Há marcas que nascem prontas. A Puupa Studio escolheu outro caminho: o da gestação. O nome já entrega a filosofia por trás do projeto — puupa vem de pupa, o estágio de crisálida no ciclo de vida de alguns insetos, aquele momento silencioso em que tudo se reorganiza internamente antes de ganhar forma definitiva. É exatamente assim que o designer Luccas Iatauro descreve sua chegada ao design de mobiliário autoral: não como uma virada repentina, mas como um processo de transformação que vinha sendo construído em silêncio.
A Coleção 1 é a primeira entrega pública desse processo. Quatro peças, desenvolvidas a partir de uma integração entre materiais naturais, botânica e o ambiente em que o designer vive, compõem o portfólio de estreia de uma marca que já nasce com linguagem visual própria e uma abordagem deliberadamente não convencional à forma e à função.
Quando a mesa de centro vira uma experiência sensorial
A peça mais densa da coleção é a Ground Table, mesa de centro de formas biomórficas que embaralha referências botânicas, vulvares e fálicas em uma única superfície. A escolha não é provocação gratuita: o projeto explora a pareidolia — aquela capacidade humana de reconhecer rostos, corpos e criaturas em formas abstratas — como recurso projetual consciente.

O resultado é uma mesa que não se deixa ler de uma vez. A cada novo ângulo, a leitura muda. Isso transforma o objeto em algo além do funcional: a Ground Table propõe uma experiência contínua de descoberta, onde a superfície é apenas o ponto de partida. No design de interiores contemporâneo, peças com esse nível de ambiguidade visual têm cumprido um papel cada vez mais relevante — o de provocar o olhar do morador e romper com a passividade decorativa de um ambiente.
Cadeiras que parecem estar em movimento
As cadeiras da Coleção 1, chamadas de sitting pieces, chegam em duas opções de revestimento — café e cru — e carregam uma solução estrutural que merece atenção. Suas estruturas são compostas por tubos concêntricos encaixados, que evocam a ideia de expansão e retração ao longo do próprio eixo da peça.

Estáticas, as cadeiras criam a ilusão de movimento. É como se estivessem suspensas em um instante de transformação, congeladas no meio de um gesto. Essa tensão entre fluidez e contenção é o que confere às peças um caráter marcadamente escultural, colocando-as em uma zona limítrofe entre mobiliário funcional e objeto de arte. Para ambientes que apostam em um décor autoral e contemporâneo, esse tipo de peça funciona como âncora visual — ela organiza o espaço em torno de si sem precisar competir com outros elementos.
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A mesa lateral que negocia entre reto e orgânico
A ML 1, mesa lateral da coleção, tem presença compacta e uma proposta clara: o contraste. Suas linhas retas convivem com o veio orgânico da madeira, criando uma negociação visual entre estrutura geométrica e matéria natural. Essa escolha não é estética por acidente — ela traduz o mesmo princípio que atravessa toda a Coleção 1: a transformação como estado permanente, a tensão entre o que é construído e o que é encontrado.

Funcional sem ser apenas utilitária, a ML 1 participa da narrativa da coleção com a mesma intensidade das peças maiores. No projeto de interiores, mesas laterais costumam ser tratadas como elementos secundários, mas peças com esse nível de elaboração projetual mudam esse papel — elas se tornam parte ativa da composição do ambiente.
Design autoral brasileiro em construção de identidade
O que a Puupa Studio apresenta com a Coleção 1 vai além de quatro peças de mobiliário. É a declaração de uma linguagem: uma marca que nasce com ponto de vista formado, com referências que não se limitam ao repertório convencional do design de interiores e com a clareza de que objeto bem resolvido é aquele que continua sendo descoberto depois que a sala está montada.
Luccas Iatauro constrói, com essa estreia, um vocabulário visual que mistura referências da natureza, tensão escultural e materiais que carregam história própria. A crisálida virou coleção. E o que vem depois disso é o que vai definir o tamanho dessa marca no cenário do design autoral brasileiro.





