As fachadas do Seridó potiguar combinam rosa, mostarda, laranja e azul-turquesa em muros baixos e platibandas que marcam o desenho das cidades do interior do Rio Grande do Norte. Essa paleta, construída ao longo de décadas de pintura doméstica, virou matéria-prima de um projeto de crochê que chegou à programação da São Paulo Fashion Week.
A Coleção Poti nasce do trabalho de 17 artesãs dos grupos Acari Criativa e Casa do Artesão do Seridó e transforma essas referências de cor e forma em peças de vestuário, ao lado de uma segunda linha que parte do peixe acari, associado ao nome da cidade de origem do grupo.
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Da parede para o fio: como a arquitetura entra na coleção
Uma fachada e uma roupa seguem lógicas construtivas diferentes. Para aproximar as duas, as artesãs precisaram escolher o que seria traduzido: uma combinação de cores, uma sequência de formas ou a relação entre vãos e cheios de uma construção.
Esse recorte evita que a peça vire uma miniatura literal da casa que serviu de referência, e sustenta a linha Morada no Meu Caicó, que trabalha diretamente com o repertório arquitetônico da cidade.
O resultado aparece nos tons escolhidos para cada vertente da coleção. Rosa, mostarda, laranja e azul-turquesa conduzem a linha de inspiração arquitetônica, enquanto verdes e tons claros aparecem no conjunto ligado a Acari e ao peixe que dá nome ao município.
A separação cromática funciona como critério de leitura: quem vê as peças reconhece duas narrativas territoriais distintas antes mesmo de saber o nome de cada linha.
O crochê como linguagem técnica, não cópia
O crochê é construído por laçadas e pontos, com decisões sobre fio, tensão e sequência de execução que determinam o que pode ou não ser representado no tecido. Um desenho arquitetônico precisa encontrar uma forma de existir dentro dessas limitações técnicas, o que impede qualquer tentativa de reprodução fiel da fachada original.
Duas artesãs observando a mesma rua podem chegar a resultados diferentes, porque selecionam elementos distintos e carregam experiências próprias de trabalho manual. A identidade territorial, nesse caso, não depende de peças idênticas.
Ela se sustenta na escolha consciente de cor, forma e técnica, feita por quem domina o ofício e sabe onde o material permite ou recusa determinada solução.
A artesã Kalinne Alves, que já produzia sapatinhos infantis e amigurumis, relatou durante as oficinas do Sebrae-RN estar se adaptando à criação de vestuário com referências regionais.
O caso ilustra bem o processo: um conhecimento manual já consolidado encontra um novo tipo de objeto e passa a orientar decisões de projeto que antes não faziam parte da rotina dessas profissionais.
Morada no Meu Caicó e a linha inspirada no peixe acari
A coleção organiza seu repertório em duas frentes complementares. A primeira, batizada de Morada no Meu Caicó, parte direto da paisagem construída da cidade: cores de muro, recortes de platibanda e a sensação de calor visual típica das ruas do Seridó.
A segunda frente usa o peixe acari como símbolo, trazendo tons mais esverdeados e claros que remetem à água e à paisagem natural associada ao nome do município de Acari.
Essa divisão em duas narrativas evita que a coleção dependa de um único motivo repetido em todas as peças. Cada linha tem autonomia própria, o que amplia as possibilidades de combinação e dá à Coleção Poti um repertório mais flexível para apresentação em diferentes contextos de moda e de artesanato.
Um caminho que começou antes do palco paulistano
A presença no HUB da São Paulo Fashion Week, anunciada para os dias 14 a 16 de outubro, é etapa recente de um processo que vem sendo construído desde maio. Nesse período, o Sebrae-RN promoveu oficinas em Acari e Caicó dentro da iniciativa Feito de Criar Produto, reunindo artesãs e consultoria criativa para desenvolver peças associadas à identidade cultural da região.
A metodologia partiu da escuta e da construção conjunta. A proposta buscava ampliar as possibilidades de circulação dos produtos artesanais, aproximando o conhecimento manual de decisões sobre desenho, acabamento e apresentação em espaços comerciais diferentes dos já frequentados por esses grupos. Em julho, o trabalho foi apresentado no Ginga Moda RN como processo de criação compartilhada, antes de chegar à vitrine nacional.
O que a vitrine paulistana muda para o artesanato potiguar?
A mentoria de Celina Hissa, da Catarina Mina, e a parceria entre Sebrae-RN e Instituto Riachuelo deram estrutura comercial a um saber que já existia nas mãos das artesãs de Acari e Caicó. Um evento de moda reúne públicos com interesses variados: quem busca técnica, quem observa design e quem pensa em possibilidades de uso.
A forma de apresentar a origem e o processo de produção aproxima essas leituras diferentes e torna visível o trabalho de quem está por trás de cada peça. A participação em um espaço de circulação nacional amplia o contexto em que esse trabalho é visto, sem garantir isoladamente resultados comerciais.
Para acompanhar os efeitos dessa exposição, é preciso seguir as informações divulgadas pelas próprias artesãs e pelas instituições envolvidas nas próximas etapas do projeto.
Para quem acompanha de fora, o interesse pode começar pela surpresa de reconhecer uma casa ou um peixe em uma peça de roupa. Essa aproximação revela um processo que liga paisagem observada, fio trabalhado e conhecimento manual, mantendo a autoria das artesãs presente em cada decisão da Coleção Poti.
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