Dois meses de obra, essa foi a janela de execução de toda a reforma deste apartamento de 210 m² em São Paulo, desenvolvida pelas arquitetas Camila Lourenço e Luiza Barros, do Estúdio Gris Arquitetura. O resultado, porém, está muito longe de parecer apressado.
O ponto de partida foi um desejo claro dos moradores: um casal avesso a grandes intervenções, que queria transformar o imóvel sem conviver meses com entulho, pó e imprevistos de canteiro. A solução encontrada pelas profissionais foi organizar todo o planejamento, incluindo a contratação de fornecedores, antes mesmo da entrega das chaves. Assim, no dia em que o apartamento passou para o novo dono, a obra já estava pronta para começar.
Essa estratégia, que parece simples, é justamente o que a maioria das reformas não consegue aplicar. Quando o projeto chega às mãos do arquiteto somente após a entrega do imóvel, os meses iniciais se perdem em cotações, especificações e esperas. Aqui, o cronograma foi invertido, e o resultado prático foi uma execução ágil e precisa.
A base que sustenta tudo: piso de travertino e paleta neutra
A primeira grande decisão de projeto foi a substituição do piso existente por travertino navona, pedra natural de tonalidade creme com veios sutis que estabelece um tom atemporal para toda a morada. A escolha não é apenas estética. O travertino carrega uma densidade visual que ancora o ambiente sem competir com o mobiliário, as obras de arte ou os revestimentos das demais superfícies.

Combinado ao travertino, a paleta neutra nas paredes completou a base do projeto. Essa dupla, piso de pedra natural e paredes em tons neutros, funciona como tela em branco para uma curadoria de peças que veio depois.
A área social e a viga que virou oportunidade
No hall de entrada, as arquitetas apostaram em um painel e forro de carvalho-americano que emolduram uma obra da artista Patricia Golombek. A madeira clara aquece a chegada ao apartamento e cria uma transição elegante entre o exterior e a área social.

A integração entre sala e varanda enfrentou uma limitação técnica comum em edifícios residenciais: a presença de uma viga invertida. O grande erro nesse tipo de situação é tentar disfarçar a viga com gesso ou revestimentos que raramente convencem.
Aqui, a solução foi outra. O escritório projetou uma estante vazada de marcenaria que se apoia nessa condição estrutural e transforma a viga em parte da composição. Funcional, visualmente leve e tecnicamente honesta.

A varanda também recebeu atenção especial, com jardim projetado pela paisagista Camila Guzo, com foco na privacidade do casal. A vegetação cria uma barreira visual natural sem comprometer a luminosidade do ambiente.
Mobiliário: quando o clássico e o contemporâneo dividem o mesmo espaço
A curadoria do mobiliário é um dos pontos mais densos do projeto. As arquitetas uniram peças de Sergio Rodrigues e Jorge Zalszupin, ícones do design brasileiro moderno, a nomes contemporâneos como Jacqueline Terpins e o coletivo studiobola.

Essa combinação não é apenas uma questão de gosto. Ela comunica algo sobre os moradores: pessoas que valorizam a história do design nacional sem abrir mão da produção atual.

“O mobiliário é um dos elementos que mais revela a personalidade de quem mora. Quando há uma mistura bem-feita entre o clássico e o contemporâneo, o espaço ganha camadas e profundidade que nenhum material de acabamento consegue substituir”, observa a arquiteta Camila Lourenço, do Estúdio Gris Arquitetura.
A área íntima: restauração, redistribuição e iluminação que trabalha a favor do espaço
Na zona privativa, as três suítes originais foram redistribuídas para atender às reais necessidades do casal: uma suíte principal, um quarto destinado às netas e um escritório para home office. A reorganização do layout mostra que uma boa reforma não precisa demolir tudo. Às vezes, o que muda é apenas a função de cada cômodo.

Uma decisão que merece destaque: o piso de madeira original das áreas íntimas foi preservado e restaurado, em vez de substituído. Além do apelo afetivo, a madeira existente já havia passado pelo processo de acomodação natural ao edifício, o que reduz riscos de movimentação futura.

O acabamento das áreas íntimas foi complementado por um projeto luminotécnico detalhado, com perfis embutidos de iluminação indireta e arandelas do Estúdio Orth. “A iluminação indireta tem a capacidade de suavizar os volumes e criar uma percepção de continuidade entre os ambientes, especialmente em apartamentos de planta mais compartimentada”, destaca a arquiteta Luiza Barros.

O resultado é um apartamento que não exibe obra. O que aparece são as escolhas: o piso de pedra natural, a madeira restaurada, as peças de design com história e um jardim que garante privacidade sem isolar.
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