Não são muitos os designers brasileiros que conseguem levar ao Fuorisalone (o circuito paralelo da Semana de Design de Milão) projetos com raízes tão específicas e, ao mesmo tempo, com linguagem tão universalmente reconhecível. A arquiteta e designer Luciana Teixeira, que divide sua vida entre Brasil e Espanha, é uma delas. Nesta edição do evento, ela apresenta dois trabalhos que partem de lugares muito concretos: a memória afetiva das casas brasileiras e a paisagem viva de Mato Grosso do Sul.
A coleção Saudade e o tapete Rio dos Cocares chegam a Milão como resultado de um processo que mistura pesquisa cultural, técnica e envolvimento humano real. Não é estética regionalista superficial. É design autoral construído sobre camadas de significado.
A poltrona que nasceu de um “centrinho”
O ponto de partida da coleção Saudade é simples e potente: as peças feitas à mão que decoravam as casas de gerações anteriores. Aqueles centrinhos de crochê colocados sobre as mesas, as toalhas bordadas penduradas nas paredes, os trabalhos em macramê que delimitavam espaços nas salas e quartos. Objetos que habitam o repertório visual de quase todo brasileiro, mas que raramente recebem tratamento como patrimônio cultural.
Luciana Teixeira inverte essa lógica. “O projeto Saudade se inspira nas mulheres da minha família e de tantas outras pelo Brasil afora. Fala dos objetos tecidos durante meses dentro das casas e depois expostos nas paredes. São saberes transmitidos entre gerações, que habitam nosso repertório visual e merecem reconhecimento como patrimônio cultural. Perpetuar essa inteligência artesanal é um ato de resistência em um mundo que nos entorpece com telas, teclados e interações digitais.”

O grande acerto da coleção está no equilíbrio entre o manual e o industrial. A poltrona Saudade tem estrutura metálica, mas os detalhes em macramê feitos à mão são protagonistas absolutos. O metal garante a resistência e a escala de produção; o artesanato garante a alma. Essa combinação é exatamente o que o design contemporâneo de alto valor busca e raramente encontra sem parecer forçado.
Além da poltrona, as luminárias da coleção trabalham com o mesmo princípio. Os centrinhos de crochê, reaproveitados como elemento de iluminação, criam jogos sutis de luz e sombra nas superfícies ao redor. Quem conhece o comportamento da luz em ambientes internos sabe que esse tipo de filtro artesanal produz um efeito muito mais orgânico do que qualquer pendente industrial conseguiria.
Oficinas com idosos em Campo Grande
Um detalhe que eleva o projeto acima do puramente estético é o processo de criação. Parte da coleção Saudade foi desenvolvida a partir de oficinas realizadas com idosos em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul. A troca não foi só técnica — foi geracional, afetiva e social.
“Foram momentos incríveis de convivência e aprendizado. Saber que essa coleção é fruto de uma troca tão significativa me emociona profundamente”, conta Luciana.
Esse tipo de processo tem peso real dentro da avaliação do design contemporâneo em nível internacional. O Fuorisalone, especialmente nos últimos anos, tem valorizado projetos com cadeia de produção transparente e impacto social mensurável. Levar para Milão uma peça que carrega o trabalho manual de artesãs e artesãos brasileiros é reforçar o posicionamento no mercado global de design autoral.
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Rio dos Cocares: o tapete que cartografa o MS
O segundo lançamento que Luciana apresenta em Milão é o tapete Rio dos Cocares, desenvolvido para um projeto nacional que reúne designers de diferentes estados brasileiros, cada um responsável por representar sua região.
A peça é uma leitura visual de Mato Grosso do Sul. O desenho segue o fluxo dos rios, e as cores remetem diretamente aos três biomas que definem a paisagem do estado: Pantanal, Cerrado e Chaco. As referências aos povos originários também estão presentes no projeto, tanto no nome quanto nas escolhas gráficas.
O grande erro em projetos assim é cair no folclórico — usar referências regionais como adorno, sem comprometimento real com o território. O tapete Rio dos Cocares não cai nessa armadilha. A abstração dos elementos como rios, biomas e cultura indígena, resulta em uma peça que funciona esteticamente em qualquer ambiente contemporâneo, sem perder a identidade de origem. Aliás, essa é uma das qualidades mais difíceis de alcançar no design de superfície: ser específico o suficiente para ter identidade, e universal o suficiente para ter mercado.
O que esses projetos revelam sobre o design brasileiro atual
A participação de Luciana Teixeira no Fuorisalone com esses dois projetos diz algo mais amplo sobre o momento do design brasileiro. Há uma geração de profissionais que parou de olhar para fora em busca de referências e passou a aprofundar o que já existe aqui — nos biomas, nas técnicas artesanais, nas memórias coletivas, nos povos originários.
O resultado é um design de interiores e de produto com identidade clara, que não precisa imitar tendências europeias para ter relevância internacional. A poltrona Saudade e o tapete Rio dos Cocares chegam a Milão não para mostrar que o Brasil consegue fazer o que a Europa faz. Chegam para mostrar o que só o Brasil e, mais especificamente, o que só Mato Grosso do Sul pode oferecer.
Dessa forma, para o mercado de decoração de interiores e arquitetura, acompanhar o que profissionais como Luciana Teixeira estão produzindo não é só inspiração estética. É entender para onde o design autoral brasileiro está caminhando.






