Inverter o programa de um apartamento parece simples no papel, mas exige recalcular estrutura, ventilação e até a rotina de quem vai morar ali. Foi esse o desafio assumido pelo escritório Sertão Arquitetos, comandado por Raquel Rangel e Julio de Luca, ao transformar os 167 m² de um duplex em Botafogo, no Rio de Janeiro, para um jovem casal.
O pavimento superior do imóvel estava deteriorado e precisou ser reconstruído por completo. Em vez de simplesmente recuperar o que já existia, o escritório aproveitou a oportunidade para repensar toda a lógica de ocupação do apartamento. A área de convivência, tradicionalmente posicionada no térreo ou no andar intermediário de um duplex, foi elevada ao topo do edifício. O resultado é uma sala, cozinha e lavabo que funcionam como um único ambiente integrado, com sensação de casa suspensa sobre a cidade.
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Pé-direito duplo e ventilação cruzada no andar superior
O grande diferencial deste andar está no pé-direito elevado, aliado a grandes aberturas que garantem ventilação cruzada constante. Essa combinação evita o abafamento comum em coberturas e ainda amplia visualmente o espaço, criando profundidade entre os ambientes sociais sem a necessidade de paredes divisórias.

A nova cobertura foi executada com estrutura de madeira e telhas termoacústicas. A escolha por um sistema mais leve permitiu aproveitar a estrutura original do prédio para sustentar vãos maiores, algo que dificilmente seria viável com uma laje convencional pesada. Além do ganho estético, a solução garante desempenho térmico e acústico ao ambiente, um cuidado técnico que costuma passar despercebido, mas que faz diferença direta no conforto térmico do Rio de Janeiro.
Área íntima organizada no pavimento inferior

Enquanto o topo do apartamento recebe luz e convivência, o pavimento inferior concentra a rotina mais reservada do casal. Ali estão a suíte principal, o closet, um escritório, o quarto de hóspedes, o banheiro social e a lavanderia, posicionada estrategicamente próxima aos dormitórios para facilitar o dia a dia doméstico.

Essa proximidade evita deslocamentos desnecessários e organiza o fluxo da casa de forma prática, um detalhe de planejamento que costuma ser ignorado em reformas apressadas.
Materialidade equilibrada entre madeira, ladrilho hidráulico e tecnocimento
A paleta de materiais escolhida para o projeto reforça a intenção de potencializar a luz natural em todos os ambientes. Madeira, ladrilho hidráulico e tecnocimento aparecem combinados ao longo do apartamento, criando contraste de texturas sem comprometer a leveza visual do conjunto.

O ladrilho hidráulico, em especial, traz personalidade aos pisos sem depender de estampas excessivas, enquanto o tecnocimento confere um acabamento contemporâneo às superfícies.
O detalhe afetivo do lavabo
Entre os espaços do apartamento, o lavabo carrega a camada mais pessoal do projeto. O casal produziu manualmente peças em cerâmica que replicam o desenho do revestimento das paredes do cômodo. As peças trazem frases de músicas marcantes para a relação dos dois, uma forma de transformar lembranças do próprio casamento em parte do cotidiano da casa.

É um exemplo de como a personalização de um projeto de arquitetura vai muito além da escolha de acabamentos: envolve também memória afetiva aplicada ao espaço.

O Apartamento Aroeira mostra como a reconstrução de uma cobertura deteriorada pode se transformar em oportunidade para repensar toda a hierarquia de um imóvel. Ao levar a área social para o topo do prédio, o projeto assinado por Raquel Rangel e Julio de Luca cria um duplex que valoriza luz, ventilação e conexão com a paisagem urbana de Botafogo, sem abrir mão da funcionalidade no andar reservado à rotina do casal.
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