MO.dO Botafogo marca a chegada de Pedro Coimbra à escala do edifício no Rio

Em seu primeiro edifício no Rio, o arquiteto traduz a essência da arquitetura brasileira em um projeto que valoriza convivência, materialidade honesta e conexão urbana

MO.dO Botafogo marca a chegada de Pedro Coimbra à escala do edifício no Rio

Não é comum ver um arquiteto conhecido por residências autorais e restauros delicados migrar para a escala do edifício sem perder identidade. No entanto, é exatamente isso que acontece no MO.dO Botafogo, primeiro projeto multifamiliar de Pedro Coimbra na capital fluminense. Aqui, a passagem da casa para o prédio não representa ruptura, mas expansão de repertório.

O edifício inaugura uma nova fase da plataforma “Design Living” ao propor uma arquitetura que ultrapassa o apartamento e transforma o morar em experiência urbana. Contudo, o que realmente diferencia o projeto não é o discurso contemporâneo de convivência compartilhada — é a forma como ele reinterpreta o modernismo brasileiro com precisão e sensibilidade.

Modernismo brasileiro, mas sem nostalgia

A referência aos mestres — de Zanine Caldas a Lina Bo Bardi, passando por Vilanova Artigas, Carlos Leão e Affonso Eduardo Reidy — não aparece como citação estética superficial. Ela se manifesta na fluidez dos ambientes, na valorização da estrutura aparente e na honestidade da materialidade.

“Projetar no Rio, cidade com a qual tenho forte ligação, é unir respeito ao passado, valor ao presente e responsabilidade com o futuro”, afirma Pedro. E essa responsabilidade se traduz em decisões claras: aberturas generosas, integração visual com o entorno e espaços de convivência que não são acessórios, mas estruturantes do projeto.

O grande erro, quando se fala em modernismo hoje, é reduzi-lo a concreto aparente e linhas retas. Aqui, o que realmente faz a diferença é a compreensão do edifício como lugar de encontro — conceito central na arquitetura brasileira do século XX, agora reinterpretado sob uma lente contemporânea.

Arquitetura que conversa com Botafogo

Botafogo não é pano de fundo. É parte ativa do projeto. Desde a preservação da casa tombada na frente do terreno até o corredor de acesso que remete a uma pequena vila carioca, o edifício estabelece uma transição suave entre rua e interior.

Essa solução evita um dos problemas recorrentes da produção imobiliária atual: edifícios que se isolam do bairro como fortalezas privadas. No MO.dO, a entrada com painel artístico de Arthur Grangeia — retratando o Pão de Açúcar — cria um vínculo imediato com a paisagem. Assim, o prédio não se impõe à cidade; ele dialoga com ela.

Além disso, o uso de tijolinhos sustentáveis, produzidos a partir de vidro reciclado, resíduos de lâmpadas e materiais retirados do oceano, adiciona uma camada ética à estética. Não se trata apenas de textura ou memória afetiva, mas de responsabilidade ambiental aplicada à construção.

“Buscamos uma materialidade verdadeira, responsável e poética. Esses tijolinhos sustentáveis contam histórias de cuidado ambiental, de transformação de resíduos e de respeito aos nossos recursos”, pontua Pedro.

Design Living: morar para além do apartamento

A proposta de Design Living ganha força na configuração dos espaços comuns. Academia, lavanderia compartilhada, lobby com área de estar e ambientes de convivência ampliam a experiência cotidiana. Entretanto, o que chama atenção é a integração visual e espacial entre interior e exterior — quartos que se abrem para varandas generosas, circulações iluminadas e áreas coletivas que convidam à permanência.

O quarto integrado à sacada, por exemplo, demonstra entendimento climático e urbano. A ventilação cruzada, a entrada de luz natural e a continuidade entre dentro e fora reforçam o conceito de arquitetura acolhedora, mas sem abrir mão da precisão construtiva.

Aliás, essa relação com luz e sombra é um ponto sensível do projeto. O modernismo brasileiro sempre trabalhou o brise, a varanda e o recuo como dispositivos climáticos e sociais. Aqui, esses elementos são reinterpretados para a vida contemporânea, sem caricatura.

Materialidade honesta e atmosfera humana

A combinação entre concreto, madeira, tijolo e arte cria uma base neutra, porém viva. O edifício evita o excesso de revestimentos cenográficos, privilegiando texturas reais e acabamentos duráveis. Dessa forma, a estética nasce da estrutura, e não de camadas decorativas posteriores.

Pedro define o projeto como um Brasil de contrastes complementares: “alegre e sério, chique e espontâneo, colorido e preciso, moderno e profundamente acolhedor”. Essa dualidade aparece na mistura entre rigidez estrutural e suavidade das áreas de convivência.

Cuidado, porém, com a leitura simplista de acolhimento como excesso de elementos. O que torna o espaço convidativo é a proporção correta, o equilíbrio entre cheios e vazios e a qualidade da luz natural ao longo do dia.

Uma nova fase na trajetória de Pedro Coimbra

Fundado em 2017, o escritório Pedro Coimbra Arquitetura construiu reputação em projetos residenciais, cenografia e intervenções autorais que valorizam a brasilidade e o compromisso social. A experiência internacional do arquiteto, somada à atuação ao lado de André Piva e ao período em Rotterdam, ampliou seu repertório técnico e urbano.

Agora, ao assumir a escala do edifício, Pedro demonstra que é possível crescer sem diluir identidade. O MO.dO Botafogo não é apenas sua estreia em prédios cariocas — é uma declaração de que o modernismo brasileiro contemporâneo pode ser urbano, sustentável e, sobretudo, humano.

E talvez seja justamente essa a maior contribuição do projeto: lembrar que arquitetura de edifícios não precisa ser impessoal. Quando bem pensada, ela continua sendo, antes de tudo, espaço de convivência.

  • Cláudio P. Filla é comunicador social e especialista em mídias digitais, com mais de 11 anos de atuação na curadoria de tendências para o mercado de arquitetura e decoração. Como editor-chefe do Enfeite Decora, Cláudio lidera um conselho editorial composto por arquitetos, designers de interiores e paisagistas registrados (CAU/ABD), garantindo que cada artigo combine inspiração visual com rigor técnico e normativo. Sua missão é traduzir o complexo universo da construção e do design em soluções práticas, sustentáveis e acessíveis, sempre sob o respaldo de profissionais renomados do setor brasileiro.

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  • Pedro Coimbra Arquitetura foi fundada em 2017 com o propósito de atuar nos campos da arquitetura, design e cenografia, aliando criação autoral e compromisso social. O escritório busca inspiração nos grandes mestres da arquitetura brasileira para conceituar e desenvolver uma produção contemporânea que valorize a identidade e a brasilidade da arquitetura no Brasil. Seu portfólio reflete a diversidade de projetos e a constante investigação em torno do desenvolvimento da arquitetura brasileira.

    Pedro Coimbra é formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro. Atuou por mais de uma década ao lado do renomado arquiteto André Piva e viveu em Rotterdam, onde aprofundou conhecimentos técnicos, ampliou a visão sobre responsabilidade social e aprimorou o desenvolvimento de projetos.

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