Gramado e forração não competem entre si. Essa é a primeira correção que precisa ser feita antes de qualquer escolha de cobertura vegetal para um jardim: são soluções complementares, cada uma resolvendo um problema que a outra não resolve.
“O resultado é um projeto muito mais equilibrado e agradável”, resume o paisagista e botânico Alexandre Galhego, que trata o paisagismo como um sistema integrado, não como uma escolha entre opções concorrentes.
O erro mais comum é decidir pela aparência. Insolação, circulação de pessoas, umidade do solo, manutenção e o comportamento da vegetação ao longo dos anos pesam mais do que o visual no momento da implantação.
Sobre o especialista
Alexandre Galhego é considerado referência em paisagismo contemporâneo. Engenheiro Agrônomo formado pela USP, mestre em biologia e botânica pela UNESP com mais de 30 anos de atuação em projetos de paisagismo residenciais e comerciais.
O que a vegetação rasteira realmente faz no jardim
Árvores e espécies ornamentais concentram a atenção em qualquer projeto de paisagismo residencial. Mas é a vegetação rasteira que conecta esses elementos e organiza fisicamente o espaço.

Segundo Galhego, essa cobertura interfere diretamente na drenagem da água da chuva, na proteção do terreno contra erosão, na experiência de quem usa a área externa e até na formação de um microclima mais agradável ao redor da casa.
Comparado a superfícies pavimentadas, gramado e forração absorvem menos calor e reduzem a sensação térmica dos ambientes externos. Esse dado técnico já justifica a escolha por vegetação viva em vez de piso frio em boa parte do jardim, mesmo nos trechos que não serão pisados com frequência.

A cobertura vegetal também muda a forma como a arquitetura é percebida. O gramado cria áreas de respiro visual. A forração conduz o olhar e destaca elementos como caminhos e árvores. É um recurso de composição, não apenas de preenchimento de solo.
Gramado: para onde as pessoas vão pisar
O gramado é indicado para áreas de lazer e convivência, espaços de circulação frequente e locais com trânsito de pessoas e animais. Sua estrutura favorece a infiltração da água, o que reduz o acúmulo em dias de chuva forte.
“Em áreas de lazer, o gramado também propicia mais conforto e segurança. Pequenas quedas têm um impacto muito menor do que em pisos cimentícios ou revestimentos mais rígidos”, explica Galhego.

Entre as espécies mais usadas em projetos residenciais estão a Esmeralda, indicada para áreas de lazer e circulação intensa, a São Carlos, com melhor desempenho em locais de meia-sombra, e a Bermuda, reconhecida pela resistência ao pisoteio. Cada uma responde de forma diferente à luz e ao uso, o que torna a escolha da espécie tão importante quanto a decisão entre gramado e forração.
Forração: para onde o gramado não funciona
As forrações entram em cena justamente onde o gramado tem desempenho limitado: canteiros ornamentais, áreas sombreadas pelo crescimento das árvores, taludes e trechos sujeitos à erosão.
Combinando espécies de portes diferentes, as forrações criam volumes que enriquecem a composição e tornam o percurso do jardim mais dinâmico. Também reduzem a necessidade de manutenção constante em áreas onde o gramado exigiria cortes frequentes ou não se desenvolveria bem.

“Existem forrações que se adaptam melhor à sombra, outras que suportam maior exposição ao sol, enquanto determinados gramados oferecem resistência ao pisoteio. A decisão sempre depende das condições de cada projeto”, detalha o paisagista.
Entre as opções mais utilizadas estão a grama-amendoim, o lambari-roxo, a dinheiro-em-penca e a vedélia, cada uma escolhida conforme a característica do ambiente e o efeito paisagístico pretendido.
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Por que a decisão certa hoje pode estar errada em cinco anos
O jardim muda. Árvores crescem, copas se expandem, a incidência de luz em cada trecho do terreno se transforma ao longo dos anos. “Isto significa que uma solução adequada hoje pode precisar ser repensada anos depois”, afirma Galhego.
Esse é o motivo pelo qual a cobertura vegetal precisa ser planejada desde o início do projeto de paisagismo, e não apenas resolvida conforme o terreno se apresenta no momento da implantação. É necessário considerar como a vegetação vai se desenvolver, quais áreas vão receber mais sombra no futuro e como a família vai usar o espaço ao longo do tempo.
Esse planejamento evita substituições precoces e sustenta um paisagismo que se mantém funcional por mais tempo. Na prática, dificilmente um projeto usa apenas um tipo de cobertura. Gramado e forração convivem no mesmo jardim com frequência, cada um ocupando a área onde sua característica é mais vantajosa.
“Enquanto o gramado convida ao uso, entregando espaços de vivência ao ar livre, as forrações reduzem o surgimento de plantas invasoras e enriquecem a paisagem com diferentes desenhos, alturas e tonalidades”, enfatiza o paisagista.
Quando cada elemento ocupa o lugar certo, o jardim funciona como um sistema, não como uma soma de partes escolhidas isoladamente. Não existe uma espécie superior ou uma regra fixa — existe a solução que responde às condições específicas de cada terreno.
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