Um imóvel entregue em concreto aparente, sem divisórias, sem revestimento e sem qualquer traço de acabamento, costuma assustar quem procura mudar rápido. Foi exatamente esse ponto de partida que a arquiteta Talita Nogueira (@talitanogueiraarquitetura) recebeu para o projeto de um apartamento de 440 m² em Curitiba, pensado para um casal e a filha do casal. O resultado foge do óbvio: em vez de paredes divisórias convencionais, a marcenaria assumiu a função estrutural de organizar os ambientes.
Essa escolha aparece logo na leitura do plano. Painéis, estantes e pilares revestidos em madeira funcionam como eixos visuais que direcionam o olhar e a circulação pela área social. O grande erro em metragens grandes como essa costuma ser deixar os ambientes soltos, sem um fio condutor. Aqui, a marcenaria autoral resolve esse problema sem recorrer a alvenaria extra, o que também reduz o peso estrutural sobre a laje.
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A base neutra que sustenta o contraste

A madeira clara e contínua cobre boa parte dos planos verticais e horizontais da casa, criando uma sensação de unidade entre os cômodos integrados. Tecidos naturais e uma paleta de tons terrosos completam essa camada de acolhimento, funcionando como o pano de fundo sobre o qual os elementos de maior densidade visual se destacam.

É nesse jogo de contraste que o projeto ganha personalidade. O mármore Napoleon Bordeaux, em tom vermelho profundo, aparece como ponto de tensão proposital dentro da composição clara. Junto a ele, um tapete gráfico desenhado pelo próprio escritório reforça o ritmo visual do ambiente.
Usar uma pedra dessa densidade cromática exige cálculo: pouco material já muda a temperatura do espaço, e o excesso pode comprometer a leveza da marcenaria clara. O equilíbrio entre volume de madeira e volume de mármore é o que evita que a sala vire dois projetos concorrendo entre si.
Infraestrutura repensada do zero
Como o apartamento não tinha nenhuma intervenção prévia, toda a base técnica precisou ser reconstruída. Isso incluiu a implantação de automação residencial e um projeto luminotécnico desenvolvido em camadas, priorizando o conforto visual em detrimento de soluções puramente decorativas.

Esse tipo de planejamento costuma passar despercebido nas fotos, mas é o que sustenta a experiência real de morar no espaço. Circuitos de luz bem definidos permitem cenários diferentes ao longo do dia, sem depender de pontos únicos no teto. Em metragens grandes, esse cuidado técnico pesa tanto quanto a escolha do revestimento, ainda que raramente receba o mesmo destaque.
Design brasileiro como assinatura da curadoria

A seleção de mobiliário reforça a identidade do projeto. Peças de presença escultórica dividem espaço com nomes consagrados do design nacional, como as poltronas Mole, criadas por Sérgio Rodrigues, e o modelo Fardos, assinado por Ricardo Fasanello.
A escolha por autores brasileiros não é acidental: ambos os móveis carregam décadas de repertório e dialogam diretamente com a proposta de valorizar a decoração contemporânea sem abrir mão de referências históricas do mobiliário nacional.

O que faz esse tipo de curadoria funcionar é a moderação. Peças icônicas em excesso competem entre si e cansam o olhar. Aqui, cada uma ocupa um ponto estratégico da planta, cercada por superfícies neutras que permitem que o desenho da poltrona ou a curva do estofado tenham protagonismo, sem disputar espaço com o restante da composição.
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