Um quarto de bebê de 25 m² na CASACOR São Paulo 2024 carregou mais do que estética: carregou história, identidade e uma pesquisa de descendência que começou com um teste de DNA feito nos Estados Unidos em 2020. Foi a partir desse resultado, que revelou sua origem no povo Mbundu, um dos principais grupos étnicos de Angola, que a arquiteta Kesley Santiago, à frente do escritório Artek Design, construiu o conceito do ambiente batizado de Njinga.
O nome é uma homenagem direta à rainha Njinga de Ndongo e Matamba, líder política e militar do século XVII que resistiu à ocupação portuguesa e à escravização de seu povo por quatro décadas. Trazer esse nome para um projeto de design de interiores infantil não é gesto decorativo. É uma declaração de intenção sobre o que o espaço representa.
Sobre o especialista
Kesley Santiago, é arquiteta e designer de interiores, reconhecida pela revista Forbes como uma das profissionais mais relevantes da mostra CASACOR São Paulo.
Materialidades que carregam significado
O diferencial deste projeto está na lógica por trás da escolha de cada material. A madeira, o ferro, o sisal e a palha não foram selecionados por tendência estética. Cada um deles tem função simbólica e histórica dentro da cultura Mbundu.

“Trago toda essa riqueza histórica para o design do quarto do bebê. Elementos como a madeira, utilizada nas construções das casas; o ferro, que era uma insígnia espiritual e política de força, sustento e linhagem; a geografia da savana que, além de sustento por meio da agricultura, foi palco de lutas entre os nativos e os portugueses”, explica Kesley Santiago.
A madeira estrutura o ambiente e referencia as construções tradicionais do povo Mbundu. O ferro, trabalhado nos detalhes do mobiliário infantil, carrega um peso que vai além do visual: na cultura Mbundu, ele representa força e linhagem familiar. O sisal e a palha aparecem como texturas que evocam a paisagem da savana angolana, um território que foi, ao mesmo tempo, fonte de sustento e palco de resistência.
Essa camada de significado é o que separa este projeto de um quarto temático comum. Aqui, a temática não é decoração sobreposta à função. Ela está incorporada na própria escolha dos materiais, na escala dos móveis e no ritmo visual do ambiente.
Um quarto de bebê que recusa o estereótipo
O grande erro em projetos com referências culturais é recorrer ao lugar comum. Kesley Santiago foi direta sobre esse cuidado ao afirmar que cada elemento foi escolhido para refletir a essência e a beleza do povo Mbundu, evitando representações genéricas sobre o continente africano.
Na prática, isso significa que o ambiente não usa a África como recurso visual decorativo. Os grafismos nos tecidos são referências específicas da cultura Mbundu. Os detalhes dourados nos móveis remetem diretamente aos recursos minerais de Angola, país que concentra 36 dos 51 minerais mais procurados no mundo, entre eles o ouro. Até a hidrografia, elemento central na história Mbundu como rota de fuga e resistência, aparece como referência simbólica no projeto.

“A hidrografia que favoreceu e possibilitou a fuga dos nativos; os recursos minerais presentes em Angola, que são 36 entre 51 mais procurados no mundo, dentre eles o ouro, representados em detalhes dos mobiliários; os grafismos dos tecidos; e a materialidade do vime, sisal e palha”, completa a arquiteta.
O resultado é um ambiente acolhedor que funciona plenamente como quarto de bebê, com conforto real para a criança e para a mãe, e que sustenta ao mesmo tempo uma narrativa visual densa e coerente. Essa dupla função é, aliás, o que define um bom projeto de decoração de interiores: ele não precisa escolher entre beleza e utilidade.
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Do conceito ao mobiliário: um projeto que foi além das paredes
Kesley Santiago não se limitou ao espaço construído. Para a CASACOR São Paulo, ela projetou também o mobiliário, os papéis de parede e o enxoval, todos desenvolvidos em parceria com a Muskinha, marca especializada em móveis infantis. Essa colaboração deu origem à coleção Muskinha by Kesley Santiago, lançada após a mostra com parte dos produtos criados especificamente para o ambiente Njinga.
Esse movimento, de projeto de mostra para coleção comercial, revela algo sobre a força do conceito. Quando um projeto tem identidade clara e fundamentação cultural real, ele cria demanda além das paredes onde foi apresentado. Aliás, é esse tipo de coerência que distingue projetos que ficam na memória daqueles que ficam apenas nas fotografias.
Para Kesley, que participava da CASACOR São Paulo pela primeira vez, o projeto Njinga cumpriu duas funções simultâneas: demonstrar competência técnica no design de interiores e apresentar uma visão de arquitetura que entende o espaço como lugar de memória, pertencimento e identidade.
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