A sustentabilidade deixou de ocupar um espaço periférico nas decisões corporativas e passou a influenciar diretamente a forma como empresas operam, investem e se relacionam com seus consumidores. No varejo global, onde cadeias logísticas extensas e alto volume de produção historicamente elevaram o impacto ambiental, esse movimento se torna ainda mais relevante. Nesse contexto, o Grupo Ingka, controlador da Ikea, avança de forma consistente ao transformar compromissos ambientais em um modelo de negócio estruturado, com metas claras, indicadores mensuráveis e impacto real sobre a operação.
Os resultados apresentados no ano fiscal de 2025 indicam que a sustentabilidade, para o grupo, não funciona como ação isolada, mas como um sistema integrado que conecta energia renovável, logística de baixo carbono, economia circular e gestão responsável de pessoas, redefinindo padrões no setor moveleiro e no varejo de grande escala.
Energia renovável como base operacional
Um dos pilares dessa transformação está na matriz energética. Atualmente, 94,8% das operações globais do grupo já funcionam com eletricidade renovável, aproximando a companhia da neutralidade energética total. Mais do que um número simbólico, esse índice revela uma estratégia consistente de longo prazo, que prioriza investimentos contínuos em eficiência e geração limpa.
Assim, a redução do impacto ambiental deixa de depender exclusivamente de compensações e passa a ser construída na origem da operação. A energia, elemento central para lojas, centros de distribuição e unidades industriais, se transforma em um ativo estratégico para reduzir riscos regulatórios e custos futuros.
Logística de baixo carbono ganha escala real
Outro avanço expressivo aparece na distribuição. As entregas domiciliares com emissão zero já representam 60,1% do total, um crescimento relevante em relação aos 41,1% registrados no ano anterior. A chamada “última milha”, historicamente um dos pontos mais complexos e poluentes do varejo, passa a ser tratada como prioridade estrutural.
Esse movimento indica maturidade operacional. Em vez de projetos-piloto restritos a mercados específicos, a logística limpa ganha escala, contribuindo para a redução das emissões e, ao mesmo tempo, melhorando a eficiência dos fluxos de entrega em ambientes urbanos cada vez mais regulados.
Redução de desperdício como eficiência de processo
Na operação industrial e alimentar, os dados reforçam a mesma lógica de integração entre sustentabilidade e eficiência. Desde 2017, o grupo alcançou redução de 60% no desperdício de alimentos, evitando o descarte do equivalente a 9,6 milhões de refeições apenas em 2025.
Esse resultado não decorre apenas de ações pontuais, mas de uma revisão profunda de processos, controle de estoques e planejamento operacional. Assim, a redução de resíduos se conecta diretamente à otimização de custos e ao uso mais inteligente de recursos.
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Economia circular deixa o discurso e vira escala
Talvez o sinal mais claro da mudança estrutural esteja na consolidação da economia circular. O programa de recompra do grupo adquiriu quase 686,5 mil móveis usados, prolongando o ciclo de vida dos produtos e ampliando o acesso a soluções mais sustentáveis e acessíveis.
Atualmente, 424 lojas já operam áreas dedicadas à revenda de itens de segunda mão e produtos descontinuados. Além disso, o marketplace digital de usados está ativo em países como Noruega, Portugal e Espanha, com expansão prevista para outros mercados europeus.
Dessa forma, a circularidade deixa de ser uma alternativa marginal e passa a integrar a experiência do consumidor, criando novas frentes de receita e reforçando o vínculo com públicos cada vez mais atentos ao impacto ambiental de suas escolhas.
Sustentabilidade com desempenho financeiro
Mesmo em um cenário desafiador, o grupo demonstrou que eficiência ambiental não compromete os resultados. Apesar de uma leve retração de 0,9% na receita, que somou € 41,5 bilhões, o lucro operacional alcançou € 1,5 bilhão, equivalente a 3,5% das vendas, superando o desempenho do ano anterior.
Esse equilíbrio reforça uma tese cada vez mais relevante para o varejo global: sustentabilidade bem estruturada contribui para a resiliência financeira, reduz riscos e melhora a previsibilidade do negócio no médio e longo prazo.
Gestão de pessoas como parte da estratégia
No campo social, o grupo também avançou. A diferença salarial de gênero foi reduzida para 3,4%, com impacto mínimo de ajustes corretivos. O dado indica uma abordagem preventiva e estrutural, focada em equidade, transparência e retenção de talentos.
Ao colocar as pessoas no centro da estratégia, a empresa fortalece sua cultura organizacional e sustenta a transformação ambiental com engajamento interno, elemento essencial para mudanças duradouras.
Um recado direto ao varejo e ao setor moveleiro
O conjunto de ações adotadas pelo Grupo Ingka sinaliza uma mudança clara de paradigma. Sustentabilidade, circularidade e eficiência energética não operam mais como discursos institucionais, mas como engrenagens centrais do modelo de negócio.
Para o setor moveleiro e para o varejo de grande escala, o recado é objetivo: ações mensuráveis, integradas e escaláveis tendem a definir quem permanece competitivo nos próximos ciclos de mercado, especialmente em um cenário marcado por consumidores mais conscientes, pressão regulatória crescente e margens cada vez mais desafiadoras.





