Um terraço descoberto, no topo de uma cobertura de 240 m², raramente é tratado como protagonista. Na maioria dos projetos, esse tipo de área vira um apêndice da planta: um espaço de passagem, reservado para churrasco ocasional ou para guardar o que não cabe nos cômodos de baixo. Foi exatamente esse pavimento que a Michelle Machado Arquitetura (@mcharquitetura) decidiu colocar no centro do projeto.
O apartamento pertence a um casal com três filhos e fica no Alto da Boa Vista, em São Paulo. Com a reestruturação, o andar que antes ficava exposto ao tempo passou a concentrar cozinha, área gourmet, piscina e vestiário, enquanto o pavimento inferior foi destinado inteiramente à vida íntima da família. A seguir, os detalhes de como essa troca de posições foi executada e o que ela representa em termos de ganho de área útil e de linguagem estética.
A inversão que redefiniu a cobertura
Mover cozinha e lavanderia de um andar para outro em um apartamento já construído exige redesenho de prumadas hidráulicas, elétricas e de exaustão, além do reforço estrutural para suportar o peso de bancadas, eletrodomésticos e revestimentos pesados em um nível que antes não previa esse uso.

Essa movimentação de ambientes molhados entre pavimentos está entre as intervenções mais delicadas de uma reforma residencial, porque qualquer erro no dimensionamento das tubulações compromete o funcionamento de toda a casa.
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O esforço de engenharia, no entanto, destravou um ganho que poucas reformas conseguem entregar: o pavimento superior, que antes era apenas um terraço aberto, passou a reunir área gourmet, saletas, vestiário, deck de cumaru e piscina em tom areia.
Essa reorganização ampliou a área útil do apartamento em quase 50%, transformando um espaço de uso limitado em andar social completo, com cozinha voltada para o convívio e vista aberta para o deck.
Quatro suítes e os cantos de convivência no pavimento de baixo
Com a cozinha e a área de lazer concentradas em cima, o andar inferior ficou livre para abrigar a vida privada da família. O programa reúne quatro suítes, um home office para o casal, salas integradas, um bar sob a escada e um canto reservado ao piano.

A distribuição evita que os ambientes de descanso dividam espaço com o barulho e o fluxo constante das áreas sociais, hoje isolados no andar superior.

O bar sob a escada aproveita um vão que, em grande parte das plantas, vira depósito ou simplesmente fica vazio. Transformar esse vão em um ponto de uso ativo é uma solução que aparece com frequência em reformas que buscam ganhar metragem sem alterar a estrutura original do edifício.
Paleta neutra, madeira cumaru e o revestimento que acompanha a escada
A linguagem estética da cobertura segue o estilo contemporâneo com um toque marcante de brasilidade. A paleta neutra, composta por tons claros e terrosos, ganha densidade com materiais nobres como a madeira cumaru, usada no deck externo, e a marcenaria funcional em tons amadeirados, que estrutura boa parte dos armários e painéis internos.

Na circulação, o destaque fica por conta de um revestimento com aspecto corten, que cobre a parede da sala e acompanha o desenho da escada até o pavimento superior.
Essa continuidade visual entre os dois níveis ajuda a costurar a transição entre a área íntima, de baixo, e a área social, de cima, reforçando a sensação de unidade mesmo com os pavimentos cumprindo funções tão distintas.
Mobiliário autoral e projeto luminotécnico
A composição final do projeto se apoia em um acervo de mobiliário assinado por designers brasileiros, com peças de Aristeu Pires e Ronald Sasson distribuídas pelos ambientes sociais.

Obras de arte completam a decoração ao lado de um projeto luminotécnico que combina perfis de LED embutidos com peças decorativas pontuais, responsáveis por criar camadas de luz diferentes para o dia e a noite.
Esse tipo de curadoria de mobiliário autoral é o que costuma diferenciar uma reforma de alto padrão de um projeto apenas funcional: a escolha de peças com identidade brasileira dialoga diretamente com a madeira cumaru do deck e com o revestimento corten da escada, amarrando a narrativa estética do térreo ao andar superior.
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