Quando um casal decide recomeçar em uma nova fase, a arquitetura precisa traduzir mais do que um estilo, precisa traduzir uma intenção de vida. É exatamente o que a arquiteta Andrea Murao entregou nesta casa de 650 m² localizada em um condomínio no interior de São Paulo: um projeto que parte da premissa da planta térrea, da baixa manutenção e da sofisticação sem exageros, chegando a um resultado que conversa diretamente com quem quer viver bem, sem a ansiedade de uma casa difícil de cuidar.
A leitura do partido arquitetônico começa já na divisão estratégica em dois blocos independentes. O primeiro concentra toda a área social integrada — estar, jantar e espaço gourmet, junto às suítes de uso cotidiano do casal. O segundo bloco, destinado a filhos e netos, funciona como um anexo com três dormitórios e privacidade total. A conexão entre os dois volumes se dá por meio de um SPA e de uma praça molhada, criando uma transição que não é apenas funcional, mas também sensorial. O morador atravessa um espaço de descompressão antes de chegar à ala dos hóspedes, uma decisão de projeto que demonstra maturidade e cuidado com a convivência familiar.
O jardim como eixo do projeto
O jardim central de 150 m², assinado por Renata Outubo, foi concebido como uma praça de convivência visível de todos os ambientes da residência, da sala de estar ao corredor das suítes. Não se trata de um jardim decorativo, mas de um espaço que organiza a planta e dá sentido à circulação. A escolha por espécies nativas e plantas comestíveis reforça o conceito de qualidade de vida que orienta o projeto inteiro.

Além disso, a presença de um espaço dedicado à criação de abelhas sem ferrão posiciona o paisagismo em outro nível: o da sustentabilidade ativa, que vai além do uso de energia fotovoltaica já previsto na casa. A iluminação natural, que entra abundantemente pelos telhados inclinados, reforça essa integração entre interior e exterior e reduz consideravelmente a dependência de iluminação artificial durante o dia.
Tijolo aparente e freijó: a materialidade que define o tom
A escolha do tijolo cerâmico aparente na fachada e em alguns pontos internos não foi uma decisão puramente estética. A própria cliente solicitou o material pela praticidade e esse detalhe diz muito sobre o conceito geral da casa. O tijolo aparente dispensa revestimento, aceita bem as variações climáticas do interior paulista e envelhece com dignidade. Em termos técnicos, ele também contribui para o conforto térmico, especialmente em paredes voltadas para a incidência solar direta.

Já a madeira freijó, que reveste painéis e marcenarias sob medida, cumpre o papel de trazer aconchego a um projeto que, pelas linhas modernas da fachada e pelo pé-direito alto, poderia facilmente pender para o frio. O freijó tem uma coloração amadeirada de tonalidade média, com veios que criam movimento sem competir com outros elementos decorativos, uma madeira que sabe quando aparecer e quando recuar. Essa combinação entre tijolo rústico e madeira refinada é o que define o tom rústico-contemporâneo do projeto: materiais honestos, sem verniz excessivo, com acabamento bem resolvido.
Interior que narra uma história
A decoração não foi montada do zero. E isso faz toda a diferença. Ao mesclar design assinado com itens de alto valor afetivo, a arquiteta criou ambientes que têm camadas, aquela sensação de que a casa foi habitada, vivida, escolhida com cuidado ao longo do tempo.

Peças de Arthur Casas e Bernardo Figueiredo dividem espaço com um baú antigo na sala e com telas de Georgina de Albuquerque, pintora brasileira do início do século XX cujas obras acompanham os moradores em todas as mudanças que já fizeram. Essa continuidade entre objetos e memória é um recurso decorativo que nenhuma lista de compras consegue substituir — e que transforma uma casa bonita em uma casa com identidade.
Os pontos altos do projeto
A sala de estar merece atenção especial. Com ventilação cruzada e luz zenital, ela resolve dois dos maiores desafios de projetos em regiões quentes: o calor acumulado e a dependência de ar-condicionado.

A luz zenital, em especial, cria uma ambiência diferente conforme o horário — de manhã, incide de forma mais direta; à tarde, se difunde e aquece o ambiente de maneira mais suave. É esse tipo de decisão que separa um bom projeto de um projeto que funciona de verdade no cotidiano.
A varanda com pé-direito duplo é outro destaque. O volume generoso do espaço abriga com naturalidade a obra do artista Mauricio Parra, que ganha escala e respiro para ser apreciada sem competir com o mobiliário.

O espaço gourmet equipado com fogão à lenha completa a proposta: uma casa que convida à permanência, ao ritual da refeição compartilhada, ao prazer de receber sem pressa.
O resultado é uma residência que sabe o que quer ser e entrega isso com precisão técnica e sensibilidade decorativa.






