O branco gelo dominou as paredes brasileiras por quase uma década. Prometia amplitude, limpeza visual (“clean”) e aquele efeito de galeria que combinava com o minimalismo em alta. Mas o branco gelo esfriou, literalmente, e é isso que está tirando ele das especificações de projeto: a tonalidade acentua a luz azulada dos ambientes, resseca a percepção do espaço e, em dias nublados, deixa a casa com cara de consultório.
A resposta que está tomando conta das paredes agora vem da terra. Terracota, argila e ocre despontam como os tons terrosos mais buscados em projetos residenciais, substituindo a antiga preferência por tons gélidos por uma paleta que devolve densidade e temperatura aos ambientes.
A pandemia mudou o que esperamos das paredes
Depois dos períodos de confinamento na época de pandemia, a casa deixou de ser apenas um lugar de passagem e virou o centro da vida das pessoas. O trabalho remoto, as refeições em casa, os encontros que migraram para a sala de estar: tudo isso reconfigurou a expectativa em relação aos ambientes internos.

O branco gelo funcionava bem quando a casa era vista como um espaço de trânsito rápido entre a rua e o trabalho. Já a paleta terrosa responde a outra necessidade, a de criar um refúgio que realmente acolha. Cores como terracota e argila remetem diretamente a elementos naturais como barro, madeira e pedra, o que ativa uma sensação de proteção que o branco frio simplesmente não entrega.
Terracota, argila e ocre: entenda a diferença entre os tons
Apesar de aparecerem juntos nas paletas de tendência, esses três tons têm personalidades distintas e cumprem funções diferentes dentro de um projeto.
A terracota é a mais quente e saturada das três. Puxa para o alaranjado e funciona bem como cor de destaque, seja em uma parede de fundo na sala de jantar, seja em peças de marcenaria pintada. É a escolha certa para quem quer um impacto visual mais imediato, sem perder a sofisticação.
A argila tem uma saturação mais baixa e um leve acinzentado na composição, o que a torna mais versátil para uso em grandes superfícies, como salas inteiras ou quartos. Funciona como uma base neutra quente, capaz de substituir o cinza sem cair no óbvio.
Já o ocre carrega mais amarelo em sua composição e costuma funcionar melhor em ambientes que recebem boa luz natural, já que a incidência solar reforça sua vibração sem deixar o espaço carregado.
As principais fabricantes de tinta do país já responderam a essa demanda. Suvinil, Coral e Sherwin-Williams ampliaram suas linhas voltadas para tons terrosos nos últimos catálogos, incluindo variações específicas para paredes internas e acabamentos foscos, que acentuam a textura desses tons sem criar reflexos indesejados.
Onde aplicar cada tom terroso em casa?
Um erro comum é tratar os tons terrosos como se fossem intercambiáveis, aplicando qualquer um deles em qualquer cômodo. O que realmente faz diferença é pensar na função do ambiente antes de escolher a tonalidade.

Em salas de estar e jantar, a argila costuma se sair melhor como cor de parede principal, por criar uma base acolhedora sem competir com o mobiliário. A terracota, por sua vez, funciona com mais força em paredes de destaque, corredores curtos ou em detalhes como nichos e vãos de porta, pontos onde a intensidade da cor não sobrecarrega o olhar.
Já o ocre tende a se adaptar bem a cozinhas e áreas de trabalho, principalmente quando combinado com madeiras claras e metais dourados ou latão, que reforçam o caráter quente da paleta.
Como combinar tons terrosos sem errar?
O grande erro ao tentar combinar os tons terrosos, é tratar as cores como neutras absolutas, o que eles não são. Diferente do branco e do cinza claro, essas tonalidades têm presença própria e pedem cuidado na combinação com o restante da decoração.
Materiais naturais como madeira, linho, palha e cerâmica reforçam a identidade da paleta terrosa e evitam que o ambiente pareça artificial. Já metais frios, como o cromado, tendem a criar um contraste desagradável com essas cores, quebrando a sensação de aconchego que é justamente o motivo de escolher esses tons.
Cuidado com o excesso de saturação em ambientes pequenos. Terracota e ocre em suas versões mais intensas podem reduzir visualmente o espaço quando aplicados em todas as paredes de um cômodo compacto. Nesses casos, vale reservar a cor mais forte para uma única parede e usar tons de argila mais claros no restante do ambiente, mantendo a sensação de amplitude sem abrir mão do calor visual que fez os tons terrosos ganharem as paredes brasileiras.
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