Quintal subutilizado: 5 funções que arquitetos planejam desde a planta e a maioria dos moradores descobre tarde

Do canteiro de ervas aromáticas à área coberta com cobertura retrátil, cada metro de área externa pode ter uma função clara antes mesmo da obra começar

Quintal subutilizado: 5 funções que arquitetos planejam desde a planta e a maioria dos moradores descobre tarde

Projeto Atelier Paulo Tripoloni | Foto: Imagem JP

O quintal é, provavelmente, o ambiente mais subestimado de uma residência. Enquanto cozinhas e salas recebem toda a atenção no planejamento, a área externa costuma ficar para o fim e, muitas vezes, acaba sem função definida, virando um depósito de vasos velhos e móveis fora de uso.

O grande erro aqui é tratar o quintal como sobra de projeto. Ele precisa ser pensado junto com a planta, com a mesma atenção dedicada a qualquer cômodo interno. Não por acaso, levantamentos recentes sobre comportamento residencial apontam que a área externa é um dos primeiros ambientes que famílias planejam reformar após a compra do imóvel, especialmente depois que a pandemia reconfigurou a relação das pessoas com o espaço doméstico. O quintal deixou de ser complemento e passou a ser critério de escolha.

Sobre o especialista

Paulo Tripoloni, encontrou na arquitetura minimalista uma de suas inspirações para realizar projetos que buscam atender às necessidades da vida contemporânea por meio de ambientes funcionais, belos e ecologicamente responsáveis

“A cozinha e o quintal são dois lugares que contam muito sobre a forma como uma família vive a casa. São ambientes que concentram memórias, encontros e diferentes atividades do dia a dia”, afirma o arquiteto Paulo Tripoloni, à frente do Atelier Paulo Tripoloni.

Segundo ele, o tamanho da área disponível importa menos do que se imagina. O que define um bom quintal é compreender como os moradores pretendem utilizá-lo e traduzir isso em projeto antes que as paredes estejam levantadas.

Cultivar: da horta de temperos às frutíferas

Áreas externas com solo permeável têm uma vantagem que nenhum revestimento entrega: a possibilidade de cultivar. Hortas de ervas aromáticas, canteiros de temperos, árvores frutíferas e espécies ornamentais transformam o quintal em um espaço dinâmico, que muda ao longo do ano e ainda abastece a cozinha.

Projeto Atelier Paulo Tripoloni | Foto: Adriano Escanhuela

“Mesmo em áreas menores, é possível reservar um cantinho para o cultivo. Alecrim, manjericão, hortelã e outras espécies de fácil manutenção costumam funcionar muito bem e ainda podem ser utilizados no dia a dia da cozinha”, sugere Tripoloni.

Em projetos do atelier, composições com jaboticabeira, pitangueira, limoeiro e costela-de-adão aparecem lado a lado com orquídeas, bambus e estrelítzias, criando a sensação de uma pequena floresta urbana sem abrir mão da funcionalidade. O cultivo também funciona como atividade de conexão para toda a família, especialmente para crianças e idosos.

Brincar e conviver: gramado, sombra e circulação pensada

Famílias com crianças, animais de estimação ou idosos têm uma demanda específica que o quintal resolve com eficiência quando bem planejado: espaço livre para movimento. Gramados, áreas sombreadas, circuitos simples para brincadeiras e percursos de circulação desobstruídos tornam o ambiente convidativo para todas as idades.

Projeto Atelier Paulo Tripoloni | Foto: Adriano Escanhuela

O planejamento precisa equilibrar diversão e segurança. “É importante observar que espécies serão plantadas, evitar vegetações tóxicas para os animais e criar percursos convenientes para circulação. Em projetos com crianças, também vale pensar em pisos que reduzam impactos e áreas protegidas do sol mais intenso”, orienta Paulo Tripoloni.

O grande erro nesse tipo de projeto é ignorar a insolação ao longo do dia. Um gramado bem executado às 9h da manhã pode estar inutilizável às 14h se não houver cobertura vegetal ou estrutura de sombra projetada para o horário em que as crianças realmente usam o espaço.

Paisagismo como moldura

Nem todo quintal precisa ser ocupado por atividades. Em muitos projetos, a função principal da área externa é criar uma vista qualificada para os ambientes internos — sala, cozinha, quarto. O paisagismo assume o protagonismo por meio da combinação de espécies, volumes, texturas e diferentes tonalidades de verde.

Árvores de pequeno porte, forrações, arbustos e maciços floridos criam composições que se transformam ao longo das estações, trazendo movimento e interesse visual para quem está do lado de dentro. Essa abordagem é especialmente eficiente em apartamentos térricos e casas com janelas amplas voltadas para a área externa.

Projeto Atelier Paulo Tripoloni | Foto: Adriano Escanhuela

“Um jardim bem planejado pode ser apreciado da sala, da cozinha ou até mesmo do quarto. Muitas vezes, ele funciona como uma espécie de quadro vivo que acompanha as mudanças da natureza durante o ano”, descreve o arquiteto.

O paisagismo funciona como extensão visual do projeto de interiores e precisa ser pensado junto com ele, não depois que a obra estiver concluída.

Piso, mobiliário e área gourmet

Quando a proposta é criar um espaço de convivência ao ar livre, o projeto muda de lógica. O foco sai da vegetação e vai para pisos resistentes às variações climáticas, mobiliário externo, mesas para refeições, churrasqueiras e áreas gourmet integradas. O quintal vira pátio — e o pátio vira o ambiente mais frequentado da casa nos fins de semana.

A escolha dos materiais é onde mora o risco. Pisos de alta absorção, madeiras sem tratamento adequado e mobiliário sem resistência à umidade são os erros mais comuns em projetos de pátio e os mais caros de corrigir depois da obra.

Projeto Atelier Paulo Tripoloni | Foto: Adriano Escanhuela

“Quando pensamos em um pátio, buscamos criar um ambiente confortável durante todo o ano. O mobiliário, a insolação, a drenagem e os materiais escolhidos influenciam diretamente na forma como as pessoas vão utilizar o espaço”, explica Paulo Tripoloni.

Área coberta: o quintal que funciona com chuva

A cobertura, seja ela total ou parcial, fixa ou retrátil, é o que transforma o quintal em um ambiente de uso real ao longo de todo o ano. Com ela, surgem possibilidades que a área descoberta não comporta: cozinha externa, espaço gourmet completo, sala de estar ao ar livre, área de leitura e ambientes para encontros familiares em dias de chuva ou calor intenso.

Projeto Atelier Paulo Tripoloni | Foto: Adriano Escanhuela

A integração entre áreas cobertas e descobertas cria uma continuidade entre interior e exterior que projetos sem esse planejamento raramente conseguem. O deck de madeira, a cobertura retrátil de vidro e a conexão direta com a cozinha interna são soluções que aparecem com frequência em projetos contemporâneos e que dependem de decisão tomada ainda na fase de projeto, não na reforma.

“Uma área coberta permite que o quintal seja utilizado com mais frequência ao longo do ano. O importante é que exista uma relação harmoniosa entre os espaços, para que eles funcionem de forma complementar”, reforça o arquiteto Paulo Tripoloni.

  • Cláudio P. Filla

    Fundador e Editor-Chefe do Enfeite Decora

    Publicitário, gestor de mídias sociais e especialista em conteúdo digital sobre decoração, arquitetura, paisagismo, jardinagem e tendências para o lar.

    👉 Biografia completa do autor.

  • Para o arquiteto Paulo Tripoloni, nascer na maior cidade da América Latina o fez refletir, desde cedo, sobre o lugar do homem nas cidades – o morar, o viver e o trabalhar. Morar em São Paulo despertou nele o olhar atento aos detalhes, necessidades e a força que a urbanidade trazia. Encontrou na arquitetura minimalista uma de suas inspirações para realizar projetos que buscam atender às necessidades da vida contemporânea por meio de ambientes funcionais, belos e ecologicamente responsáveis que conectem cada cliente ao que, de fato, é essencial para cada um.

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