Antes de um buquê chegar à floricultura, uma parte considerável das flores já foi descartada. Pequenos danos no caule, variações estéticas fora do padrão comercial ou simplesmente o tempo curto de comercialização fazem com que toneladas de flores sejam rejeitadas ainda na etapa de distribuição. O destino habitual é o lixo comum e, na sequência, o aterro sanitário, onde a decomposição orgânica contribui para a emissão de gases de efeito estufa.
Foi diante desse cenário que o ReBloom Studio, grupo de estudantes da Escola de Design Convergence da Universidade Hongik, na Coreia do Sul, desenvolveu o vaso Pétala — Petal, em inglês. A peça transforma esse resíduo floral em um objeto de design sustentável, combinando aparência escultórica, acabamento artesanal e uma proposta funcional que resolve, de forma elegante, o problema técnico de usar material biodegradável em contato com água.
Do mercado de flores ao ateliê: como o processo funciona
O ponto de partida são os próprios mercados atacadistas de flores, onde exemplares não vendidos ou com danos estéticos são recolhidos antes do descarte. A partir daí, começa uma cadeia de transformação que levou cerca de dois meses de testes e protótipos para ser consolidada.

As flores passam por seleção manual, remoção de umidade e secagem controlada. Depois, são trituradas até se tornarem uma polpa natural, misturada a fibras recicladas, incluindo papel tradicional coreano e aglutinantes de origem natural. Essa mistura é moldada, prensada e submetida a processos de desidratação até assumir a forma final do vaso.
“Queríamos encontrar uma forma sustentável de garantir que a sinceridade contida nas flores fosse plenamente transmitida”, explica o estúdio na apresentação do projeto.
O resultado não é apenas estético, onde cada etapa do processo foi pensada para que o material final tivesse resistência real para uso cotidiano e não apenas apelo visual de produto conceitual.
O detalhe técnico que faz o projeto funcionar
O grande erro em vasos de material reciclado é ignorar a incompatibilidade entre fibras orgânicas e umidade prolongada. O vaso Pétala resolve esse problema com uma solução direta: a peça é composta por uma estrutura externa biodegradável em formato orgânico e um cilindro interno de vidro transparente, com 200 mm de altura, responsável por armazenar a água e sustentar os caules.

Esse cilindro interno é o que separa o projeto de uma peça decorativa de vida curta. O contato direto da umidade com o material reciclado é eliminado, prolongando consideravelmente a durabilidade do vaso sem comprometer sua composição biodegradável.
A estrutura externa mede 120 × 120 × 230 mm e pesa aproximadamente 140 g. Leve, com presença visual marcante e funcionalmente resolvido.
Cada vaso é único e isso não é acidente
Como a composição do material varia conforme as flores utilizadas, cada unidade produzida apresenta diferenças sutis de cor, textura e acabamento. Fibras vegetais e vestígios de pétalas permanecem visíveis na superfície, o estúdio optou deliberadamente por não esconder as marcas do processo produtivo, tornando-as parte da estética da peça.

Essa variação não é uma limitação técnica. É uma consequência direta da matéria-prima e foi incorporada ao conceito do projeto como elemento de valor: nenhum vaso Pétala é igual ao outro.
O modelo está disponível em duas versões. O Natural Beige mantém o tom neutro que evidencia a textura natural do material. O Petal Pink recebe tingimento com pigmentos naturais, remetendo à paleta das flores que o originaram. Ambas as versões preservam a irregularidade orgânica das bordas e a aparência escultórica que caracteriza o design.
O que esse projeto revela sobre o design sustentável atual
Iniciativas como o vaso Pétala mostram uma mudança de abordagem no design sustentável contemporâneo: a sustentabilidade deixa de ser apenas um atributo de comunicação e passa a ser uma decisão técnica que define o processo produtivo do início ao fim.
A escolha da matéria-prima, o método de secagem, a solução do cilindro de vidro, a decisão de manter as imperfeições visíveis, cada uma dessas escolhas é simultaneamente uma resposta a um problema real e uma definição estética. Não são elementos separados.
Aliás, o próprio nome reforça essa intenção. Petal foi escolhido para simbolizar o renascimento das flores descartadas em um novo objeto de uso cotidiano — um ciclo que começa no resíduo e termina em algo que dura.
Para o mercado de decoração de interiores, o projeto aponta uma direção que vai além da tendência: objetos com origem rastreável e processo transparente estão ganhando espaço em projetos residenciais que valorizam tanto a estética quanto a procedência dos materiais. Um vaso com história ocupa o ambiente de forma diferente de um vaso sem contexto.
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