Um inseto de poucos milímetros guarda uma lição que a indústria química levou décadas para aprender: dá para ser branco sem depender de mineração pesada. É esse princípio que uma startup suíça transformou em produto, e que agora chega às fábricas de móveis com um nome conhecido no setor: a Ikea.
O ponto de partida da história é o dióxido de titânio, pigmento usado há décadas para deixar tintas, plásticos, cosméticos e até alimentos com um branco intenso e opaco. Ele é barato, eficiente e, por isso mesmo, difícil de substituir. O problema apareceu quando estudos passaram a associar o composto a riscos à saúde. Em 2022, a União Europeia proibiu seu uso como aditivo alimentar, e o mercado global começou a procurar, com urgência, um substituto que funcionasse tão bem quanto.
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Como a estrutura do besouro virou pigmento
A resposta veio da biomimética, área que observa soluções da natureza para resolver problemas de engenharia e design. A empresa suíça Seprify se inspirou em um besouro cujo exoesqueleto parece branco brilhante não por causa de pigmento, mas pela estrutura microscópica das escamas, que dispersa a luz de forma extremamente eficiente.

“Não é difícil fazer qualquer coisa ficar branca. Mas fazer isso usando pouquíssimo material e filmes muito finos é o desafio que esse besouro resolveu muito bem ao longo de milhares de anos de evolução”, explica Lukas Schertel, CEO e cofundador da Seprify, empresa nascida de pesquisas conduzidas nas universidades de Friburgo e Cambridge.
A matéria-prima escolhida foi a celulose, descrita por Schertel como o material vegetal mais abundante disponível no planeta. A partir dela, a equipe desenvolveu estruturas capazes de imitar o mesmo mecanismo óptico das escamas do inseto, criando um pó branco pensado para substituir diretamente o dióxido de titânio nas fórmulas já usadas pela indústria, sem exigir reformulação do processo produtivo.
Por que isso interessa à Ikea e ao design de móveis
A gigante sueca dos móveis, por meio de sua empresa controladora, investiu na Seprify e já testa a aplicação do pigmento em peças de mobiliário. O interesse faz sentido dentro da estratégia de circularidade da marca: como o material é derivado de celulose, um móvel de madeira revestido com esse pigmento tende a ser mais fácil de reciclar ao final da vida útil, já que não introduz um mineral estranho à composição orgânica da peça.
Do ponto de vista ambiental, a comparação com o processo tradicional é direta. O dióxido de titânio precisa ser minerado e processado industrialmente, etapa que consome energia e gera emissões relevantes de CO2. O pigmento à base de celulose, segundo a Seprify, utiliza cerca de metade da quantidade de material necessária para atingir o mesmo nível de brancura, o que reduz o impacto sem comprometer o resultado visual.
Um material com mais de uma aplicação
O potencial do produto não se limita à decoração. Na indústria alimentícia, o pigmento pode ocupar o espaço deixado pelo dióxido de titânio em centenas de aplicações que hoje ainda dependem do composto, principalmente fora da União Europeia. No Brasil, a Anvisa ainda autoriza o uso em determinadas categorias de alimentos, mas novas liberações estão suspensas desde 2021 e a substância segue em reavaliação.

Pesquisas de 2025 apontam o dióxido de titânio como possível desregulador endócrino, associado a alterações nos níveis de açúcar no sangue e a fatores de risco para obesidade e diabetes. Há também indícios de que ele possa agir como neurotoxina. A Comissão Europeia chegou a classificá-lo como suspeito de causar câncer, mas recuou após pressão do setor alimentício.
O uso vai além de tintas e comida. O composto também está presente em protetores solares, e é justamente aí que a versão ajustada do pigmento da Seprify ganha outra função. Em vez de dispersar a luz visível, o material pode ser calibrado para dispersar a radiação ultravioleta, entregando proteção solar sem deixar aquele efeito esbranquiçado típico de alguns filtros físicos e sem os questionamentos ambientais ligados aos danos em recifes de coral.
- Veja também: Iluminação no varejo: como a luz influencia a experiência do consumidor e fortalece a identidade das marcas
Do laboratório para a produção em escala
A Seprify já iniciou a fabricação em parceria com produtores terceirizados, e mais de cem empresas testam o material em diferentes estágios. A expectativa da equipe é que, com a ampliação da produção e a eventual construção de fábricas próprias, o custo caia o suficiente para competir diretamente com o dióxido de titânio em segmentos como tintas.
Para Schertel, o objetivo vai além de um único produto. “O que tentamos mostrar é que, com biomateriais, é possível trazer sustentabilidade sem comprometer o desempenho”, afirma. Segundo ele, quando o mercado comprova essa equivalência na prática, a confiança em outras soluções de base biológica tende a crescer junto.
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