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Mármore bege Bahia: a rocha que decora lares brasileiros tem uma história de 100 milhões de anos

Pesquisa inédita revela que o travertino nacional, presença certa em bancadas, lavabos e revestimentos, registra a invasão de águas salinas no território brasileiro muito antes da formação do Oceano Atlântico

Escrito por: Cláudio Filla
26 de março de 2026
em Arquitetura e Projetos
Mármore bege Bahia: a rocha que decora lares brasileiros tem uma história de 100 milhões de anos

O mármore bege Bahia está em bancadas de cozinha, revestindo lavabos, compondo pisos de salas de estar e aparecendo em projetos autorais de arquitetura pelo país inteiro. É um dos materiais mais reconhecíveis da decoração de interiores brasileira e, até agora, sua história havia parado na parte comercial. Uma pesquisa conduzida por universidades brasileiras mudou isso.

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O estudo, publicado no periódico científico Journal of South American Earth Sciences, identificou na estrutura microscópica do bege Bahia os primeiros registros de “evaporitos desaparecidos”: sais que existiram na rocha, foram dissolvidos ao longo de milhões de anos e deixaram para trás apenas a forma dos cristais. Esses vestígios, chamados de pseudomorfos, comprovam que a região onde hoje fica a Bacia de Irecê, no nordeste da Bahia, foi ocupada por ambientes salinos ou hipersalinos durante o Cretáceo Inferior, período entre 145 milhões e 100,5 milhões de anos atrás.

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Uma descoberta que partiu do próprio material

A investigação nasceu a partir de uma lacuna: os estudos sobre a origem geológica da Formação Caatinga, conjunto de depósitos de calcários que origina o bege Bahia, tinham parado na década de 1990. O que veio depois foram estudos técnicos voltados à extração comercial — o material já era amplamente exportado e valorizado, mas sua gênese permanecia pouco compreendida.

Mármore bege Bahia: a rocha que decora lares brasileiros tem uma história de 100 milhões de anos
Pia de travertino nacional | Foto: Marmoraria São Jorge

Os pesquisadores analisaram 52 afloramentos e pedreiras ao longo dos rios Verde, Jacaré e Salitre, todos na Bahia, coletando 74 amostras de rocha. Parte dessas amostras passou por análise microscópica. A metodologia também incluiu a construção de mosaicos petrográficos, um recurso que permite avaliar com precisão as texturas e estruturas internas da rocha em escala espacial.

O que chamou a atenção foi justamente a forma dos cristais. A composição atual do travertino nacional é de carbonato de cálcio, mas os cristais não apresentam as formas típicas desse mineral. Eles correspondiam às formas do gesso e da halita, dois tipos de sal. Esse fenômeno é o que a geologia chama de substituição mineral: a composição interna muda, mas a forma externa do cristal original é preservada. Surgem, assim, os chamados “cristais fantasmas”.

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“Descobrimos mais um local onde o mar entrou no território brasileiro antes da formação do Oceano Atlântico”, afirma Emiliano Castro de Oliveira, professor do Instituto do Mar da Unifesp e pesquisador principal do estudo.

A extração comercial da pedra foi, curiosamente, um fator decisivo para a pesquisa: o avanço das lavras possibilitou o acesso a camadas mais profundas das jazidas, onde esses registros estavam preservados. “Tivemos uma vantagem histórica de acessar esses depósitos e observar esse material por dentro”, conta o pesquisador.

O que a geologia tem a ver com a decoração

Mais do que uma curiosidade científica, a descoberta traz implicações práticas para quem especifica ou trabalha com o bege Bahia em projetos de arquitetura e design de interiores. O estudo identificou que a presença de argila, excesso de circulação de água e impurezas na rocha são fatores que podem comprometer sua qualidade estrutural e inviabilizar a extração em determinadas áreas da jazida.

Mármore bege Bahia: a rocha que decora lares brasileiros tem uma história de 100 milhões de anos
Imagem: Carioca Mármores e Granitos

Isso significa que o rigoroso processo de seleção e beneficiamento pelo qual o material passa antes de chegar ao mercado tem respaldo geológico. Nem toda rocha extraída da Formação Caatinga apresenta o padrão estético e a resistência que tornam o bege Bahia tão valorizado. A variação existe, e a pesquisa ajuda a entender por quê.

Na prática dos projetos, o mármore bege Bahia responde de maneira particular à luz natural. A sua tonalidade clara, levemente aquecida, cria superfícies que absorvem e devolvem a luminosidade de forma suave, sem contrastes duros — uma característica que favorece ambientes serenos e funcionais tanto em interiores quanto em áreas externas.

Da pedra ao projeto: como o bege Bahia chegou aos interiores brasileiros

O travertino nacional ganhou força no Brasil a partir das décadas de 1980 e 1990, acompanhando um movimento de valorização de materiais nacionais na arquitetura e no design de interiores. Funcionava como uma alternativa sofisticada, mais acessível do que o mármore importado, e alinhada ao contexto construtivo brasileiro.

Nos anos 2000, o uso se expandiu para escadas, bancadas de cozinha, lavabos e grandes superfícies contínuas. O erro mais comum desse período foi a aplicação do material em excesso e sem critério, diluindo o impacto visual que ele é capaz de gerar quando bem especificado.

Mais recentemente, o bege Bahia retornou com uma leitura mais contemporânea, menos associado ao clássico tradicional e mais próximo de uma estética natural, leve e atemporal. Passou a aparecer em peças de design autoral, composições com texturas naturais como madeira e palha, e em projetos que exploram o acabamento escovado ou o formato casqueiro como recurso expressivo, não apenas decorativo.

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Como o acabamento muda tudo na aplicação

O mármore bege Bahia não é um material de uso único e o acabamento escolhido altera completamente o comportamento visual e tátil da pedra, e essa é uma decisão que o projeto precisa tomar com consciência.

No acabamento polido, a superfície ganha brilho e as variações de cor da rocha ficam mais evidentes. É a versão mais tradicional, indicada para pisos de áreas secas e revestimentos de paredes em interiores com boa iluminação. O grande erro aqui é aplicar o polido em áreas úmidas sem o tratamento de impermeabilização adequado, pois a pedra, sendo porosa, absorve umidade com facilidade.

Mármore bege Bahia: a rocha que decora lares brasileiros tem uma história de 100 milhões de anos
Imagem: Paula Ortiz | Arquiteta e Designer

O acabamento escovado reduz o brilho e confere uma textura mais áspera à superfície, revelando a estrutura natural da rocha. É uma escolha muito presente nos projetos contemporâneos, justamente porque equilibra sofisticação e naturalidade. Funciona bem em revestimentos de parede, bancadas em áreas de uso intenso e pisos externos, onde a textura também contribui para a segurança.

Já o formato casqueiro, em que a pedra é extraída em lascas irregulares e aplicada diretamente sobre a superfície, é o que mais expõe o caráter orgânico do material. O resultado é um revestimento com volume, variação tonal e uma presença visual forte. Nesse caso, a aplicação exige mão de obra especializada e um projeto que entenda o peso visual que esse acabamento carrega. Cuidado com o excesso: uma única parede em casqueiro já cumpre o papel de ponto focal do ambiente.

Conexão com o pré-sal: o impacto científico vai além do banheiro

A pesquisa abre caminhos para áreas que vão muito além da construção civil. Compreender os processos de formação da Formação Caatinga contribui para o entendimento de reservatórios complexos de petróleo, como os do pré-sal brasileiro, que apresentam texturas e sistemas deposicionais análogos.

“Estamos olhando nessas rochas lugares onde tiveram algumas entradinhas de água do mar, mas que não viraram o oceano. A comparação é com esses momentos finais do pré-sal”, explica Emiliano Castro de Oliveira.

O que a pesquisa deixa claro, no fim, é que o mármore bege Bahia é muito mais do que um material de revestimento. É um documento geológico que registra um dos processos mais significativos da história da Terra e que, por puro acaso histórico, acabou decorando os interiores brasileiros durante décadas antes que alguém olhasse para ele com esse nível de atenção.

  • Mármore bege Bahia: a rocha que decora lares brasileiros tem uma história de 100 milhões de anos

    Cláudio P. Filla

    Fundador e Editor/Redator do Enfeite Decora
    Publicitário, gestor de mídias sociais e especialista em conteúdo digital sobre decoração, arquitetura, paisagismo, jardinagem e tendências para o lar.
    👉 Biografia completa do autor.

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