Planejar um apartamento pequeno sem perder conforto é, antes de tudo, uma questão de olhar diferente para elementos que costumam ser ignorados. A escada não precisa ser só passagem, o espaço embaixo dela não precisa acumular caixas e o painel ripado pode esconder muito mais do que fiação.
No Brasil, o tamanho médio dos apartamentos lançados nas grandes cidades caiu de forma consistente na última década. Imóveis de um e dois dormitórios dominam os lançamentos nas capitais, e a consequência direta disso é uma demanda crescente por projetos que resolvam mais com menos área. A arquiteta Rosangela Pena, à frente do escritório que leva seu nome, trabalha exatamente com essa lógica. Cada elemento construtivo ou decorativo é avaliado pelo que pode oferecer além da sua função óbvia.
“Para aproveitar bem os espaços em casa, é essencial planejar bem, escolher móveis que tenham mais de uma função e apostar em um design criativo. Esses três elementos são chave para criar ambientes que sejam funcionais, confortáveis e bonitos”, explica a arquiteta.
O resultado prático dessa abordagem aparece em cinco soluções que ela aplica em seus projetos e que mudam a relação dos moradores com o espaço que têm.
Sobre o especialista
Rosangela Pena, é Arquiteta e Urbanista e atua há mais de 20 anos na área, visando integrar sofisticação, funcionalidade e conforto para dar vida à projetos inovadores e contemporâneos com uma qualidade excepcional.
Degrau como gaveta
O grande erro em projetos com escada interna é tratá-la como estrutura neutra. Ela ocupa área, define circulação e, na maioria dos projetos, entrega só isso. Rosangela transformou cada degrau em gaveta embutida, criando um sistema de armazenamento vertical que resolve o problema recorrente em quartos infantis: onde guardar brinquedos sem comprometer a circulação do ambiente.
A solução exige planejamento desde a fase de projeto. A profundidade e a altura de cada degrau precisam comportar o gabarito da gaveta sem comprometer a estrutura da escada. Quando bem executada, o resultado é um móvel que praticamente desaparece na arquitetura e libera o restante do quarto para o que realmente importa. Nas fotos do projeto, é possível identificar o acabamento em madeira clara com puxadores embutidos, o que mantém a leitura limpa da escada mesmo com as gavetas à mostra.
O canto alemão como resposta ao espaço perdido na cozinha
Cozinhas compactas geralmente sacrificam a copa. A mesa de refeições rápidas some do projeto porque não há onde colocá-la sem bloquear a circulação. O canto alemão, geralmente planejado com bancos embutidos nas paredes e formando um ângulo, resolve esse impasse com eficiência real.
Nos projetos de Rosangela, essa solução transforma cantos que seriam inaproveitáveis em áreas de permanência. Os bancos fixos dispensam cadeiras avulsas, liberam o piso e criam uma sensação de recinto que torna o espaço mais acolhedor. “Através do canto alemão, ganhamos um local prático para comer, ler ou simplesmente relaxar, tornando a cozinha um lugar ainda mais agradável e bem aproveitado”, comenta a arquiteta.
A flexibilidade de uso é o que consolida essa solução: o mesmo espaço que acomoda um café da manhã pode receber trabalho com notebook ou virar cantinho de leitura no fim do dia. O estofado dos bancos e a escolha da mesa, geralmente em madeira ou tampo laminado — definem o tom do ambiente e precisam conversar com o restante da marcenaria da cozinha.
Cristaleira sob medida onde só havia espaço desperdiçado
O vão embaixo da escada é um dos pontos mais negligenciados em projetos residenciais. Na maioria das casas, acaba sendo ocupado por caixas e itens sem lugar definido. Em um dos apartamentos assinados por Rosangela, esse espaço recebeu uma cristaleira sob medida em alumínio com portas de vidro refletente, elemento que passou a integrar a área social com personalidade própria.
A escolha do vidro refletente não é apenas estética. Ele amplifica visualmente o ambiente, cria profundidade e dialoga com o guarda-corpo de vidro da escada, garantindo continuidade entre os elementos. O espaço que antes seria neutro passou a ter função clara: armazenar taças e cristais com acesso fácil e visual organizado. O perfil de alumínio na estrutura da cristaleira reforça a leveza do conjunto e evita que o móvel pese visualmente num ponto que já tem a escada como elemento dominante.
Painel ripado: o erro é usar só como decoração
O revestimento ripado consolidou-se como um dos acabamentos mais presentes nos projetos contemporâneos brasileiros. O problema é que boa parte do que aparece por aí usa o ripado apenas como elemento decorativo, sem aproveitar o volume que ele cria. Rosangela vai além. Num projeto específico, o painel ripado oculta simultaneamente um armário com prateleiras para eletrônicos e uma porta mimetizada que dá acesso ao lavabo.
Essa superposição de funções é o que define um projeto bem resolvido. A estética está ali, o ripado tem presença e aquece o ambiente. Mas atrás dele há organização real e uma solução de circulação que mantém o espaço limpo visualmente.
“Buscamos uma solução que conferisse um toque de sofisticação e, ao mesmo tempo, que atendesse à necessidade de camuflar certas áreas do apartamento, como o lavabo. A porta mimetizada no painel ripado é um recurso muito usado, ultimamente”, conta a arquiteta.
Nas imagens do projeto, o ripado em tom amadeirado cobre toda a extensão da parede, tornando a porta do lavabo completamente invisível na leitura do ambiente, resultado que só é possível quando o detalhe é planejado junto com a marcenaria, não inserido depois.
O erro mais comum em projetos com adega
Adegas residenciais costumam aparecer como um módulo inserido no projeto depois que as decisões principais já foram tomadas. O resultado é um equipamento que parece ter chegado de fora. No projeto em questão, Rosangela inverteu essa lógica: a adega climatizada foi planejada junto com a área social, com capacidade para até 190 garrafas, iluminação em LED nas prateleiras, apoio embutido para abrir garrafas e compartimentos para acessórios.
O efeito é de um elemento que sempre esteve ali. A climatização garante a temperatura ideal para conservação, e a iluminação cria um ponto focal na área social que valoriza o entorno sem competir com outros elementos do projeto. Esse tipo de demanda, aliás, reflete um comportamento que cresce nos projetos residenciais de médio e alto padrão no Brasil.
“Adegas têm se tornado uma demanda crescente em nossos projetos, refletindo o crescente interesse de colecionadores e entusiastas do vinho que desejam oferecer uma experiência especial aos seus convidados”, observa Rosangela Pena.
O que esses cinco projetos demonstram é que otimização de espaço não começa na escolha do móvel, começa na forma como cada elemento construtivo é lido durante o projeto. Uma escada pode ser estrutura e armazenamento. Um painel pode ser estética e circulação. Uma adega pode ser equipamento e ponto focal da área social. Quando essa leitura acontece desde o início, o apartamento compacto para de ser um problema a resolver e passa a ser um projeto a construir.
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