Em uma época marcada pelo excesso de estímulos e pela aceleração permanente da vida contemporânea, a arquiteta Isabella Nalon, que participa, pela segunda vez, da CASACOR São Paulo 2026, apresenta um ambiente que investiga a arquitetura como instrumento de reconexão interior.
Em A Poética do Ritmo, música, literatura, arte, memória afetiva e materialidade brasileira constroem uma narrativa sensorial que propõe o morar contemporâneo não como fuga do cotidiano, mas como a possibilidade de reorganizar o ritmo interno através da contemplação das múltiplas expressões artísticas.
Sobre o especialista
Isabella Nalon, arquiteta, urbanista e designer de interiores paulistana, com mais de 20 anos de experiência no mercado.
Na visão da profissional é preciso que a gente observe a beleza do viver e realize aquilo que, verdadeiramente, nos eleva. Cada detalhe da narrativa espacial idealizada por ela conduz o visitante por meio da percepção, dos sentidos e do olhar.
“Ao tocar os sentimentos, meu intuito é possibilitar que cada pessoa possa olhar para dentro, perceber o próprio ritmo e refletir sobre aquilo que realmente importa”, preconiza.
Inspirado no tema da edição da mostra CASACOR São Paulo 2026, Mente e Coração, o ambiente, uma ilha de conforto de 45 m², converte um espaço de passagem em um lugar de permanência, convivência e experiência, compondo um retrato sensível de quem escolhe viver cercado de cultura e, claro, muita brasilidade.
“O projeto nasceu da ideia de que o alinhamento entre mente e coração gera um estado de clareza e força. É nesse ponto de convergência que surgem as escolhas mais autênticas, tanto na vida, quanto na arquitetura”, explica Isabella Nalon.

Sem divisórias rígidas, o projeto se organiza em três setores fluidos e complementares, gerando a sensação de percorrer uma casa viva e conectada aos sentidos. Cada setor tem sua atmosfera própria, mas todos permanecem conectados visualmente e emocionalmente.
Nesse paralelo, Isabella também exalta a brasilidade e a forma como passado e presente se comunicam. “Quero expressar como o resgate pessoal das nossas ancestralidades e os hábitos de outrora, como ouvir uma música com o corpo e a atenção plena, além de ter nas mãos um livro físico, entregam muito que nosso inconsciente almeja, mas que nos esquecemos na conjuntura dos tempos de hoje”, argumenta.
Para a arquiteta, a CASACOR São Paulo representa a matéria, o plano físico onde a arquitetura possibilita esse movimento simbólico do alinhamento entre razão e emoção.
No percurso do ambiente, uma fragrância exclusiva foi desenvolvida especialmente para reforçar o clima sensorial. Com notas de fundo de chá branco, combinadas com uma seleção de flores, o aroma acompanha o visitante pela incursão pessoal que realizará.
A arquitetura como expressão dos sentimentos

A experiência começa na entrada, quando a profissional começa a revelar suas primeiras impressões sobre A Poética do Ritmo. Por ser um ambiente de passagem, ela concebeu um projeto de arquitetura em que o visitante circula de maneira fluida e é instigado a observar cada pormenor exposto. “Nada é por um acaso e eu sou convicta de que tudo tem uma intenção e um significado”, verbaliza.
O amplo pé-direito, de 4 m, também faz parte da narrativa. Logo na entrada, um pórtico de madeira, executado pela Todeschini Arte Design, assim como toda marcenaria, origina uma aura convidativa e acolhedora. Na sala de música, o forro de gesso reduz levemente a altura e entrega uma sensação intimista, enquanto na biblioteca as vigas de madeira desenham o teto em uma composição ritmada, remetendo aos telhados das varandas das antigas casas brasileiras. O elemento conduz o olhar verticalmente e reforça o sentido de profundidade e permanência.
A paleta cromática também participa ativamente da construção emocional do espaço. O ritmo, tão presente em todo espaço, é compreendido pelas distinções arquitetônicas que, a partir da biblioteca, o visitante distingue na sala. “Desde a ‘caixa’ monocromática da sala, formada pelas paredes e o teto na cor Café Místico, da Coral, e as vigas instaladas no teto da biblioteca, essa repetição cadenciada entrega a ideia de uma varanda”, enumera Isabella, que investiu na profundidade da cor Chapada Diamantina para introduzir dramaticidade e profundidade visual à biblioteca.
O projeto luminotécnico resulta em múltiplas camadas que entregam uma atmosfera envolvente. Para essa flexibilidade de uso e a elaboração de setores distintos, estão presentes abajures de mesa, perfeitos para a leitura e aconchego nos pontos de permanência; luminárias de piso que, além de decorativas, são provedoras de luz ambiente difusa no período noturno; as arandelas que valorizam as superfícies, constroem efeitos e uma cenografia dramatúrgica e, por fim, a linha técnica que acrescenta interesse visual ao espaço.
O convite ao olhar interior
Ao entrar no espaço A Poética do Ritmo, o visitante é impactado pelos primeiros sinais que demonstram a sensibilidade de Isabella. A madeira, que aquece todo o projeto, é representada pela marcenaria da Todeschini Arte Design e os móveis soltos da Bella Home.

Suavemente iluminado pelo abajur, o buffet, com portas no acabamento muxarabi, abre frente para a simbologia do espelho que a arquiteta herdou de sua família. Da década de 1960 e adquirido na tradicional L’Atelier — loja frequentada por importantes designers brasileiros das décadas de 1960 e 1970 —, o objeto é emoldurado pela nobreza do jacarandá e a acompanha desde a infância. “É o espelho em que me vejo desde que nasci”, relembra.
A peça funciona como símbolo do olhar interior que Isabella propõe ao longo de todo o ambiente. Com maestria, na parede ao lado ela sintetizou a narrativa ao correlacionar três representações que entregam a sua interpretação do ambiente: o quadro de flores, da loja MAU, entrega seu apreço pela arte e a natureza que sempre se fizeram presentes em sua vida, o trompete, que remete à musicalidade, e o coração, para onde tudo emerge e torna-se a fonte da vida.
O ritual do analógico
A sala de música é carregada por insígnias sensoriais que a profissional revela pouco a pouco. Aqui, o ritmo desacelera e o analógico ganha protagonismo não como nostalgia, mas como escolha consciente de permanência.

valoriza todas as etapas que o apreciador vive até ouvir as primeiras notas | Foto: JP Image
Assim como a embalagem de um vinil eterniza o trabalho assinado pelo artista, a marcenaria valoriza esse momento. No móvel de madeira com as extremidades arredondadas estão as preciosidades que motivam a sala de música. “Sem dúvida, o equipamento e os discos são as principais figuras dessa ambientação”, sustenta a arquiteta, pontuando o nicho interno onde está a seleção de álbuns escolhida em parceria com a Maison de La Musique.

A concepção da sala de música também se destaca pelo revestimento executado com painel Tetris, um ripado que une textura e um jogo visual sutil na cor wallnut – o tom clássico e sofisticado da nogueira.

emocional | Foto: JP Image
Além do toca discos, o mobiliário também acomoda o amplificador e caixas de som, da francesa Elipson, uma das marcas de áudio de maior qualidade do mercado internacional.
“Embora o ambiente retrate essa espécie de nostalgia, investimos na tecnologia, pois é fundamental apreciar com uma alta qualidade do som”, pondera.

musical, que também a influenciou| Foto: JP Image
Na parede à frente da estrutura musical, obras do artista visual Matheus Guilherme aparecem organizadas em diferentes formatos — 10 x 10 cm, 15 x 15 cm, 20 x 20 cm e 70 x 30 cm —, formando uma composição inspirada em partituras musicais em que cada elemento possui peso, pausa e função visual. As menores obras surgem quase como pequenas joias distribuídas pela parede.
O sofá de veludo verde provoca um contraste interessante com as paredes rose terroso da sala de música, tonalidade escolhida por Isabella para mostrar que o neutro contemporâneo vai além do branco, bege ou cinza. Com o propósito de entregar profundidade e adicionar dramaticidade, na biblioteca ela optou por uma cor mais forte – o Chapada Diamantina, da Coral. O resultado entrega uma atmosfera acolhedora e emocional, reforçada ainda pelo tapete da Via Star, produzido com fios PET reciclados.
Ao fundo, a luminária Cantante, da Bertolucci, assinada pela designer brasileira Claudia Moreira Salles, reforça a relação entre música, iluminação e contemplação. Vasos de barro produzidos artesanalmente por diferentes artistas se somam ao intuito de acrescer a mistura entre referências italianas, brasileiras e afetivas dispostas por todo ambiente.
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