Em arquitetura, algumas das decisões mais inteligentes não nascem em escritório. Nascem de uma varanda com sol demais e de alguém disposto a resolver o problema de verdade. Foi exatamente isso que aconteceu em Ituporanga, no interior de Santa Catarina, onde uma casa de 164 m² construída em 1998 voltou ao centro das atenções depois que vídeos publicados pela neta da moradora ultrapassaram 2,3 milhões de visualizações no Instagram.
A estrutura pertence a Almira Berger Cellarius, de 78 anos. O projeto foi inteiramente concebido por seu marido, Jens Cellarius, que não tinha formação técnica formal. “Meu marido, com apenas o 2° ano de Ensino Fundamental completo, foi quem projetou e executou toda a obra”, lembra Almira.
O problema que originou tudo
A motivação era direta e sem abstrações: a fachada da casa recebia sol intenso na varanda durante a tarde, o que tornava o momento do chimarrão pouco confortável. “Meu marido queria tomar chimarrão na sombra, porque a fachada da casa pegava o sol da tarde na varanda. Então, ele a projetou para girar e conseguir posicioná-la na sombra”, conta Almira.
Esse raciocínio, aparentemente simples, é o mesmo princípio que orienta conceitos sofisticados de arquitetura bioclimática: adequar a posição da edificação às condições solares para melhorar o conforto térmico sem depender de ar-condicionado ou reformas. Jens chegou a essa conclusão por conta própria, com ferramentas que ele mesmo fabricou.
A construção foi concluída em sete meses e inaugurada em 8 de agosto de 1998, na comunidade Nossa Senhora de Fátima, em Ituporanga.
Como a casa funciona
O que gira não é a estrutura inteira, mas o segundo pavimento, com cerca de 64 m², que abriga três quartos, banheiro, sala e varanda. O andar térreo permanece fixo, enquanto o piso superior completa uma volta de 360° sobre um sistema de engrenagens e roldanas.
Originalmente, o mecanismo era manual. Jens projetou uma manivela e círculos de ferro que ele mesmo produziu, permitindo que o andar superior fosse reposicionado conforme a incidência do sol ao longo do dia. Com o tempo, o sistema evoluiu.
“Hoje, o sistema é elétrico porque estava ficando muito pesado para eu mostrar às visitas”, explica Almira.
Uma volta completa leva cerca de dez minutos, e a velocidade pode ser regulada, já o interior foi planejado para funcionar em qualquer ângulo. “Banheiro, quartos, sala, tudo foi pensado para poder ser usado em qualquer ângulo que a casa estiver”, diz Almira. Isso significa que não existe uma orientação “correta” para o espaço: a planta foi concebida para ser funcional independentemente de onde o sol estiver.
O detalhe construtivo que poucos percebem
A cobertura da casa é feita com placas de Eternit, e não com telhas cerâmicas convencionais. A escolha não foi estética. Foi estrutural, já que a redução do peso sobre o mecanismo de rotação era fundamental para o funcionamento contínuo do sistema. Esse tipo de decisão, trocar material por desempenho mecânico, é o que diferencia um projeto resolvido de um projeto apenas construído. A manutenção periódica do mecanismo fica sob responsabilidade de um neto da família, que atua como engenheiro.
“Meu neto, que é engenheiro, faz a manutenção, engraxa as roldanas e as engrenagens”, conta Almira. A estrutura já tem mais de 25 anos e segue operacional.
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Por que esse projeto ainda impressiona hoje
A casa giratória de Ituporanga não viralizou por ser extravagante. Viralizou porque resolve um problema real de forma direta, com recursos próprios e sem intermediários técnicos. Num período em que a arquitetura bioclimática se tornou pauta frequente em escritórios e publicações especializadas, a residência de Jens Cellarius já praticava o conceito de maneira literal e funcional, décadas antes de o assunto ganhar atenção.
O projeto também coloca em perspectiva uma discussão legítima sobre quem tem acesso ao conhecimento construtivo. A solução de orientar dinamicamente uma edificação conforme o percurso solar é abordada em cursos de graduação e pós-graduação em arquitetura. Jens chegou à mesma conclusão observando o comportamento do sol na varanda de sua própria casa.
A residência continua sendo o lar de Almira, que também recebe hóspedes nos quartos que antes pertenciam aos filhos. O projeto virou ponto de visita na região, e a rotação ainda é acionada para os visitantes, mais como demonstração do que por necessidade cotidiana. “A gente liga mais para as pessoas verem, não deixamos girando por muito tempo”, afirma ela.
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