Existe um móvel que virou sinônimo de “coisa velha de sala” nos últimos anos. O rack carrega essa fama injusta desde que as TVs de tubo sumiram e os painéis minimalistas tomaram conta. Muita gente acha que ele morreu junto com os aparelhos de som gigantes e as coleções de CD, mas não, ele não morreu! Apenas se reinventou de um jeito que poucos prestaram atenção.
A questão é simples: onde você guarda o decodificador, os controles remotos, o videogame e aquele emaranhado de fios que insiste em aparecer atrás da TV? A resposta costuma ser “em qualquer lugar” ou “escondido de qualquer jeito”. Esse é exatamente o problema que o rack contemporâneo resolve, mas com uma vantagem: ele faz isso sem poluir visualmente o ambiente.
A arquiteta Daniela Funari, à frente de seu escritório homônimo, trabalha há anos com essa transformação do móvel. “Ele segue cumprindo suas funções nas salas, mas recebeu uma roupagem contemporânea. Atua como uma extensão do painel, fazendo desaparecer os fios e organizando videogames, controles remotos, peças decorativas”, explica. Ou seja, continua resolvendo os mesmos problemas, porém de forma integrada ao design de interiores atual.
O rack como extensão do painel e não como peça isolada
A primeira mudança de mindset é essa: pare de ver o rack como um móvel solto na sala. Ele funciona melhor quando dialoga diretamente com o painel de TV, seja em marcenaria planejada ou em composições modulares. Essa integração permite que cabos, aparelhos e até tomadas fiquem estrategicamente posicionados, sem aquela gambiarra de fita isolante e extensões aparentes.

Daniela destaca que a personalização é fundamental. “Gosto de trabalhar a personalização do rack tanto por seu estilo, pelas dimensões do ambiente e as necessidades do projeto”, afirma. Isso significa que não existe uma medida padrão ou um modelo universal. O móvel se adapta conforme o espaço disponível, a quantidade de equipamentos eletrônicos e até o estilo decorativo da casa.
Em projetos recentes, a arquiteta combinou racks em tons terrosos com painéis de madeira clara, criando contrastes calorosos sem abandonar a sobriedade. As portas ripadas, além de trazerem textura, cumprem uma função técnica: permitem a ventilação dos aparelhos eletrônicos, evitando superaquecimento. É design funcional na prática, sem firulas desnecessárias.
Monocromia estratégica
Outra abordagem é justamente o oposto: fazer o rack sumir completamente na composição. Isso acontece quando ele recebe o mesmo acabamento do painel e da marcenaria ao redor, criando uma superfície contínua. O efeito é limpo, minimalista e funciona especialmente bem em salas compactas, onde cada elemento precisa contribuir para a sensação de amplitude.

Projetos em tons de cinza off-white ou bege neutro apostam nessa monocromia. O móvel suspenso acompanha toda a extensão da parede, muitas vezes mimetizando até a porta de entrada. O resultado é uma sala onde a TV parece flutuar sem apoio aparente, mas com toda a infraestrutura necessária escondida de forma inteligente.
Esse tipo de solução exige planejamento desde o início da obra. Os pontos de energia precisam estar alinhados com os nichos internos do rack, e as profundidades devem ser calculadas para que nada fique saliente. É um trabalho de marcenaria que envolve medidas milimétricas, mas que compensa pelo resultado final.
Rack alto e funcional
Nem todo rack precisa ser aquele móvel baixinho de 30 ou 40 centímetros. Dependendo da demanda dos moradores, ele pode ganhar altura e se transformar em uma solução de armazenamento muito mais robusta. Livros, documentos, jogos de tabuleiro, objetos decorativos — tudo isso pode ser incorporado sem que o móvel perca sua função principal de apoio para a TV.

Daniela Funari executou projetos onde o rack suspenso ocupa quase metade da parede, criando nichos estratégicos para diferentes finalidades. Em um deles, a marcenaria foi “dividida” visualmente: a parte inferior mais baixa acomoda os eletrônicos, enquanto a extensão lateral, mais alta, funciona como estante. Para completar, um carrinho de chá ao lado cria um cantinho de bar integrado à sala.
Essa versatilidade é o grande trunfo do móvel atual. Ele não compete mais com estantes ou cristaleiras, mas pode assumir parte dessas funções quando necessário. É uma questão de entender o que cada família precisa e traduzir isso em centímetros de marcenaria planejada.
Materiais e acabamentos que fazem diferença
O rack contemporâneo não se limita à madeira ou ao MDF laqueado. Ripados, laminados texturizados, laca fosca, pedras naturais e até metais aparecem como opções de acabamento. A escolha do material impacta diretamente na manutenção, na durabilidade e, claro, no custo final do projeto.
Portas ripadas, por exemplo, além do apelo estético, facilitam a circulação de ar e evitam o acúmulo de calor nos equipamentos. Já os acabamentos lisos e lacados pedem mais atenção na limpeza, mas entregam um visual impecável em projetos minimalistas. Madeiras claras como freijó, carvalho ou pinus trazem aconchego sem pesar, enquanto tons mais escuros funcionam bem em composições dramáticas ou industriais.
A regra aqui é simples: o material precisa fazer sentido com o restante da decoração da sala. Um rack de marcenaria em madeira natural fica deslocado em uma sala ultramoderna com porcelanato e metais cromados. Da mesma forma, um móvel todo laqueado em branco pode parecer frio demais em um ambiente rústico.
A fixação importa: suspensa, no piso ou embutida?
A forma como o rack é instalado muda completamente a leitura do espaço. Modelos suspensos criam leveza visual e facilitam a limpeza, mas exigem reforço estrutural na parede. Racks apoiados no piso trazem mais estabilidade e permitem gavetas maiores, porém ocupam mais espaço visualmente.

Existe ainda a opção de embutir o rack na marcenaria da parede inteira, criando um móvel único que vai do chão ao teto. Essa solução é ideal para quem quer maximizar o armazenamento sem adicionar móveis soltos na sala. Aliás, é uma estratégia comum em home theaters, onde o controle acústico e a estética clean são prioridades.
Cada escolha tem seus prós e contras. O importante é que a decisão seja tomada considerando o uso real do móvel, e não apenas a estética isolada. Um rack suspenso pode ser lindo nas fotos, mas se você tem criança pequena puxando gavetas ou pets esbarrando em tudo, talvez a versão apoiada no chão seja mais sensata.






