage Fine Art, em Mônaco, com valor estimado entre US$ 1,03 milhão e US$ 1,2 milhão — o equivalente a aproximadamente R$ 5 milhões e R$ 6 milhões na cotação atual.
A peça em questão é o VOLU Dining Pavilion, um pavilhão de refeições de formato orgânico que evoca, simultaneamente, a forma de uma concha e a leveza de um cogumelo aberto. O projeto foi desenvolvido em parceria com o arquiteto alemão Patrik Schumacher, diretor do escritório Zaha Hadid Architects, e apresentado ao público durante a Design Miami, em 2015, após ser encomendado pela iniciativa Revolution Project.
Uma estrutura que é, antes de tudo, escultura
O que torna o VOLU diferente de outros pavilhões temporários é justamente a precisão com que a forma foi construída. A estrutura é composta por painéis poligonais de aço cortados a laser, que partem da base e se expandem de maneira fluida até formar uma cobertura contínua — sem emendas visíveis, sem interrupções na leitura visual do conjunto. O resultado é um volume que parece moldado à mão, mas que carrega toda a precisão da fabricação digital paramétrica, método que o escritório de Zaha ajudou a popularizar na arquitetura contemporânea.

Segundo o arquiteto e professor de teoria do design Patrik Schumacher, que dirige o escritório desde a morte de Zaha em 2016, “a arquitetura paramétrica não é apenas uma estética. É uma maneira de pensar o espaço como um campo contínuo de relações, onde cada elemento responde ao outro com lógica e coerência.” Essa coerência aparece com clareza no VOLU: os bancos e a mesa que compõem o pavilhão seguem a mesma linguagem curvilínea da estrutura principal, criando uma unidade visual e espacial que vai além do mobiliário convencional.
Esses elementos internos são produzidos em carvalho americano de origem sustentável, com acabamento artesanal que garante uma superfície contínua, sem marcas de encaixe. O contraste entre o aço da estrutura e a madeira do mobiliário não é apenas estético: é também funcional, já que o carvalho oferece conforto tátil e temperatura agradável ao toque, equilibrando o rigor industrial da casca externa.
Raridade que vai além do preço
A produção original previa 24 unidades do pavilhão, cada uma avaliada em US$ 484 mil — cerca de R$ 2,5 milhões. Contudo, apenas duas edições são conhecidas até hoje, o que transforma o exemplar a ser leiloado em algo muito além de um objeto de design: é uma peça de coleção arquitetônica com valor histórico consolidado.
Antes de chegar a Mônaco, este exemplar específico percorreu um caminho significativo. Foi adquirido pela Foundation for AIDS Research (amfAR), organização internacional sem fins lucrativos voltada ao financiamento de pesquisas sobre HIV/AIDS, e apresentado em um evento beneficente em Cannes, na França, em 2016 — poucos meses após a morte de Zaha. A presença do pavilhão naquele contexto acrescentou uma camada simbólica à peça, tornando-a parte de um momento específico na história recente do design e da filantropia cultural.

O crítico de arquitetura e curador Aaron Betsky, ex-diretor do Cincinnati Art Museum e autor de estudos sobre a obra de Hadid, já destacou que “os projetos de Zaha funcionam como manifestos tridimensionais. Eles não decoram um espaço — eles transformam a maneira como você se relaciona com ele.” No caso do VOLU, essa transformação acontece de maneira literal: quem está dentro do pavilhão experimenta uma relação completamente diferente com o exterior, mediada pelas aberturas curvilíneas que filtram a luz e enquadram a paisagem ao redor.
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O que o VOLU representa para o design contemporâneo
Concebido para uso ao ar livre, o pavilhão dialoga com uma tendência crescente no design de ambientes externos e na arquitetura de paisagem: a valorização de estruturas que funcionam como objetos de arte habitáveis. Não são apenas gazebos ou coberturas. São instalações que ressignificam o espaço ao redor delas, criando microambientes com identidade própria.
Nesse sentido, o VOLU antecipou um movimento que hoje aparece em projetos residenciais de alto padrão, em espaços gastronômicos e em eventos de design ao redor do mundo. A busca por pavilhões com linguagem autoral, produzidos com materiais nobres e técnicas de fabricação digital, tornou-se uma das vertentes mais relevantes do design de interiores e exteriores contemporâneo — especialmente em projetos que precisam criar experiências memoráveis sem recorrer a construções permanentes.
O leilão pela Hermitage Fine Art representa, portanto, uma oportunidade rara para colecionadores, instituições culturais ou proprietários de espaços de alto padrão que buscam não apenas uma peça funcional, mas um fragmento autêntico da história da arquitetura do século XXI.






