Há uma diferença entre pendurar um quadro e projetar em função dele. Na 39ª edição da CASACOR São Paulo, montada no Parque da Água Branca, essa diferença fica evidente. Em vários ambientes da mostra, a arte na decoração deixou de ser complemento e passou a ser o ponto de partida do projeto.
Os arquitetos não escolheram obras para preencher paredes vazias. Eles construíram os ambientes ao redor de esculturas, têxteis e pinturas que já carregavam um conceito pronto. Notamos que essa lógica muda o resultado final: quando a obra vem antes do projeto, a paleta de cores, os materiais de acabamento e a disposição dos móveis passam a responder a ela.
Casa Magma Portinari, assinada pelo escritório SUITE
Na Casa Magma Portinari, assinada pelo escritório SUITE, essa lógica aparece de forma clara. Os arquitetos Carolina Mauro, Daniela Frugiuele e Filipe Troncon reuniram obras de amigos e parceiros do escritório, misturando pedras, metais, cerâmicas e têxteis.

Logo na entrada, uma escultura de bronze de Odoardo Tabacchi recebe o visitante. A peça KuAntico: A Odisséia Continua Navedante, de Ernesto Neto, feita em 1994 com cobre, pedra, nylon e chumbo, sintetiza o conceito do espaço. “Sua presença no espaço dialoga com o conceito de Casa Magma: uma potência latente, de matéria que pulsa sob a superfície e aguarda o momento de emergir, em uma relação de tensão e leveza”, explica Filipe Troncon.
Percebemos aqui um raciocínio invertido em relação ao habitual. Em vez de pensar primeiro no projeto de interiores e depois na arte que vai ocupá-lo, a obra dita o clima, a temperatura de cor e a textura dos móveis que vão dividir o espaço com ela.
Casa Simonetto, projetada por Gabriel Fernandes
Há ambientes em que a arte funciona como veículo de memória. É o caso da Casa Simonetto, projetada por Gabriel Fernandes como homenagem à arquiteta Janete Costa, referência do design brasileiro entre 1932 e 2008.

Gabriel selecionou peças que pertenceram ao acervo pessoal de Janete: um quadro vermelho sem título de Tomie Ohtake e o painel têxtil Panneux, de Roberto Burle Marx. A cabeça esculpida pelo Mestre Nicola e os entalhes artesanais assinados por Nelinho completam a composição, reforçando a valorização do trabalho manual que marcou a trajetória da homenageada.
“Queríamos apresentar um projeto em que nos apropriamos dos ideais construídos pela escola Janete, olhando para a pesquisa e para a produção com a mesma força e intenção com que ela fazia, valorizando o território, a manualidade e o nosso saber fazer”, conta Gabriel Fernandes.
Observamos que, quando a peça tem história, o projeto ganha uma camada de significado que nenhum material de acabamento reproduz sozinho. Isso é decoração com arte em sua forma mais completa.
Banho da Saudade, por Bruno Borges
No ambiente assinado por Bruno Borges, batizado de Banho da Saudade, a arte ganha escala de instalação. O arquiteto trabalhou o conceito de saudade como encontro entre memória, afeto e autoconhecimento.

“Busquei obras que dialogassem com temas como a passagem do tempo, a espiritualidade, a contemplação e a presença”, afirma Bruno Borges. A peça central é um japamala monumental, criado em parceria com a artista Patrícia Cavalli exclusivamente para a mostra e batizado de 108 Vezes Agora.
A escala da peça transforma a experiência de quem entra no ambiente. Quem visita atravessa um espaço construído em função da obra, não apenas observa um quadro na parede. Esse tipo de instalação site specific, pensada exclusivamente para o local, reforça a proximidade entre design de interiores e arte contemporânea desde o primeiro rascunho do projeto.
Casa Origens Mercado Livre, do Studio Costa + Azevedo
A dupla Josemar Costa e André Azevedo, do Studio Costa + Azevedo, assina a Casa Origens Mercado Livre com peças de design garimpado, estética modernista e forte identidade brasileira.

“Defendemos, nesse projeto, que a casa seja construída pela junção de vários recortes de nossas experiências, vivências e aquisições”, diz Josemar Costa. Na cozinha, marcada por tons sóbrios, a obra têxtil Do tamanho do corpo (Corpo #16), de Adalgisa Campos, com 200 x 200 centímetros, funciona como ponto de cor e de luz.
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Casa Pulsante, do arquiteto Léo Shehtman
Já na Casa Pulsante, do arquiteto Léo Shehtman, a lógica se inverte. O profissional partiu das cores estruturantes do projeto para depois buscar as obras que reforçassem essa paleta. Com paredes e teto vermelhos, o ambiente assume a cor como gesto de intensidade.

“Procurei fazer um garimpo de elementos que despertassem afeto, carregados de amor e de significado. É uma seleção que me emociona e se conecta a uma cor vibrante e pulsante”, relata Léo Shehtman. Acima do sofá, as telas Metapaisagem número IX e Metapaisagem XII, da artista Hanna Dank, concentram a força cromática do ambiente.
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