Depois de aprovar planta, revestimento e paleta de tons, a maior parte dos projetos de interiores chega a uma etapa que costuma ser tratada como secundária: a escolha dos objetos decorativos que vão compor, de fato, a personalidade da casa. É nesse momento que muita gente erra a mão, seja preenchendo superfícies só para “não deixar vazio”, seja comprando peças isoladas sem nenhuma relação com o restante do ambiente.
Para as arquitetas Vanessa Paiva e Claudia Passarini, à frente do escritório Paiva e Passarini Arquitetura, essa fase não é um detalhe de acabamento. É o que converte um projeto tecnicamente correto em um espaço que parece, de fato, habitado. “Uma residência ou um apartamento se tornam lar quando recebem essa personificação”, avaliam as profissionais. Segundo elas, a composição decorativa acompanha tanto o estilo do projeto quanto o modo de vida de quem mora ali, independentemente do orçamento envolvido.
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Decorar é um gesto antigo, e isso ajuda a entender o presente
A palavra decorar carrega raiz latina, vinda do verbo decoro, que significa ornar, enfeitar, honrar. Já o termo decoração surgiu na Roma Antiga, como decoratione. Mas o hábito de selecionar objetos para expressar beleza em um espaço é ainda mais velho: historiadores apontam que já no Egito Antigo havia valorização de vasos, pinturas e outros elementos com função estética e simbólica.

Vale notar essa origem porque ela desmonta um mito comum: a ideia de que decoração de ambientes é invenção recente do mercado de design. Na prática, sempre foi um jeito de comunicar identidade através de objetos, muito antes de existir Pinterest, Instagram ou qualquer tendência sazonal.
Autenticidade pesa mais do que tendência
Para Vanessa, montar a seleção de itens decorativos de um imóvel diz muito sobre quem mora nele. “Filosoficamente, podemos entender como a expressão interior de quem habita aquele espaço”, analisa. Claudia complementa o raciocínio ao afirmar que essa leitura vale tanto para o morador quanto para quem apenas visita a casa: “É possível fazer uma leitura da alma e conhecer um pouco mais sobre quem é esse ser humano”.

Isso significa, na prática, que investir alto não é pré-requisito. O que realmente conta é a coerência entre o objeto e quem convive com ele. “Não existe fórmula pronta. O bonito é aquilo que conecta com nosso interior e acrescenta conforto e identidade”, pontua Vanessa. As arquitetas costumam incentivar os clientes a inserir peças afetivas: lembranças de viagem, obras adquiridas ao longo da vida, itens herdados da família. São detalhes que nenhum catálogo de loja consegue reproduzir.
Menos peças, mais intenção
Um erro recorrente em projetos residenciais é confundir personalidade com quantidade. Encher uma estante ou uma bancada de objetos só porque eles são bonitos isoladamente costuma produzir o efeito contrário: poluição visual, sem foco algum.
As arquitetas seguem a lógica do menos é mais, mas fazem uma ressalva importante. “A não ser que o proprietário do imóvel seja um colecionador, fato que justifica o volume de algo, por exemplo. O prazer está em apreciar a estética ou significado daquilo que figura em cima de uma mesa”, explicam. Ou seja, a regra não é rígida. Ela depende do repertório e da rotina de quem vai conviver com aquela composição todos os dias.
Materiais naturais ainda vencem a disputa
No universo de possibilidades para compor um ambiente, madeira, sementes, pedra, cerâmica, metal e fibras aparecem como escolhas recorrentes entre as profissionais. Não é acaso, já que os materiais naturais trazem textura, variação de tom e um acabamento que dificilmente envelhece mal, ao contrário de peças puramente decorativas feitas em série.

Há também uma camada de valorização do design nacional. “Gostamos também de prestigiar o design nacional por meio de artesãos regionais que reproduzem suas culturas por meio da arte”, declara Vanessa. Um colar de sementes sobre a mesa de jantar ou uma cadeira Girafa no hall de entrada, por exemplo, carregam identidade brasileira sem depender de referências estrangeiras replicadas à exaustão em vitrines de shopping.
Livros como peça de decoração, não só de leitura
Entre os itens que mais aparecem em projetos assinados por Vanessa e Claudia, os livros decorativos ganham destaque especial. Eles podem compor uma mesa de centro, ocupar prateleiras ou reforçar o repertório do morador através de títulos de arquitetura, fotografia ou culinária.

Segundo Claudia, o papel desses volumes vai além do visual. “Além de revelar paixões dos moradores, pode despertar conversas e inspirar quem passa por ali”, afirma. Na prática, os exemplares costumam aparecer dispostos na horizontal, na vertical, ou intercalados com outros objetos, criando camadas que evitam o efeito de vitrine engessada.
O que muda quando o objeto tem função e significado
No décor contemporâneo, cada peça precisa dialogar com o conjunto. Isso vale tanto para os espaços preenchidos quanto para os vazios propositais, que também fazem parte da composição. O charme, nesse caso, está nos detalhes técnicos: o encaixe entre texturas diferentes, a escolha de cores que conversam com o restante da paleta, a luz natural que incide sobre determinada peça em certo horário do dia, ou simplesmente a memória afetiva que um objeto específico carrega para quem mora ali.

Até elementos do cotidiano, como utensílios de cozinha e embalagens de tempero, participam dessa narrativa quando escolhidos com atenção. Não é sobre gastar mais, e sim sobre enxergar potencial decorativo em coisas que muita gente trata como puramente funcionais.
No fim das contas, escolher objetos decorativos com critério é menos sobre seguir tendência e mais sobre traduzir, em objetos concretos, quem realmente vive naquele espaço.
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