Um tecido desenvolvido para suportar sol, sal e umidade em uma lancha hoje reveste poltronas de salas de estar sem que ninguém perceba a origem náutica do material. Essa migração técnica resume a mudança mais relevante na forma como o tecido deixou de ser acabamento e passou a ser decisão estrutural em um projeto de interiores.
“A principal é a composição do tecido, alinhando a necessidade com o local de aplicação”, explicam o designer de interiores Fabricio Frezza e o arquiteto Gabriel Figueiredo, à frente da Frezza & Figueiredo Arquitetura e Interiores.
Durante anos, o tecido para decoração ficou em segundo plano nas discussões de projeto, tratado como resolução final depois que móvel, revestimento e paleta já estavam definidos. Essa lógica se inverteu. Hoje, a escolha do revestimento têxtil direciona conforto térmico, manutenção, durabilidade e, principalmente, a identidade visual do ambiente.
Sobre o especialista
Atuando há mais de 20 anos, a dupla de profissionais Fabrício Frezza e Gabriel Figueiredo conta com uma equipe multidisciplinar que faz parte do escritório Frezza & Figueiredo Arquitetura e Interiores.
O ambiente define o tecido antes da estética
Em dormitórios e áreas de descanso, a prioridade recai sobre tecidos naturais como linho, algodão e composições mistas. A explicação é sensorial e prática ao mesmo tempo: esses materiais equilibram toque agradável com respirabilidade, o que se traduz em conforto térmico real ao longo do uso diário.

“Nas áreas íntimas, conseguimos trabalhar com versões que sejam mais leves e fáceis de manusear. Isso inclui cortinas de linho misto, que não amassam tanto e permitem um ambiente mais iluminado”, comentam Frezza e Figueiredo.
Estampas botânicas, listrados, xadrezes e referências ligadas ao estilo de vida dos moradores funcionam como ferramenta de personalização. O tecido, nesse contexto, não cobre apenas uma superfície: ele comunica quem mora ali.
Tecnologia náutica chega às áreas sociais
Em áreas sociais, gourmet e de lazer, o critério muda de direção. Resistência, baixa manutenção e durabilidade passam a comandar a especificação, principalmente em casas com crianças, pets ou fluxo intenso de uso.

A grande transformação técnica dos últimos anos está nos tecidos tecnológicos outdoor, que abandonaram a estética industrial que os caracterizava. “Hoje as opções de tecidos outdoor não possuem mais aquela aparência de tecido só para área externa. Visualmente, muitas vezes, não dá para identificar se é in ou out”, afirmam os profissionais.
Materiais criados originalmente para embarcações — resistentes a sol direto, umidade constante e sal — foram incorporados aos projetos residenciais justamente pela performance comprovada em condições extremas. “A inovação nos tecidos expandiu muito e contamos com opções extremamente tecnológicas e que suportam gordura, vinho, umidade e uso intenso sem perder em nada na qualidade estética”, pontuam Frezza e Figueiredo.
Composição de texturas: o protagonista e o coadjuvante
Um projeto bem executado nunca trata todos os tecidos com o mesmo peso visual. Frezza e Figueiredo trabalham a composição têxtil como uma hierarquia deliberada entre elementos que chamam atenção e elementos que sustentam o conjunto.

“Há sempre o protagonista e o coadjuvante nas escolhas dos tecidos e nossa função é equilibrar esses papéis o tempo todo”, explicam.
Essa lógica orienta diretamente a construção dos moodboards. Projetos com materiais marcantes — pedra natural, madeira nobre, revestimentos texturizados — pedem tecidos mais discretos, que não compitam pelo protagonismo do espaço. Já em bases mais neutras, a liberdade têxtil aumenta. “Quando não temos tantas texturas no projeto ou mobiliário, conseguimos abusar mais de texturas nas escolhas dos tecidos”, afirmam.
Tecido precisa sobreviver à rotina, não só à fotografia
Especificar um material sofisticado que não resiste à rotina real dos moradores é um erro recorrente em projetos residenciais. Para Frezza e Figueiredo, a escolha do tecido de decoração precisa passar por um teste de uso, não apenas de estética.

“Definitivamente nossa escolha não pode ser apenas contemplativa. Ela precisa também ser convidativa para ser usada”, interpretam.
Incidência solar, facilidade de limpeza e resistência ao desgaste entram na análise técnica antes de qualquer decisão estética ser fechada. Os materiais sintéticos ganharam espaço justamente por resolver essa equação. “Atualmente, tecidos tecnológicos, couros ecológicos, entre outros materiais sintéticos, registram um resultado impecável e extremamente resistente”, observam os profissionais.
Quando o tecido é a estrela do ambiente
Em projetos de maior autoria, o tecido deixa de ser suporte e assume o papel principal da narrativa visual. Veludos com efeito vintage, linhos de aspecto lavado, tramas naturais e estampas autorais têm reescrito a forma como um espaço é lido à primeira vista.
Essa aproximação entre moda e decoração não é coincidência de mercado. “São duas áreas que seguem de mãos dadas”, dizem Frezza e Figueiredo.
O uso de tecidos também tem funcionado como estratégia de preservação patrimonial dentro dos projetos: reformar um sofá ou uma poltrona com novo revestimento permite manter a identidade da peça original sem abrir mão de atualização estética e funcional. “O tecido renova o móvel e o ambiente”, finalizam.
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