Um apartamento de dois quartos com vaga dupla de garagem e sala de jantar separada da sala de estar. Essa ainda é a planta padrão vendida como ideal por boa parte das incorporadoras brasileiras. O problema é que quem está comprando ou alugando hoje não pediu isso.
A Geração Z, nascida a partir de meados dos anos 1990, chegou à fase de sair da casa dos pais com prioridades completamente diferentes das gerações anteriores. Ela não sonha com garagem para dois carros. Sonha com espaço para o cachorro circular, um canto silencioso para trabalhar de casa e uma área de serviço que não fique isolada lá no fundo do apartamento, esquecida atrás da cozinha.
O carro perdeu o posto de prioridade
Durante décadas, a vaga de garagem foi item obrigatório em qualquer lançamento imobiliário. Hoje, é um dos primeiros pontos que essa geração está disposta a negociar. Menos jovens tiram carteira de motorista na idade em que os pais tiravam, e o transporte por aplicativo, o compartilhamento de veículos e a bicicleta assumiram parte do trajeto urbano.
Isso não significa abandono da mobilidade, mas sim um outro tipo de mobilidade. Bicicletário amplo, seguro e coberto virou item de peso na decisão de compra, junto com paraciclos para patinetes elétricos e pontos de recarga para bicicleta motorizada. Empreendimentos que ainda tratam esse espaço como um cantinho apertado ao lado do lixo estão perdendo um argumento de venda relevante.
Home office deixou de ser gambiarra
O trabalho remoto ou híbrido normalizou uma exigência que antes soava como luxo: um espaço fixo e silencioso para trabalhar dentro de casa. Não se trata mais de um cantinho improvisado na sala com notebook no colo. A Geração Z busca ambientes com iluminação adequada para videochamadas, isolamento acústico mínimo e, sempre que possível, uma porta que feche.

Plantas com studio integrado à sala, sem qualquer divisória, funcionam mal para quem trabalha em casa todos os dias. O ideal é um nicho fechado ou semifechado, ainda que pequeno, posicionado longe da cozinha e do ruído da rua. Projetos recentes já testam soluções como portas de correr em vidro jateado, que separam o ambiente de trabalho sem cortar a luz natural.
Pets como membros da família, não como exceção na regra do condomínio
Ter um cão ou gato deixou de ser detalhe irrelevante na hora de escolher onde morar e virou condição. Pet friendly não é mais diferencial de marketing, é filtro de busca. Plantas com varanda ampla, piso resistente a arranhões, área externa comum com grama sintética e regulamento de condomínio flexível fazem diferença real na decisão final.
Muitos empreendimentos ainda tratam o animal como problema a ser tolerado, com regras restritivas de elevador e circulação. A geração que hoje aluga e compra apartamento pensa o oposto: o edifício precisa ser projetado considerando que o pet mora ali também, com a mesma naturalidade de um filho pequeno.
Lavanderia visível e acessível, não escondida
A área de serviço apertada e isolada, historicamente relegada ao fundo do apartamento, também está sendo repensada. A geração mais jovem valoriza uma lavanderia funcional, ventilada e integrada de forma prática ao fluxo da casa, sem precisar atravessar o apartamento inteiro carregando roupa suja.
Isso reflete uma mudança maior: menos apartamentos com empregada residente, mais moradores que fazem sozinhos as tarefas domésticas e querem que essas tarefas sejam confortáveis, não escondidas como se fossem motivo de vergonha.
O erro de projetar para uma geração que já está saindo do mercado
As incorporadoras que continuam lançando plantas de três quartos com suíte máster e duas vagas de garagem estão atendendo a um público que compra cada vez menos imóvel novo: famílias tradicionais em fase de consolidação patrimonial. A Geração Z compra mais tarde, mora sozinha por mais tempo, valoriza metragens menores e bem resolvidas, e prefere localização e infraestrutura de bairro a metros quadrados extras que nunca vai usar.
Metragens compactas com plantas flexíveis, áreas comuns compartilhadas de coworking, espaços para pets e mobilidade alternativa deixaram de ser nicho. Representam onde o mercado imobiliário está de fato crescendo. Ignorar essa mudança não é conservadorismo de projeto. É desconexão com quem vai efetivamente morar ali.
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