Curitiba costuma ser lembrada pelo Jardim Botânico e pela Ópera de Arame, mas o verdadeiro laboratório da identidade arquitetônica da cidade está em outro lugar: no centro histórico e no Centro Cívico, onde dezenas de edifícios contam a transição do ecletismo para o modernismo brasileiro com uma coerência rara no país.
O ponto de partida dessa história é o Palácio Avenida, na Rua XV de Novembro. Erguido entre 1927 e 1929 pelo empresário sírio-libanês Feres Merhy, o edifício representa o fim tardio do ecletismo curitibano, já contaminado por linhas geométricas de influência art déco. A fachada de 90 metros mistura pilastras decorativas, cornijas ornamentadas e grandes janelas em arco, elementos que dialogam com a tradição clássica sem abandonar certa economia de ornamento.
É esse hibridismo, entre o antigo e o que estava por vir, que torna o Palácio Avenida uma peça-chave para entender como a cidade absorveu a modernidade sem romper de forma abrupta com seu passado. Décadas depois, o prédio quase foi demolido pelo banco que o adquiriu, e só sobreviveu graças ao tombamento da paisagem da Rua XV, que obrigou a preservação da fachada original mesmo durante a reforma que o transformou em sede bancária.
A verticalização que mudou a paisagem da cidade
Enquanto o Palácio Avenida ainda carregava resquícios do passado eclético, outros edifícios do centro assumiam de forma mais direta o vocabulário moderno. O Edifício Marumby, com 12 andares, é considerado o primeiro condomínio vertical e o primeiro arranha-céu da cidade, marco que abriu o processo de verticalização iniciado nos anos 1940. Seu estilo, categorizado como transição entre pré-modernismo e art déco, virou símbolo de uma Curitiba que começava a se enxergar como capital cosmopolita, capaz de dialogar com os grandes centros urbanos do país.

Essa mesma lógica se repete em outros exemplares do calçadão, como o Edifício Brasilino Moura, conhecido popularmente pelo apelido “balança, mas não cai”, e nos prédios residenciais das imediações da Praça Osório, entre eles o Itália, o Provedor André de Barros e o Gemini. São construções que hoje passam quase despercebidas para quem caminha distraído pelo centro, mas que documentam, de forma silenciosa, o momento em que a arquitetura moderna deixou de ser exceção e virou linguagem corrente na cidade.
Nos halls desses edifícios, o repertório modernista aparece com clareza: pé-direito alto, mezaninos, revestimentos em mármore e o uso generoso de cobogós, elemento vazado que garante ventilação e um jogo particular de luz e sombra. O Edifício Maurício Thá, projetado por Elgson Ribeiro Gomes em 1969, preserva até hoje esse conjunto praticamente intacto, funcionando como um raro registro tridimensional de como se pensava a recepção de um edifício residencial havia mais de cinquenta anos.
Centro Cívico: a maior concentração modernista do país
Se o centro histórico revela a transição, o Centro Cívico mostra o modernismo consolidado e institucional. A concentração de órgãos públicos na região, a partir da década de 1950, reuniu num só bairro o que se tornou, segundo especialistas em patrimônio, a maior aglomeração de arquitetura moderna por metro quadrado do Brasil. O Palácio Iguaçu e o conjunto da Reitoria da Universidade Federal do Paraná seguem à risca os cinco pontos definidos por Le Corbusier: pilotis, estrutura independente da vedação, terraço-jardim, planta livre e fachada livre.

Essa arquitetura oficial buscava comunicar, através do concreto armado, do vidro e do ferro, os valores de racionalidade, progresso e desenvolvimento técnico que o Paraná queria projetar naquele período. O Edifício da Caixa Econômica Federal, na Praça Carlos Gomes, e os prédios da antiga Secretaria de Segurança Pública seguem o mesmo raciocínio, aproximando-se do repertório Bauhaus, com estruturas metálicas e envidraçadas que reduzem ao mínimo qualquer ornamento supérfluo.
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Um precursor esquecido e uma cena que segue viva
Poucos sabem que Curitiba antecipou o modernismo residencial já na década de 1930, com a chamada casa sem telhado de Frederico Kirchgässner, um experimento arquitetônico raro para a época no Brasil. Esse pioneirismo ganharia força institucional em 1962, quando a Universidade Federal do Paraná criou seu curso de Arquitetura e Urbanismo, justamente no momento em que o modernismo vivia seu auge nacional.
O legado segue presente, mas vulnerável. Grande parte desses edifícios não possui tombamento, o que deixa a preservação de halls, fachadas e elementos originais quase inteiramente nas mãos de moradores e síndicos. A discussão sobre incluir essas construções na lei municipal de proteção ao patrimônio cultural avança devagar, enquanto reformas mal planejadas seguem apagando detalhes que não voltam mais.
Entender essa camada da cidade muda a forma de olhar para Curitiba. O modernismo é a espinha dorsal que explica por que a capital paranaense, décadas antes de virar referência mundial em urbanismo, já discutia função, técnica e forma com uma maturidade rara entre as cidades brasileiras da mesma época.
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