Existe uma situação que nenhum manual de arquitetura descreve: a de reformar um imóvel que já foi seu. A arquiteta Cristiane Schiavoni viveu exatamente isso. Depois de vender seu apartamento para o casal formado por Cleide e Janaína, recebeu um telefonema inusitado. As novas proprietárias queriam que ela conduzisse a reforma. Não qualquer reforma, mas uma transformação completa do layout, do décor e da funcionalidade de um espaço que a própria profissional havia habitado por anos.
“Para mim, foi um sentimento de realização”, ela conta. E faz sentido. Poucos profissionais chegam a um projeto conhecendo tão bem as limitações estruturais, as possibilidades de cada parede e o comportamento da luz em cada hora do dia. Esse repertório, que normalmente se constrói ao longo de semanas de visitas técnicas, já existia. O desafio era outro: desapegar do que havia sido seu para criar algo novo, inteiramente voltado para a vida de duas outras pessoas.
Sobre o especialista
Cristiane Schiavon, atua na área de arquitetura, decoração e reforma desde 1996 e hoje, o escritório que leva seu nome, tem mais de 20 anos de história, reunindo centenas de projetos dentro e fora do Estado de São Paulo.
Uma inversão que mudou tudo
A principal reivindicação do casal era uma cozinha integrada ao living. Parece simples, mas não era. Para que isso acontecesse, Cristiane precisou reorganizar o layout do apartamento, invertendo as posições da antiga cozinha e da área de serviço. A mudança favoreceu a circulação e abriu a planta de uma forma que o imóvel nunca havia permitido antes.

O grande erro em projetos de integração é pensar apenas na estética da abertura e ignorar o que acontece com o fluxo de pessoas. Aqui, a inversão não foi uma solução cosmética, ela resolveu um problema real de deslocamento entre a cozinha, a varanda e a sala. Com cooktop posicionado na península e a cuba voltada para a janela, o novo layout criou uma cozinha com lógica ergonômica clara, sem abrir mão do visual amadeirado combinado com cinza que define a identidade do ambiente. As prateleiras com temperos ao lado do cooktop são um desses detalhes que parecem decoração, mas são, antes de tudo, funcionalidade.
O sofá que virou ponto de partida
No living, a decisão mais inteligente foi também a mais sensível. As clientes quiseram manter o sofá que havia pertencido à própria arquiteta. Assim, o móvel foi enviado para reforma, retornou revestido em verde e se tornou o ponto de partida de todo o moodboard do ambiente.

A partir dessa cor, Cristiane trabalhou com combinações complementares, explorando o contraste entre o verde e o laranja, e combinações análogas, aproximando o verde do azul. O resultado é uma sala com alma, onde as peças de memória afetiva convivem com elementos contemporâneos sem que um anule o outro. No painel de TV, o mármore marrom imperial com acabamento rústico foi aproveitado do revestimento anterior.

A pedra polida no rack e uma lareira ecológica completam a composição, criando um foco visual que ancora o ambiente sem sobrecarregá-lo. A paixão das moradoras pelo vinho conduziu outra decisão relevante: a inclusão de uma adega climatizada sob medida e de uma cristaleira com portas de vidro reflecta. São peças que comunicam estilo de vida antes de comunicar decoração.
Varanda com três funções, sem perder a coerência
A varanda foi dividida em três zonas distintas: área gourmet, sala de jantar e lounge. O grande erro em varandas gourmet de apartamento é ignorar a questão da exaustão. A churrasqueira a gás foi a resposta técnica para esse problema. “Essa tipologia é excelente por não produzir tanta fumaça, sendo super indicada para quem mora em apartamento”, recomenda Cristiane.

Mas há um detalhe que costuma passar despercebido em projetos como esse: o calor gerado pelo equipamento. O móvel que sustenta a churrasqueira foi desenhado pela própria arquiteta com frisos estratégicos para liberar o calor acumulado. “Essa estratégia reduz o risco de acidentes domésticos”, ela explica. É o tipo de solução que não aparece nas fotos, mas que define a qualidade real de um projeto.

Na sala de jantar, a mesa com pontas curvas e capacidade para oito pessoas responde diretamente ao desejo do casal de receber bem. A escolha das curvas não é apenas estética, ela suaviza a circulação em torno do móvel em um espaço que precisa funcionar também como passagem. No lounge, quatro poltronas azuis em frente a um painel de madeira ripada compõem o canto de degustação. O painel, além do apelo visual e do contraste com o azul das poltronas, resolve com elegância o que seria apenas um problema de instalação: ele oculta a tubulação do ar-condicionado.
Lavabo: fazer muito com pouco espaço

O lavabo é o cômodo onde projetos corajosos se revelam. Cristiane optou por uma cuba de piso e torneira de teto, liberando as superfícies e criando a impressão de um espaço maior do que realmente é. O contraste entre o papel de parede claro e as louças e metais escuros entrega uma sofisticação que não depende de metragem. É uma composição de pares opostos que se equilibram com precisão.
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