Em um lote estreito da mata nativa de Boiçucanga, no litoral norte de São Paulo, encontrar espaço para uma casa que respire e ainda proteja a privacidade dos moradores é um desafio técnico antes de ser uma questão estética. Foi esse o ponto de partida da Casa Caiçara, projeto residencial de 180 m² assinado pelo Studio Carlito em parceria com a arquiteta Renata Pascucci. A encomenda partiu de um casal de empresários da região, que buscava um imóvel capaz de cumprir duas funções ao mesmo tempo: servir como refúgio pessoal e funcionar como ativo rentável para locação por temporada.
O grande mérito do projeto está na forma como resolve a implantação. Em vez de posicionar a casa alinhada à frente do terreno, como manda o senso comum em lotes urbanos, a solução recua a fachada principal e cria um jardim de transição logo na entrada. Esse recuo funciona como uma antessala vegetal: suaviza a chegada, cria distância da rua e já entrega ao visitante o primeiro contato com o paisagismo tropical que domina o restante do projeto.
Casa de vila: a lógica por trás da setorização
A residência foi dividida em dois blocos distintos, unidos por uma passarela coberta e aberta ao jardim. Essa estratégia, batizada de conceito “casa de vila”, resolve um problema recorrente em lotes compactos: a dificuldade de conciliar convívio social e privacidade sem que os ambientes se atropelem.

No bloco social, a casa se abre por completo. Sala de TV, cozinha com ilha de quartzo e varanda gourmet formam um único ambiente integrado, sem paredes que interrompam a circulação.
A varanda gourmet, por sua vez, se conecta a um deck de madeira cumaru e à piscina revestida de pedra hijau, um material de origem indonésia que ganhou popularidade em projetos de arquitetura tropical justamente pela tonalidade acinzentada que dialoga bem com vegetação densa.

Um pergolado com brise de biriba cobre parte dessa área externa. A função do brise vai além do estético: ele filtra a incidência solar ao longo do dia e projeta sombras móveis sobre as paredes em pedra moledo e cimento queimado, criando uma textura visual que muda de hora em hora conforme o sol se desloca.
Privacidade nas suítes sem abrir mão da ventilação

Atravessar a passarela leva ao segundo volume da casa, reservado exclusivamente às três suítes. Aqui a arquitetura resolve outro problema clássico de casas de praia: como garantir conforto térmico em uma região de calor úmido sem depender só de climatização artificial.
Cada suíte tem deck privativo e aberturas amplas voltadas para o jardim, o que permite ventilação cruzada constante mesmo nos meses mais quentes.

Os banheiros seguem a mesma lógica: em vez de ambientes fechados e artificialmente iluminados, cada um se conecta a um pequeno jardim reservado, garantindo luz natural e ventilação sem comprometer a privacidade dos moradores.
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Materiais que contam a história do litoral
A escolha de acabamentos reforça a identidade caiçara sem cair no clichê rústico. O piso em porcelanato cinza serve como base neutra para elementos mais expressivos, como portas e janelas garimpadas em demolição, que trazem para dentro da casa a marca do tempo e da reutilização.

A caiação terrosa nas paredes remete diretamente à arquitetura tradicional das vilas de pescadores da região, enquanto os detalhes em palha e os ladrilhos hidráulicos nos banheiros adicionam camadas de textura sem competir entre si.
O resultado é uma casa que não tenta reproduzir literalmente o passado caiçara, mas também não abre mão dele. Ela usa a linguagem construtiva local como ponto de partida e resolve, com precisão técnica, as exigências contemporâneas de conforto, privacidade e rentabilidade que o programa exigia.

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