Integrar ambientes não significa mais derrubar todas as paredes. Essa é a mudança de raciocínio que estrutura os projetos residenciais mais recentes: em vez de espaços completamente abertos ou totalmente fechados, a arquitetura de interiores passou a trabalhar com uma zona intermediária, onde painéis, divisórias e elementos vazados assumem a função de organizar sem interromper.
O recurso resolve um impasse comum em plantas integradas, especialmente em apartamentos: como demarcar o uso de cada área sem perder a sensação de amplitude que a integração proporciona. Brises, muxarabis, cobogós, estantes abertas, biombos e painéis em madeira, MDF, metal ou combinações entre marcenaria e serralheria entram exatamente nesse espaço.
“A ideia não é fechar os espaços como acontece com uma parede convencional, mas sim propiciar permeabilidade entre um ambiente e outro. A visão fica mais livre, o imóvel parece mais amplo e, ao mesmo tempo, cada área tem sua identidade”, explica a arquiteta Denise Barretto, à frente de seu escritório homônimo.
O problema que a alvenaria não resolve
Com as plantas cada vez mais integradas, o desafio deixou de ser abrir o espaço e passou a ser organizá-lo. Separar o hall da sala de estar, demarcar um home office dentro do living, criar uma transição entre a sala de jantar e o estar, ou garantir mais privacidade em suítes: todas essas necessidades exigem uma resposta que a parede tradicional não oferece, porque fechar completamente anula a integração que o projeto buscou desde o início.

É nesse ponto que painéis e divisórias assumem protagonismo. Denise explica que a estratégia permite estabelecer limites visuais sem interromper a continuidade espacial: “é uma integração que deixa o ambiente maior e mais aberto, enquanto cada espaço continua claramente definido. Essa leveza faz toda a diferença na percepção do projeto”.
Um exemplo direto dessa lógica aparece em uma porta de correr em pau-ferro, projetada para separar a área social do espaço gourmet apenas quando os moradores desejam. Fechada, garante privacidade. Aberta, devolve a integração e amplia a circulação nos momentos de receber convidados. A divisória, aqui, não é uma escolha permanente, é uma ferramenta que se adapta à rotina.
Cada material fala uma linguagem diferente
A variedade de materiais disponíveis permite que o elemento assuma um papel discreto ou se torne o protagonista visual do ambiente. Painéis ripados em madeira ou MDF criam ritmo através da repetição de linhas verticais. Estruturas metálicas trazem um resultado mais contemporâneo e industrial, como a divisória que separa o estar do home theater em um dos projetos de Denise, mantendo a atmosfera minimalista sem romper a integração visual entre os dois ambientes.

Já os cobogós e muxarabis trabalham em outra frente: a passagem de luz. Os vazados permitem jogos de sombra que se transformam ao longo do dia, algo que nenhuma parede cega é capaz de reproduzir. Em um projeto assinado pela arquiteta, uma porta em muxarabi dá acesso à sala de TV, um espaço mais reservado que segue recebendo iluminação natural vinda da área social, graças à permeabilidade do material.
“As possibilidades são praticamente infinitas e cada uma delas responde às necessidades específicas do projeto”, observa Denise, destacando ainda que esses elementos podem incorporar nichos, prateleiras e espaços expositivos, ampliando sua função no dia a dia da casa.
Conforto térmico e acústico entram na equação
A escolha do material não é apenas estética. Madeira e MDF contribuem para o conforto termoacústico do ambiente, reduzindo a propagação de ruído entre espaços vizinhos. Os modelos vazados, por sua vez, favorecem diretamente a circulação do ar e o aproveitamento da iluminação natural, características que ganham peso em projetos que buscam reduzir a dependência de climatização e luz artificial.
“Quando pensamos no projeto como um todo, percebemos que eles atendem diferentes demandas ao mesmo tempo”, pondera Denise. É esse acúmulo de funções, organização espacial, estética, conforto térmico e ventilação, que explica por que o recurso deixou de ser um detalhe decorativo e passou a integrar o planejamento estrutural dos projetos.

Uma porta pivotante com muxarabi, posicionada na entrada de outro apartamento, ilustra bem essa sobreposição de funções: a composição com a iluminação de uma arandela próxima cria profundidade visual através do jogo de luz e sombra, ao mesmo tempo em que resolve a transição entre o hall e o restante da casa.
Divisórias que acompanham as mudanças da rotina
Diferentemente de uma parede de alvenaria, boa parte dessas soluções pode ser adaptada, removida ou substituída conforme a dinâmica da casa muda ao longo dos anos. Uma família que cresce, um home office que deixa de ser necessário, um ambiente que muda de função: a estrutura em madeira, metal ou MDF permite essa reconfiguração sem obra.

“Hoje as pessoas buscam espaços versáteis, capazes de assumir diferentes usos sem grandes intervenções. Painéis e divisórias, justamente, entregam essa liberdade, permitindo reorganizar a casa de forma muito mais simples”, finaliza Denise Barretto.
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