A escolha por painéis ripados vazados para emoldurar a cama, em vez de uma parede fechada convencional, é o tipo de decisão que separa um projeto pequeno bem resolvido de um apartamento apertado. Foi essa lógica que guiou a reforma de um estúdio de 26 m² no bairro de Perdizes, em São Paulo, assinada pelo escritório Carolina Bordonco Interiores.
O apartamento pertence a um jovem casal que queria um espaço com identidade própria, sem abrir mão de funcionalidade. A obra levou dois meses e alterou praticamente toda a planta original. O único cômodo que ficou de fora da intervenção foi o banheiro, já decorado pelos próprios moradores antes da reforma.
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Cada função precisa caber, literalmente
Em projetos com metragem reduzida, o erro mais comum é tentar encaixar móveis pensados para apartamentos maiores. Aqui, o caminho foi o oposto: tudo foi desenhado sob medida, da marcenaria da cozinha ao painel que sustenta a televisão.

“O segredo em projetos pequenos é alinhar desejos e funcionalidades. Cada centímetro precisa contar uma história e ter uma função prática”, afirma a arquiteta Gabriela Monteiro, especialista em design compacto.
Essa frase resume bem o raciocínio por trás da integração de ambientes do estúdio. A varanda, marcada por uma laje aparente, deixou de ser um apêndice e passou a funcionar como extensão do living, reforçando o caráter urbano do projeto. Já o home office foi posicionado junto à cozinha, justamente onde a luz natural é mais generosa ao longo do dia, o que evita depender de iluminação artificial no período de trabalho.
Cor e textura como ferramenta, não decoração
A paleta escolhida combina cimento queimado, verde e laranja, e cada uma dessas cores cumpre uma função dentro do espaço. Não é uma escolha estética isolada, mas uma decisão que ajuda a organizar visualmente o estúdio sem sobrecarregar o olhar.

“Cores como o verde são versáteis e criam sensação de frescor. Quando combinadas com texturas urbanas, como o cimento queimado, criam ambientes sofisticados e acolhedores”, explica o designer de interiores Rafael Almeida.
Vale reforçar que misturar tons frios com uma base neutra, como o cimento queimado, só funciona quando há equilíbrio na proporção entre eles. Excesso de cor em espaços pequenos tende a fragmentar o ambiente visualmente, fazendo-o parecer menor do que realmente é.

Neste projeto, o verde e o laranja aparecem em pontos específicos, enquanto o cimento queimado assume o papel de base, distribuído entre piso e algumas superfícies.
Privacidade sem fechar o espaço
A cama foi posicionada dentro de uma estrutura emoldurada por painéis ripados vazados, uma solução que delimita a área de descanso sem recorrer a uma parede convencional. Assim, o ambiente ganha privacidade visual, mas mantém a circulação de ar e de luz entre os cômodos, o que evita a sensação de compartimentação típica de estúdios mal planejados.
A iluminação indireta instalada nessa área contribui para criar um clima mais intimista à noite, contrastando com a claridade natural que domina o restante do apartamento durante o dia. É justamente essa alternância entre luz direta e indireta que dá ritmo ao espaço, algo que passa despercebido à primeira vista, mas que faz diferença na experiência de morar ali.
Um projeto com identidade
Além da funcionalidade, o apartamento reserva um detalhe pessoal escondido na decoração: o personagem Wall-E, referência à profissão de um dos moradores, projetista de infraestrutura. É um elemento discreto, mas que mostra como o projeto foi pensado a partir de quem vive ali, e não de um padrão genérico aplicado a qualquer estúdio pequeno.

O resultado reforça um ponto que costuma ser esquecido em reformas compactas: marcenaria sob medida, paleta de cores bem definida e zoneamento inteligente valem mais do que metros quadrados extras. Em 26 m², o casal ganhou living, cozinha integrada, home office, varanda de uso diário e uma área de descanso privativa, tudo dentro do mesmo perímetro que muitas vezes é subaproveitado em plantas maiores.
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