Tijolos de demolição brancos e armários em laca azul no mesmo projeto: a lógica por trás dos contrastes no apartamento do Conectarq no Brooklin
Em 110 m², as arquitetas Mirella Fochi e Thais Bontempi construíram um apartamento com integração total, materiais naturais e uma combinação de linguagens que, no papel, parecia arriscada
Um apartamento que precisa comportar reuniões frequentes, funcionar como espaço de descanso real e ainda ter caráter próprio. Esse era o briefing e a resposta das arquitetas Mirella Fochi e Thais Bontempi, do escritório Conectarq, foi reorganizar completamente a planta e apostar em uma combinação que, à primeira vista, gera até dúvidas.
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Com referências industriais e toques provençais convivendo no mesmo espaço, um apartamento de 110 m² no Brooklin, em São Paulo, mostrou que o contraste, quando tem lógica estrutural por trás, funciona. Acompanhe!
Sobre o especialista
Mirella Fochi, é arquiteta e conhecida por ser cofundadora do renomado escritório paulistano CONECTARQ, focado em projetos contemporâneos. Thais Bontempi, destaca-se no mercado por desenvolver projetos residenciais e comerciais contemporâneos que unem estética minimalista, funcionalidade e forte controle orçamentário.
A integração como decisão de projeto, não como tendência
A primeira escolha foi também a mais determinante. A área social, composta pela sala de estar, jantar, varanda e cozinha, foi tratada como um único volume contínuo, sem barreiras físicas que fragmentassem a percepção do espaço. Para um morador que recebe com frequência, essa decisão muda completamente a experiência de uso: o apartamento não precisa ser “preparado” para visitas porque já funciona, estruturalmente, como ambiente de convivência.
Projeto:Conectarq | Fotos: Guilherme Pucci
“A premissa central era criar um espaço propício para reunir pessoas. Isso guiou cada decisão de layout e cada escolha de material ao longo do projeto”, explicam as arquitetas Mirella Fochi e Thais Bontempi.
O porcelanato que percorre todo o piso da área social reforça essa continuidade de forma discreta. Quando o revestimento não muda, o olhar não encontra fronteiras e o espaço parece maior do que é. É um recurso simples, mas tecnicamente eficiente e frequentemente subestimado em projetos de integração de ambientes.
A estante em estrutura metálica preta com acabamento fosco e a marcenaria em folha natural de freijó são os elementos que amarram visualmente a sala à varanda. O metal preto introduz a linguagem industrial e o freijó, com sua textura quente e tom amadeirado, puxa na direção oposta, mais orgânica, mais próxima do provençal. A convivência entre os dois não é acidente; é a lógica compositiva que sustenta o projeto inteiro.
A parede de tijolos de demolição com pintura branca cumpre um papel específico nessa composição e suaviza o peso visual do metal, sem eliminar a textura. O tijolo bruto pintado de branco traz materialidade sem escurecer o ambiente e resolve, com um único acabamento, a tensão entre rusticidade e leveza que projetos com referências industriais frequentemente enfrentam.
A cozinha que declara sua intenção
Em projetos de integração total, a cozinha precisa ter personalidade suficiente para existir visualmente sem dominar o espaço. Os armários em laca azul resolvem essa equação com precisão. O azul, dentro de uma paleta dominada por tons neutros, funciona como ponto focal e atrai o olhar sem competir com o restante da composição.
Projeto:Conectarq | Fotos: Guilherme Pucci
“A escolha da laca azul foi uma forma de dar caráter à cozinha sem abrir mão da coerência com o projeto. O azul ancora a paleta e traz vivacidade à área mais ativa do apartamento”, afirmam as arquitetas do Conectarq.
Projeto:Conectarq | Fotos: Guilherme Pucci
A divisória em serralheria azul com vidro canelado que conecta a cozinha à lavanderia merece atenção especial. O vidro canelado permite passagem de luz sem expor o interior da lavanderia, uma solução que preserva a privacidade sem criar uma barreira opaca que interromperia a fluidez do ambiente. O detalhe de manter a serralheria no mesmo azul dos armários revela o nível de coerência formal que o projeto sustenta do piso ao teto.
Materiais que trabalham em conjunto
A bancada em granito Álamo Navona aparece em três pontos do apartamento: cozinha, área gourmet e lavabo. Essa repetição não é ausência de criatividade. Usar o mesmo material em diferentes ambientes cria continuidade visual e reduz a sensação de fragmentação, especialmente relevante em plantas integradas onde os espaços se comunicam diretamente.
Projeto:Conectarq | Fotos: Guilherme Pucci
O forro de madeira ripado na área social adiciona uma camada de textura ao teto que poucos projetos residenciais exploram com consistência. Em vez de deixar o teto como superfície neutra, o ripado cria profundidade, direciona o olhar e contribui acusticamente para o conforto do ambiente. Em um apartamento que recebe com frequência, esse detalhe tem impacto prático real e não apenas estético.
O banco de concreto com futon na varanda segue a mesma lógica, tornando-se uma solução de assento permanente que não ocupa volume, mantém o espaço transitável e ainda dialoga com a linguagem industrial do projeto sem forçar o repertório.
Quarto e banheiros: discrição com vocabulário definido
No quarto principal, a cabeceira ripada em folha natural de freijó retoma o mesmo material da área social, criando unidade sem uniformidade. O uso de mobiliários soltos ao redor da cama garante flexibilidade de uso, o quarto pode ser reorganizado ao longo do tempo sem comprometer a leitura do projeto.
Nos banheiros, a combinação de bancadas brancas, marcenaria em madeira natural e detalhes metálicos industriais é uma extensão direta da linguagem estabelecida na área social.
Projeto:Conectarq | Fotos: Guilherme Pucci
A coerência formal percorre o apartamento inteiro sem se tornar repetitiva, onde cada ambiente preserva sua escala e função, mas fala a mesma língua visual.
A escolha das plantas revela um olhar atento à manutenção real do espaço. Jiboias e folhagens em vasos com água funcionam bem em ambientes com iluminação natural adequada. Já as plantas secas, como o eucalipto, foram direcionadas às áreas menos iluminadas, uma decisão prática que evita o erro comum de instalar plantas vivas em condições inadequadas e acabar com vasos vazios poucos meses depois da entrega da obra.
Projeto:Conectarq | Fotos: Guilherme Pucci
Assim, a composição botânica neste projeto não é aquela decoração de catálogo, dando a sensação que é apenas para fotografias, é uma escolha que considera luminosidade, manutenção e integração visual de forma articulada e isso, na prática, é o que separa um projeto bem executado de um projeto bem fotografado.
Cláudio P. Filla
Fundador e Editor-Chefe do Enfeite Decora
Publicitário, gestor de mídias sociais e especialista em conteúdo digital sobre decoração, arquitetura, paisagismo, jardinagem e tendências para o lar.
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