Poucos desafios na arquitetura de interiores são tão complexos quanto reformar um apartamento antigo sem apagar o que o torna único. Entre Ipanema e Copacabana, em um edifício modernista dos anos 1960 no Rio de Janeiro, o arquiteto Philippe Nunes, do Fill Arquitetos, conseguiu exatamente isso: preservar a essência do imóvel e, ao mesmo tempo, reconstruí-lo quase por inteiro para atender a um modo de morar completamente diferente daquele para o qual o apartamento foi originalmente pensado.
O imóvel de 190 m² pertence a um advogado e a um profissional de marketing, conhecidos pela generosidade como anfitriões, e ao cachorro Luck. O desejo era claro: um lar que recebesse bem, que fosse funcional para o dia a dia e que refletisse a personalidade dos moradores, colecionadores apaixonados por arte brasileira. A planta original, datada dos anos 1960, precisou de intervenções profundas para dar conta desse programa de necessidades.
A entrada que mudou tudo
A primeira e mais impactante decisão do projeto foi criar um hall de entrada de verdade. O apartamento não tinha um. Para viabilizá-lo, Philippe Nunes reposicionou a porta principal, o que exigiu negociações com o condomínio e com o vizinho. O espaço conquistado ocupou parte da antiga cozinha, e a transição entre os dois ambientes tornou-se oportunidade para uma das soluções mais autorais do projeto.

O piso do hall foi composto com 75 peças reaproveitadas de cinco tipos de mármore diferentes, formando uma composição colorida que atua como obra de arte logo na entrada. Ao lado desse piso, a marcenaria escura ancora o ambiente, enquanto um pendente de brechó e uma cômoda do século XIX adicionam camadas históricas ao espaço. O resultado é um hall que funciona como declaração de intenções: aqui, o novo e o antigo convivem sem hierarquia.
A planta que se reinventou
Além do hall, a reforma reorganizou significativamente o programa do apartamento. Um lavabo foi criado do zero, e uma segunda suíte surgiu onde antes ficava a área de serviço. Um dos quartos originais foi convertido em sala de TV com closet integrado, atendendo melhor à rotina dos moradores.

Elementos originais do edifício foram preservados com cuidado. As janelas clássicas da tipologia modernista carioca permaneceram intactas, assim como o piso de taco em parte das áreas, que dialoga diretamente com a linguagem do edifício. O grande erro em reformas de imóveis antigos é ignorar esses rastros históricos. Aqui, eles foram mantidos como parte integrante do projeto.
A estante em L e a coleção de arte
Na área social, uma grande estante em L articula a entrada à sala de estar e resolve, com elegância, o desafio de expor uma vasta coleção de arte. Obras de Alfredo Volpi, Tomie Ohtake e Di Cavalcanti fazem parte do acervo da família e ocupam lugar de destaque no projeto, apoiadas pela marcenaria que funciona como galeria doméstica.

“A estante em L foi pensada para ser simultaneamente estrutura, suporte e cenário. Ela conecta os ambientes sem criar barreiras visuais e ainda organiza a coleção de arte de forma que cada peça respire”, explica Philippe Nunes, do Fill Arquitetos.
Essa relação entre marcenaria planejada e obra de arte é uma das marcas do projeto. A estante não compete com os quadros, ela os enquadra.
Os pilares que viraram projeto
Durante a demolição, dois grandes pilares apareceram de forma inesperada. Em vez de tratá-los como obstáculo, Philippe Nunes os incorporou ao partido arquitetônico: os pilares foram conectados à marcenaria por meio de painéis de muxarabi, elemento tradicional da arquitetura árabe que chegou ao Brasil pelo repertório luso e hoje reaparece com força no design contemporâneo. A treliça geométrica filtra a luz, cria profundidade visual e transforma o que seria um problema estrutural em ponto focal.

“Quando os pilares apareceram, entendemos que precisávamos trabalhar com eles, não contra eles. O muxarabi surgiu como uma forma de integrá-los à linguagem do projeto sem forçar uma solução decorativa sobre o problema”, conta o arquiteto.
- Veja também: Apartamento no Leblon de 100 m² vai ao osso na reforma e ganha planta integrada, cimento queimado e banheiros com cor
O azul como fio condutor
Um projeto com tantas camadas e materiais distintos pede um elemento que costure tudo visualmente. No apartamento de Philippe Nunes, esse papel cabe ao azul. A cor aparece de forma estratégica e contida: no hall de entrada, no papel de parede do teto da cozinha e na suíte principal. Não é um azul aplicado por impulso, mas um recurso cromático que cria continuidade sem uniformidade.
Essa escolha revela maturidade no uso da cor como ferramenta de projeto. O azul não domina nenhum ambiente; ele passa por eles, como uma nota musical recorrente que dá coesão à composição sem se tornar repetitiva.

Entre o mármore reaproveitado, os móveis de brechó, a arte brasileira e os elementos preservados do edifício modernista, o apartamento entre Ipanema e Copacabana tornou-se um projeto onde cada decisão tem história para contar.
| Para mais conteúdos do Enfeitedecora, siga o nosso X (Twitter), Instagram e Facebook,
inscreva-se no nosso canal no Pinterest,
no Google e acompanhe as atualizações sobre decoração, arquitetura, arte e projetos inspiradores. E-mail: [email protected] |





