O frio muda a rotina dentro de casa e com ele, chegam os aquecedores portáteis, os cobertores elétricos, o chuveiro no modo potência máxima e a tendência de ligar vários aparelhos ao mesmo tempo. O problema é que a instalação elétrica residencial de muitos imóveis, especialmente os mais antigos, não foi dimensionada para suportar esse aumento de demanda.
O resultado aparece nas estatísticas: incêndios que começam em tomadas sobrecarregadas, fiações que não aguentam a carga e equipamentos deixados ligados por descuido. O Corpo de Bombeiros do Paraná tem reforçado os alertas nessa época do ano, e as orientações vão muito além do básico.
Uma tomada, um aparelho
O grande erro nas residências é concentrar muita potência em um único ponto elétrico. Adaptadores, benjamins e reguas sem proteção transformam uma simples tomada num ponto de risco.

“Um equipamento para cada tomada. Se colocar muitos equipamentos na mesma tomada, pode acontecer uma sobrecarga”, orienta a Capitã Luisiana Guimarães Cavalca, do Corpo de Bombeiros do Paraná, em entrevista ao programa Meio Dia PR, da RPC.
A recomendação dos especialistas é investir em filtros de linha com fusível, que interrompem o circuito automaticamente em caso de sobrecarga. Diferente do simples benjamim, o filtro de linha com fusível protege tanto os equipamentos conectados quanto a rede elétrica da casa. Para quem tem uma estrutura maior de equipamentos, como home theater, computadores, ou eletrodomésticos de alto consumo concentrados num mesmo cômodo, esse detalhe pode evitar um princípio de incêndio.
O aquecedor e os erros que ninguém conta
O uso de aquecedores portáteis está entre as principais causas de incêndio doméstico no inverno. Mas os riscos vão além da sobrecarga na tomada. Cobrir o aparelho para “concentrar o calor” é um hábito que pode ser fatal.
“Não deve ser coberto. Tem que ter essa passagem de ar para não sobrecarregar aquele equipamento”, reforça a Capitã Luisiana.
Além disso, posicionar o aquecedor próximo a cortinas, tapetes, cobertores e sofás cria um cenário de risco direto. A recomendação técnica é manter ao menos um metro de distância entre o aparelho e qualquer material têxtil ou inflamável. Os modelos halogenados, aqueles que ficam com a resistência alaranjada visível, aquecem a grade externa com facilidade e qualquer tecido encostado pode se tornar um combustível.
Dormir com o aquecedor ligado é outro ponto crítico. O ideal é desligá-lo da tomada antes de dormir, e não apenas no botão do próprio aparelho. A mesma lógica vale para cobertores e lençóis elétricos: eles servem para aquecer a cama antes de deitar, e devem ser desligados no momento em que a pessoa se acomoda para dormir.
Chuveiro no modo “máximo”
Outro ponto que merece atenção é o chuveiro elétrico. No inverno, é comum reduzir o fluxo de água para aumentar a temperatura — mas essa prática aumenta a resistência do equipamento, que passa a exigir mais da rede elétrica. Se a fiação da casa não tem a bitola correta para suportar essa carga, o risco de curto-circuito é real.

O relato do morador Flávio Alves Moreira, também entrevistado pelo Meio Dia PR, ilustra bem o que pode acontecer: ao ligar o aquecedor de ambiente e o chuveiro ao mesmo tempo, ele provocou o que os eletricistas chamam de “chicote elétrico”, um arco elétrico causado pela incompatibilidade entre fios de bitolas diferentes na mesma rede.
“O eletricista disse que tinha um fio de bitola menor junto com um de bitola maior. Daí deu o que eles chamam de gatilho”, lembra Flávio.
Esse tipo de problema é mais comum do que parece, especialmente em imóveis com instalações elétricas antigas que nunca passaram por revisão. A dica aqui é clara: qualquer serviço elétrico, seja para trocar chuveiro, uma tomada ou realizar algum reparo, deve ser feito com o disjuntor desligado e, sempre que possível, por um eletricista habilitado.
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Ferro de passar, secador e chapinha
Aparelhos de alta potência como ferro de passar roupa, secadores e chapinhas de cabelo são fontes frequentes de incêndio quando não recebem a atenção devida após o uso. Deixá-los sobre superfícies de tecido, toalhas ou próximos a cortinas enquanto ainda estão quentes é um descuido que pode ter consequências sérias.
O correto é aguardar o resfriamento completo antes de guardar ou deixar sobre qualquer superfície. Desligar da tomada e não apenas no botão do próprio aparelho, também faz diferença, já que alguns modelos continuam consumindo energia em modo stand-by.
O que a decoração tem a ver com tudo isso?
Nem sempre o risco elétrico é visível. Tapetes muito próximos a aquecedores, cortinas pesadas posicionadas perto de tomadas sobrecarregadas, nichos fechados com equipamentos que geram calor, tudo isso interfere na segurança da casa. O projeto de interiores bem executado considera a localização de tomadas, a distribuição dos circuitos e a compatibilidade entre os aparelhos e a estrutura elétrica do imóvel.
Reformar a fiação elétrica antes de uma intervenção decorativa não é exagero: é parte do projeto. Uma instalação subdimensionada compromete não apenas a segurança, mas também o desempenho dos equipamentos e a durabilidade de todo o sistema.
O inverno é a estação que mais expõe os limites da infraestrutura elétrica doméstica. Revisar a instalação, respeitar a capacidade de cada circuito e adotar hábitos simples no dia a dia são atitudes que fazem diferença e que começam pela consciência de que um pequeno descuido elétrico pode ter consequências muito maiores do que um simples apagão.
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