Nem toda reforma de cobertura começa pelas paredes. Nesta cobertura de 500 m² em Salvador, o ponto de partida foi a estrutura em si: o escritório Gabriella Machado Arquitetura propôs a elevação dos pisos e a construção de uma nova cobertura de estrutura metálica, o que garantiu um pé-direito superior a 3 metros na área social.
O resultado é uma casa suspensa que redefine a relação entre interior, paisagem e fluxo de uso e que entrega, no último degrau da escada, a revelação da Baía de Todos os Santos.
A inversão que muda tudo
O grande mérito do projeto está na inversão da lógica tradicional de uso dos pavimentos. Ao contrário do que se costuma fazer em coberturas de alto padrão, a área íntima foi alocada no andar inferior, resguardando os quartos do movimento social. O pavimento superior ficou reservado para os espaços de convivência, onde a vista para a Baía de Todos os Santos se abre com generosidade para quem chega.
Essa decisão não é apenas estética. Ela resolve um problema real de conforto térmico e acústico em projetos de cobertura: manter os dormitórios mais afastados da área de maior incidência solar e do barulho das áreas sociais. O resultado é um zoneamento funcional que serve tanto à rotina quanto às ocasiões de receber.
A escada que constrói o percurso
A circulação vertical entre os dois andares deixa de ser um elemento apenas funcional e passa a ter um aspecto de narrativa. A escada helicoidal escultural, executada em mármore arabescato e madeira freijó, organiza o percurso com precisão: quem chega pelo vestíbulo com elevador é conduzido ao topo com a visão do mar revelada somente no último degrau.
É uma decisão de projeto arquitetônico que demonstra maturidade projetual. O drama visual foi guardado para o momento exato, funcionando como um dispositivo de emoção espacial.
O pavimento inferior abriga uma sala de TV familiar, uma copa revestida em azul e quatro suítes. A suíte master, com orientação privilegiada para a Baía, integra-se visualmente à banheira de imersão com jardim vertical, elemento que faz a transição entre os dois banheiros independentes projetados para o casal.
Essa conexão entre o banho e o verde vai além do visual: a vegetação traz umidade regulada ao ambiente e cria uma experiência sensorial que o design de interiores convencional raramente oferece em um mesmo cômodo.
Área social: discrição técnica como escolha estética
No pavimento superior, a sala de estar foi pensada para que nada disputasse atenção com a paisagem. A estante integrada esconde a televisão por meio de painéis de correr, recurso cada vez mais adotado em projetos residenciais de alto padrão para manter o ambiente visualmente limpo quando o aparelho não está em uso. O grande erro em projetos desse porte é deixar a TV como protagonista em um ambiente onde o quadro natural já existe. Aqui, esse erro foi evitado com precisão técnica.
Na área gourmet, os eletrodomésticos foram mimetizados na marcenaria planejada, garantindo continuidade visual e reforçando o conceito clean que permeia todo o projeto. Essa integração entre equipamentos e mobiliário exige detalhamento criterioso ainda na fase de projeto, pois envolve alinhamento de profundidades, acabamentos e sistemas de ventilação dos equipamentos embutidos — um detalhe que muitos projetos negligenciam e que compromete o resultado final.
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O exterior como extensão do projeto
A área externa recebeu tratamento igualmente criterioso. O estar é emoldurado por um jardim vertical, que além de agregar textura e cor ao revestimento de fachada, funciona como elemento de transição entre o interior sofisticado e o céu aberto de Salvador. Aliás, o jardim vertical em coberturas cumpre ainda uma função técnica relevante: contribui para o isolamento térmico da laje e reduz a temperatura superficial da estrutura exposta ao sol.
A piscina foi completamente repaginada com mármore azul, material que dialoga diretamente com a tonalidade do oceano visível ao horizonte. Não é uma coincidência cromática, é uma decisão projetual que faz o ambiente se comportar como extensão da paisagem, dissolvendo os limites entre o espaço construído e o mar ao fundo.
O escritório Gabriella Machado Arquitetura assina um projeto em que cada detalhe tem razão de ser, da escolha do arabescato na escada helicoidal à piscina de mármore azul que conversa com a Baía. O que poderia ser apenas uma reforma de cobertura se tornou o redesenho completo de como uma família habita e experimenta seu espaço mais elevado na cidade.
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