Algumas peças têm essa capacidade de transformar um ambiente só pela presença. Chegam com acabamento refinado, linha limpa, aquele detalhe que faz o projeto parecer completo. Só que, na rotina, o charme divide espaço com a vassoura, o pano úmido e uma atenção que nem sempre está nos planos de quem decora.
Decorar bem é isso, é escolher o que é bonito e faz sentido para como você vive. Afinal, beleza sem função cansa rápido e funcionalidade sem nenhum cuidado estético empobrece qualquer ambiente.
A arquiteta Aline Lobos costuma abordar esse equilíbrio com seus clientes antes mesmo de definir materiais. Segundo ela, “a informação está aqui para que você, ciente do trabalho, fique mais consciente e livre para fazer suas escolhas.” O que muda, portanto, não é a decisão — é a consciência com que ela é tomada.
A seguir, saiba quais são os quatro itens que aparecem com frequência nos projetos contemporâneos e que merecem essa conversa antes de entrar no orçamento.
Sobre o especialista
Aline Lobos, é arquiteta e designer de interiores com mais de 20 anos de experiência, amplamente reconhecida por seu trabalho focado em bem-estar
Cuba esculpida
A cuba esculpida é um dos elementos que mais chamam atenção em lavabos e banheiros projetados com intenção estética. Talhada diretamente em pedra natural, como mármore, granito, travertino ou quartzito, ela funciona como peça decorativa tanto quanto funcional. O problema aparece com o tempo.

Os cantinhos internos da cuba, especialmente onde o fundo encontra as laterais, tendem a acumular resíduo de sabão, calcário e manchas de umidade. Pedras porosas, como o mármore branco, são ainda mais sensíveis: sem selamento periódico e limpeza com produtos específicos (nada de multiuso ácido), a superfície pode manchar de forma permanente.
O que realmente faz a diferença aqui é a escolha da pedra aliada ao tipo de uso. Uma cuba esculpida em quartzito escuro, por exemplo, perdoa muito mais do que uma em mármore claro num lavabo de uso intenso.
Prateleiras abertas
Prateleiras abertas seguem sendo um dos elementos mais requisitados em cozinhas integradas, salas de estar e home offices. O visual é leve, facilita o acesso e permite composições com objetos, plantas e livros que dão personalidade ao ambiente.
Aliás, é exatamente essa abertura que cria o desafio. Superfícies expostas, sem porta ou vidro de proteção, acumulam pó com uma velocidade que surpreende, principalmente em cidades com clima seco ou em imóveis com circulação intensa de ar.

“Prateleiras abertas estão muito mais sujeitas ao acúmulo de pó e, portanto, precisam ser limpas com mais frequência”, aponta a arquiteta Aline Lobos. Isso significa que os objetos expostos também precisam ser retirados e limpos individualmente o que, em uma estante com muitos adornos, pode tomar uma tarde inteira.
A solução mais equilibrada costuma ser o modelo misto, com marcenaria fechada na parte inferior (onde ficam itens de uso cotidiano) e prateleiras abertas na parte superior, reservadas a peças decorativas com menos trânsito.
Ralo oculto
O ralo linear oculto, embutido no piso ou integrado ao rejunte, é um dos recursos mais usados em banheiros e áreas externas de projetos contemporâneos. Ele praticamente desaparece na superfície, mantendo o piso com leitura contínua e sem interrupções visuais.
O grande erro aqui é subestimar a manutenção. Por ser embutido, o ralo oculto tem a grelha menos acessível do que o modelo convencional. A sujeira que se acumula dentro do canal, aquele emaranhado com fio de cabelo, resíduo de sabão e sedimento de calcário, exige ferramentas específicas e uma limpeza mais cuidadosa para não danificar o acabamento do piso ao redor.

Contudo, isso não é argumento suficiente para descartá-lo. Projetos que apostam em porcelanato de grande formato ou revestimentos contínuos ganham muito com a ausência visual do ralo. A recomendação é combinar com o cliente, desde o projeto, uma rotina de limpeza mais frequente (pelo menos quinzenal) para evitar entupimentos e mau cheiro.
Tapete de fibra natural
Sisal, juta, seagrass e palha de arroz entraram definitivamente no vocabulário da decoração contemporânea brasileira. Esses tapetes carregam textura, calor visual e uma leveza que tecidos sintéticos raramente conseguem reproduzir. São especialmente bem-vindos em salas com paleta neutra, onde funcionam como âncora visual sem competir com o mobiliário.
A fibra natural, porém, não perdoa líquido e ao contrário do tapete de lã ou sintético, onde manchas podem ser tratadas com produtos específicos e até lavagem, a fibra de juta e o sisal absorvem umidade com facilidade. Isso pode gerar mofo, deformação e deterioração das fibras, especialmente em ambientes pouco ventilados.

Além disso, a trama aberta desses tapetes retém areia, pet hair e partículas finas que o aspirador convencional não remove completamente. O resultado prático é que, com o tempo, o tapete perde volume e aparência sem que a sujeira seja visível.
Nos projetos, costuma-se indicar esse tipo de tapete para ambientes de baixo tráfego, longe de áreas de alimentação e distante de pets. Em salas com circulação intensa, a durabilidade cai bastante se a manutenção não for rigorosa.
Entretanto, nenhum desses quatro itens precisa ser descartado por conta da manutenção. O que muda com essa informação é a forma como cada escolha é feita. Como resume a arquiteta Aline Lobos: “tudo requer um pouco de cuidado e manutenção. Então, se você gosta de um desses itens, vai fundo.”
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