Uma casa com arquitetura e marcenaria já consolidadas chega ao escritório de um profissional para receber apenas os interiores. Esse tipo de encomenda exige um raciocínio inverso ao de um projeto do zero: não se trata de criar a estrutura, mas de decifrar o que ela já oferece e transformar isso em identidade.
Foi esse o desafio recebido pelo arquiteto Felipe Saurin em uma residência situada na Fazenda da Grama, região valorizada por quem busca viver perto do verde sem abrir mão de sofisticação. Os moradores são um casal jovem, vivendo a chegada dos primeiros filhos e a necessidade de transformar quatro paredes prontas em um lar que refletisse essa nova fase.
Integração espacial como fio condutor
O comando central do projeto foi a integração total entre os ambientes sociais. Sala de estar, cozinha, terraço e áreas de convívio se conectam por meio de vãos generosos, sem divisórias que fragmentem a circulação. O resultado é um grande pavilhão social voltado para o exterior, desenhado para acompanhar uma rotina familiar intensa, com crianças pequenas transitando entre os cômodos e adultos supervisionando de qualquer ponto da casa.

Essa lógica de planta aberta vem se consolidando como uma das soluções mais buscadas em projetos de interiores para residências de campo, justamente porque a relação entre dentro e fora deixa de ser coadjuvante e passa a organizar o desenho dos ambientes. No caso da Fazenda da Grama, cada cômodo social foi tratado como extensão do seguinte, e não como compartimento isolado.
Espelhos multiplicam luz e paisagem
Logo na entrada, o corredor concentra um dos recursos mais expressivos da reforma: espelhos do piso ao teto que duplicam visualmente o jardim e multiplicam a luz natural que entra ao longo do dia. O efeito não é apenas decorativo. Em corredores estreitos, o espelho amplia a percepção de profundidade e transforma uma área de passagem em uma extensão do paisagismo externo.

Recebe-se o visitante, portanto, com uma perspectiva contínua entre arquitetura e jardim, recurso que dispensa reformas estruturais e resolve, com uma única intervenção, dois problemas comuns em corredores de casas de campo: a sensação de estreitamento e a pouca entrada de luz.
Detalhes técnicos que sustentam a coesão visual

Nem todo elemento essencial ao dia a dia da família estava previsto no programa original. A televisão da sala principal é o exemplo mais direto: item que não constava no projeto inicial, mas que precisou ser incorporado à rotina doméstica sem comprometer a leitura visual do ambiente.

A solução adotada foi discreta, preservando a composição da marcenaria já existente e evitando que o equipamento se tornasse o ponto focal do cômodo.
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Esse tipo de ajuste revela um princípio recorrente em reformas de casas de campo com marcenaria consolidada: cada novo item precisa se adaptar à lógica do conjunto já construído, nunca o contrário.

O projeto assinado por Felipe Saurin demonstra como a decoração de ambientes pode reorganizar por completo a experiência de morar em uma estrutura pronta, sem alterar paredes ou fundações. A integração dos espaços sociais, o uso estratégico de espelhos e a atenção aos detalhes de marcenaria formam o conjunto de decisões que transformou uma casa tecnicamente finalizada em um lar com identidade própria para os próximos anos dessa família.
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