Há algo de muito preciso na decisão de levar arte contemporânea para dentro de um parque cujas rochas têm mais de 300 milhões de anos. Não é apenas uma questão estética — é, sobretudo, uma provocação sobre escala, tempo e pertencimento. É exatamente esse o terreno que o MON sem Paredes – Vila Velha escolheu ocupar.
A nova fase do projeto do Museu Oscar Niemeyer (MON) chega ao Parque Estadual de Vila Velha, em Ponta Grossa, com inauguração marcada para 25 de fevereiro, às 15h. A iniciativa reúne seis artistas contemporâneos — Gustavo Utrabo, Tom Lisboa, Kulykirida Menihaku, Sonia Dias, Denise Milan e Alexandre Vogler — em torno de um desafio raro: criar obras inéditas para um espaço tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Paraná, onde a própria paisagem já é, ela mesma, uma obra.
Arte fora das paredes — e além dos jardins
O MON sem Paredes nasceu em 2024 como uma forma de romper os limites físicos do museu, levando obras de arte interativas para os jardins externos e transformando o entorno do edifício em espaço de fruição permanente. O resultado foi imediato: o projeto virou convite aberto, atraindo quem passava e instigando o público a atravessar as portas do museu.
Aliás, essa lógica de aproximação é parte do que move o projeto desde o início. “Quando levamos obras de arte até onde está a população, além de sensibilizarmos o grande público, que talvez não tenha o hábito de entrar num museu, oferecemos um ambiente de pausa, de desaceleração, de reconexão interior”, afirma Juliana Vosnika, diretora-presidente do MON. Ela ainda destaca que pesquisas em psicologia e arteterapia mostram que o contato com arte reduz estresse, estimula emoções positivas e fortalece o senso de pertencimento — elementos, segundo ela, fundamentais para o bem-estar psicológico.
Agora, o projeto dá um passo maior. Sai dos jardins cultivados e vai para o arenito bruto. Vai para as falésias que os apiabas chamavam de Itacueretaba — “cidade extinta de pedras”.
O lugar como matéria-prima
Poucos cenários no Brasil oferecem tamanha densidade simbólica quanto o Parque Estadual de Vila Velha. As formações rochosas que recortam a paisagem do Segundo Planalto Paranaense não são apenas antigas — elas têm formas que desafiam a razão geométrica: taça, esfinge, bota, tartaruga, cabeça de índio, garrafa, camelo, proa de navio. São esculturas naturais que o tempo esculpiu sem nenhuma intenção, o que as torna ainda mais perturbadoras quando colocadas ao lado da criação humana deliberada.
O curador Marc Pottier, responsável pelo conceito junto a Fernando Canalli, entende muito bem esse potencial. “Entre essas falésias históricas e as formas curiosas que elas encerram, encontram-se temas únicos de reflexão para artistas contemporâneos”, observa Pottier. Para ele, o museu chamou os artistas para criar um diálogo com esse universo — e revelar novas camadas de significado sobre a singularidade do lugar.
Esse tipo de curadoria, que parte da escuta do território antes de pensar na obra, é o que distingue uma intervenção site-specific genuína de uma simples instalação ao ar livre. A obra precisa pertencer ao lugar. Precisa conversar com a luz que bate na pedra no fim da tarde, com a umidade, com a escala absurda das formações. Do contrário, vira decoração — e decoração, aqui, seria insuficiente.
Seis artistas, um parque, muitas conversas possíveis
A seleção de Gustavo Utrabo, Tom Lisboa, Kulykirida Menihaku, Sonia Dias, Denise Milan e Alexandre Vogler aponta para um recorte plural da cena contemporânea. São artistas com poéticas distintas, o que garante que a exposição não se reduza a um único registro ou linguagem. Cada obra é inédita — criada especificamente para este encontro entre arte e natureza protegida.
Esse é um dado que merece atenção: trabalhar em uma unidade de conservação tombada impõe restrições reais. Não é possível intervir no solo, alterar a vegetação ou comprometer as formações rochosas. A arte precisa ser pensada para existir sem deixar marca permanente no ambiente — o que, paradoxalmente, exige ainda mais precisão e cuidado na concepção.
O maior museu de arte da América Latina — e seus espaços sem teto
O MON é um dado de contexto que vale reforçar: com aproximadamente 14 mil obras em acervo e mais de 35 mil metros quadrados de área construída, é o maior museu de arte da América Latina. A instituição abriga produções nacionais e internacionais em artes visuais, arquitetura e design, além de coleções asiática e africana. Um museu dessa envergadura levando uma exposição inédita para fora de seus muros — e para dentro de um parque natural — é um gesto que diz muito sobre a direção que as instituições culturais mais relevantes estão tomando.
A iniciativa conta com o apoio do Governo do Paraná, por meio do Instituto Água e Terra, vinculado à Secretaria do Desenvolvimento Sustentável, e da Soul Parques, empresa que administra o parque. A articulação entre cultura, meio ambiente e gestão pública é, ela mesma, parte do projeto, ou seja, uma demonstração de que arte, patrimônio natural e território se fortalecem quando ocupam o mesmo espaço.
SOBRE O PARQUE – Localizado em Ponta Grossa, a apenas uma hora de Curitiba, o Parque Estadual de Vila Velha é o primeiro parque estadual criado no Paraná, em 1953. Atualmente é uma concessão do Governo do Estado do Paraná, por meio do Instituto Água e Terra, à Soul Vila Velha, uma empresa do Grupo Soul Parques.
As bilheterias funcionam até as 15 horas. O parque indica a chegada ainda pela manhã para que os visitantes possam conhecer seus atrativos – Trilha Arenitos, Furnas e Lagoa Dourada – se deliciar com as diversas opções gastronômicas e ainda aproveitar as atrações de aventura: Tirolesa, Arvorismo e Cicloturismo. Mais informações AQUI.
Serviço:
“MON sem Paredes – Arte ao Ar Livre – Vila Velha”
Inauguração: 25/02
Horário: 15h
Parque Estadual de Vila Velha
Rodovia BR-376, Km 515, Jardim Vila Velha, Ponta Grossa – PR
Museu Oscar Niemeyer





