A população mundial vai chegar a 10,3 bilhões de pessoas em meados da década de 2080, segundo o Relatório Perspectivas da População Mundial 2024, da ONU. Esse número, sozinho, já é motivo suficiente para tratar a crise da moradia como prioridade urgente em qualquer país e é exatamente esse cenário que motivou um dos estudos mais consistentes já publicados sobre construção modular em madeira.
O escritório internacional Perkins&Will, com mais de nove décadas de atuação e presença em dezenas de países, desenvolveu um sistema de habitação modular pré-fabricada em madeira engenheirada, pensado para produzir moradias de alta qualidade em menos tempo, com menor impacto ambiental e dentro das exigências regulatórias mais rígidas do mercado.
O tamanho real do problema que originou o estudo
A pesquisa nasceu como resposta direta à crise habitacional enfrentada pelo Canadá, hoje um dos mercados imobiliários menos acessíveis do mundo. Entre 2000 e 2021, o preço médio dos imóveis no país subiu 355%. No mesmo período, a renda mediana da população cresceu apenas 113%. A distância entre esses dois números é o retrato mais direto do que se convencionou chamar de crise de acesso à moradia.
Esse descompasso não é exclusividade canadense. Ele se repete, com variações, em boa parte dos países da OCDE, e é justamente por isso que o modelo desenvolvido pela Perkins&Will ganha relevância além das fronteiras do Canadá: propõe uma resposta estrutural, não paliativa, para um problema que é ao mesmo tempo econômico e climático.
Como funciona o sistema modular em madeira?
A proposta se apoia em quatro pilares técnicos: uma malha estrutural racionalizada, um conjunto reduzido de componentes pré-fabricados, princípios de planejamento modular e instalações prediais totalmente coordenadas antes da fabricação. Juntos, esses elementos simplificam cada etapa do processo construtivo, do projeto à aprovação regulatória, da fabricação em fábrica até a montagem final no canteiro.

O sistema foi desenvolvido em parceria com empresas do setor madeireiro e instituições acadêmicas, o que garante ao modelo uma base técnica testada, não apenas conceitual. A madeira engenheirada usada no sistema é um material renovável e de baixo carbono, com uma vantagem construtiva pouco explorada até aqui: ela se adapta naturalmente aos processos de pré-fabricação, permitindo produção em escala industrial sem perda de precisão dimensional.
Por que a pré-fabricação não significa perda de qualidadew
Um dos pontos que o estudo se propôs a testar diretamente foi uma percepção antiga e equivocada: a de que construção pré-fabricada resulta em edifícios padronizados, repetitivos e esteticamente pobres. Os resultados contradizem essa ideia.
O sistema permite acomodar diferentes tipologias habitacionais, soluções de fachada e condições de mercado dentro da mesma lógica estrutural. Isso significa que a mesma malha construtiva usada em uma habitação totalmente acessível pode dar origem a unidades voltadas ao mercado convencional, sem que uma opção comprometa a qualidade arquitetônica da outra. É esse tipo de flexibilidade que separa um sistema modular bem projetado de uma simples linha de montagem.
O que muda na prática para quem mora e para quem constrói?
A racionalização da malha estrutural tem um efeito direto na experiência de quem vai habitar essas unidades: espaços mais amplos, melhor iluminação natural, ventilação cruzada eficiente e layouts pensados para a rotina de famílias, não apenas para otimizar metragem. A presença da madeira aparente nos ambientes internos também contribui para o bem-estar dos moradores, seguindo os princípios do design biofílico, a ideia de que contato visual e sensorial com materiais naturais melhora a qualidade do ambiente construído.
Do lado da construção, os ganhos são igualmente concretos. Componentes pré-fabricados reduzem a necessidade de mão de obra no canteiro e encurtam cronogramas de obra de forma significativa. Ao diminuir a dependência de concreto, aço e gesso, o sistema também corta as emissões de carbono incorporado da edificação, um dos indicadores mais observados atualmente em projetos que buscam certificação ambiental.
- Veja também: Casa pré-fabricada de alto padrão: o que diferencia do modelo popular e por que virou tendência no Brasil
Um modelo que reduz risco para quem financia e planeja
Talvez o efeito mais estratégico do estudo esteja fora do canteiro de obras. Ao alinhar critérios regulatórios, industriais e de habitabilidade em um único sistema replicável, o modelo cria um processo escalável que reduz riscos para municípios, financiadores e equipes de projeto. Isso facilita a aprovação de novos empreendimentos habitacionais e fortalece toda a cadeia de suprimentos ligada à construção em madeira, incluindo um setor industrial canadense ainda pouco explorado em todo o seu potencial econômico.
O estudo prova, com dados e testes técnicos, que é possível endereçar simultaneamente três urgências que normalmente competem entre si em projetos habitacionais: velocidade de entrega, baixo impacto ambiental e qualidade de moradia. Reunir essas três variáveis em um único sistema construtivo é o que torna essa pesquisa relevante para muito além do mercado canadense.
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