Curitiba não é apenas uma cidade planejada, é uma cidade que acumulou camadas e cada uma delas deixou uma marca física muito clara na paisagem urbana. Construções do século XVIII convivem com obras modernistas dos anos 1960 e estruturas contemporâneas dos anos 1990, formando um conjunto que vale muito a pena percorrer com olhar atento.
Para quem estuda arquitetura, trabalha com design de interiores ou simplesmente se interessa por espaços bem construídos, a capital paranaense funciona como um roteiro didático a céu aberto. A cidade tem endereços que mostram, na prática, como diferentes épocas e correntes arquitetônicas se traduzem em formas, materiais e usos do espaço.
Museu Oscar Niemeyer
Localizado na Rua Marechal Hermes, 999, no Centro Cívico, o Museu Oscar Niemeyer é a obra mais reconhecida da arquitetura curitibana. O projeto, iniciado em 1967 e inaugurado como museu em 2002, carrega a linguagem que tornou Niemeyer um dos nomes mais importantes do modernismo brasileiro: grandes volumes de concreto, formas orgânicas e o diálogo entre estrutura e espaço público.
O destaque visual do complexo é o bloco conhecido como “O Olho”, uma estrutura suspensa com formato elíptico e revestimento externo em pastilha dourada, apoiada por um único pilar central. A geometria do volume não é apenas estética — ela resolve, ao mesmo tempo, questões de circulação, iluminação natural e relação com o entorno. Internamente, o espaço abriga exposições de artes visuais, arquitetura, urbanismo e design, com um acervo que inclui obras de Tarsila do Amaral, Cândido Portinari e do próprio Niemeyer.
O museu foi eleito em 2012 pelo guia norte-americano Flavorwire como um dos 20 museus mais bonitos do mundo. A entrada é gratuita às quartas-feiras, e o espaço funciona de terça a domingo.
Largo da Ordem
Quem quer entender como Curitiba se formou, começa pelo Largo da Ordem, no bairro São Francisco, a poucos minutos a pé do centro. É o núcleo histórico mais preservado da cidade, com construções que datam dos séculos XVIII e XIX e refletem as influências portuguesa e alemã trazidas pelos primeiros colonizadores e pelos imigrantes europeus que chegaram à região a partir do século XIX.
As ruas estreitas e calçadas de paralelepípedos criam uma ambiência de escala humana pouco comum em centros urbanos brasileiros. Ali estão a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco das Chagas (construção original do século XVIII), a Casa Vermelha (erguida em 1891 pelo imigrante alemão Wilhelm Peters, com estrutura em enxaimel), o Museu Paranaense, a Igreja Nossa Senhora do Rosário e as Ruínas de São Francisco, entre outros marcos.
Aos domingos, a feirinha do Largo da Ordem, realizada desde 1973, adiciona movimento e cor ao conjunto, mas é durante a semana, com menos gente, que a leitura arquitetônica do lugar fica mais clara. Vale caminhar devagar e prestar atenção nas fachadas, nos detalhes de madeira e nas proporções das aberturas, que revelam muito sobre as técnicas construtivas de cada período.
Ópera de Arame
Inaugurada em 1992 no Parque das Pedreiras, no bairro Abranches, a Ópera de Arame é uma das obras mais representativas da arquitetura contemporânea curitibana. O projeto, assinado pelo arquiteto Domingos Bongestabs, propôs algo pouco convencional para a época: um teatro de estrutura tubular metálica e fechamento em vidro, implantado dentro de uma antiga pedreira desativada.
A solução transformou um passivo ambiental em equipamento cultural. As paredes de rocha natural da pedreira funcionam como pano de fundo cênico tanto para a arquitetura quanto para as apresentações realizadas no palco. A transparência do fechamento em vidro permite que o espectador veja o jardim ao redor durante os espetáculos, o que cria uma experiência de continuidade entre interior e exterior pouco comum em teatros convencionais.
A estrutura metálica aparente, pintada de branco, contrasta com a vegetação densa e com as paredes de pedra calcária, gerando um diálogo entre o construído e o natural que vale ser observado de perto, além do programa cultural que o espaço oferece ao longo do ano.
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Jardim Botânico
O Jardim Botânico Francisca Richbieter, localizado no bairro Jardim Botânico, é um dos cartões-postais mais fotografados de Curitiba, e a estufa principal é a razão principal disso. Projetada pelo arquiteto Abrão Assad e inaugurada em 1991, a estrutura segue o estilo Art Nouveau, com arcadas em ferro e vidro que remetem aos grandes jardins de inverno europeus do século XIX, como o Crystal Palace de Londres ou as estufas do Jardim Botânico de Bruxelas.
A estufa principal tem cerca de 458 metros quadrados e abriga espécies de clima tropical e subtropical. O que interessa do ponto de vista arquitetônico é a forma como a estrutura usa o metal como elemento ornamental e funcional ao mesmo tempo: os arcos de ferro definem o ritmo visual da fachada e sustentam as placas de vidro que garantem a entrada de luz natural necessária para as plantas.
O entorno, com jardins de inspiração francesa e canteiros geométricos, reforça a coerência estilística do conjunto. A visitação é gratuita e o espaço funciona todos os dias.
Palácio Avenida
No coração do centro de Curitiba, na Rua XV de Novembro, o Palácio Avenida é um dos edifícios históricos mais expressivos da arquitetura eclética brasileira. Construído em 1929 a mando do empresário sírio-libanês Feres Merhy, o projeto foi assinado pelos arquitetos Valentim Freitas, Bernardino de Assumpção Oliveira e Bortolo Bergonse, e resultou em um edifício de mais de 18 mil metros quadrados com forte influência do neoclassicismo europeu.
A fachada principal, com ornamentos em relevo, pilastras, frisos e janelas em arco, é um manual de elementos compositivos da arquitetura eclética do início do século XX. Internamente, o edifício preserva detalhes de acabamento em mármore, estuques e vitrais que mostram o nível de execução da época. O grande salão nobre, com pé-direito elevado e ornamentação detalhada, merece atenção especial.
Aliás, o Palácio Avenida também abriga o Teatro Avenida, com capacidade para 250 pessoas, o que garante uso ativo ao espaço histórico. Durante o período natalino, a fachada iluminada transforma o edifício em um ponto de visitação obrigatório para quem está na cidade.
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