Toda unidade entregue por uma construtora vem acompanhada de um documento chamado manual do proprietário, também conhecido como manual de uso, operação e manutenção. A exigência está prevista na NBR 14037, norma técnica que regula a elaboração desse tipo de manual para edificações habitacionais. Sem esse documento, a entrega da obra está tecnicamente incompleta.
O problema é que a maioria das pessoas recebe o manual dentro de uma pasta, junto com o contrato e o habite-se, e nunca mais abre. É aí que mora o risco, já que esse papel não é um brinde de boas-vindas. Ele é a peça que a construtora vai usar, em caso de disputa, para provar que um problema na sua casa foi causado por manutenção inadequada e não por falha de execução.
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O que precisa constar no manual, por norma?
A NBR 14037 estabelece um conteúdo mínimo obrigatório para o documento. Ele precisa trazer as características técnicas do imóvel, os materiais empregados em cada sistema construtivo e as instruções de uso de cada ambiente e instalação.
Também deve conter o cronograma de manutenções preventivas e os prazos de garantia aplicáveis a cada item da obra. Isso inclui, por exemplo, o tipo de impermeabilização usado nas áreas molhadas, a periodicidade recomendada para limpeza de calhas e ralos, o funcionamento do sistema elétrico e hidráulico do prédio e os cuidados específicos de cada revestimento.
O grande erro de muitas incorporadoras é entregar um manual genérico, copiado de outro empreendimento e mal adaptado ao projeto real. Isso é motivo suficiente para contestação. Já existe jurisprudência reconhecendo que um manual incompleto pesa contra a construtora em ações de indenização por vício construtivo.
Como o documento define o que é uso indevido?
Aqui está o ponto que a maioria dos proprietários ignora, já que o manual não serve só para orientar o morador no dia a dia. Ele serve, sobretudo, para delimitar a responsabilidade da construtora diante de qualquer problema futuro.
Se o manual instrui a limpar os ralos da varanda a cada três meses e o morador nunca faz isso, uma infiltração decorrente de entupimento deixa de ser vício de construção. Passa a ser uso indevido do imóvel, e a garantia não cobre o reparo.
O mesmo critério vale para pisos que exigem produto de limpeza específico, esquadrias que pedem lubrificação periódica e sistemas de aquecimento com vida útil condicionada a manutenções regulares. Notamos, ainda, que esse é o mecanismo central pelo qual muitas construtoras se protegem juridicamente: o manual cria uma obrigação de manutenção para o proprietário, e deixar de cumpri-la transfere o ônus do defeito para quem mora no imóvel.
Por que ele determina a validade das garantias?
O Código Civil brasileiro trata de forma diferente as falhas que comprometem a solidez e a segurança da edificação e os problemas em acabamentos e instalações. Estrutura tem prazo de garantia mais longo. Já itens como pintura, revestimentos e sistemas hidráulicos seguem prazos menores, detalhados justamente no manual, conforme a vida útil de cada material.
O que realmente faz diferença é entender qual prazo se aplica a cada elemento da construção. Sem essa referência, é comum o morador perder o direito de reclamar simplesmente por desconhecer que aquele item específico tinha um prazo de garantia mais curto que o da estrutura.
O manual também costuma trazer um cronograma de vistorias. Se ele não é seguido, a construtora pode alegar desgaste natural em vez de defeito de execução. Guardar o documento, seguir as recomendações de manutenção e registrar cada serviço realizado, com nota fiscal ou comprovante, é a forma mais eficaz de manter a garantia válida ao longo dos anos.
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O que fazer com o manual na prática?
O primeiro passo é localizar o documento e lê-lo com atenção nos primeiros meses após a entrega das chaves, não apenas guardá-lo na gaveta. Vale montar um checklist próprio, separando manutenções mensais, semestrais e anuais a partir das recomendações do fabricante de cada sistema.
É recomendado ainda, fotografar e documentar o estado do imóvel logo na entrega, comparando com as especificações técnicas descritas no manual. Esse histórico ajuda a provar que um item estava dentro do padrão recomendado e, mesmo assim, apresentou falha anos depois.
Aliás, tenha cuidado com o excesso de descuido nessa etapa. Por isso, é importante guardar comprovantes de dedetização, limpeza de caixa d’água e revisão do sistema de gás fortalece a posição do proprietário em qualquer disputa futura com a construtora, especialmente quando o problema aparece fora do prazo mais óbvio de garantia.
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