A marcenaria de uma cozinha concentra, sozinha, boa parte da informação visual do cômodo. Afinal, as portas, os puxadores, os nichos, o revestimento de bancada e até os eletrodomésticos embutidos disputam espaço em poucos metros quadrados. Quando isso se soma ao vidro, aos recortes, as cores diferentes e aos revestimentos chamativos, o resultado tende a pesar, mesmo em projetos com bom acabamento e materiais de qualidade.
A arquiteta Clarice Maggi mapeia os pontos que mais tiram a leveza de uma cozinha planejada, do uso do vidro nos armários até a divisão excessiva do desenho da marcenaria. Para começar, vale olhar com atenção para o material que mais aparece nos projetos atuais e que, em doses erradas, é o primeiro a pesar no ambiente.
Vidro em excesso nos armários tira a leveza da marcenaria
O vidro virou presença constante em cozinhas planejadas, seja no armário de cima, no de baixo ou nos dois ao mesmo tempo. Vidro leitoso, vidro reflexivo, vidro fumê: cada variação reage à luz de um jeito e multiplica pontos de brilho dentro do mesmo móvel.

“Todo vidro tem brilho, todo vidro fica pesado e todo vidro acrescenta informação nos armários. Então, quanto mais uniforme for, melhor, e esse vidro acrescenta informação visual, peso visual, não deixa mais elegante”, afirma Clarice Maggi.
Um painel de MDF liso, na mesma cor em toda a extensão da marcenaria, costuma resolver o que o vidro promete e não entrega. A superfície fechada reduz os pontos de reflexo e deixa o armário com leitura única, sem a sobreposição de texturas que normalmente compete com a bancada e com o revestimento.
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Armário aéreo dividido em dois níveis quebra a unidade da cozinha
Outro padrão recorrente é o aéreo dividido em duas alturas, com um módulo mais à frente e outro recuado, muitas vezes em cores diferentes entre si. A composição parece dar movimento ao desenho, mas fragmenta o que deveria funcionar como um bloco só.

“Ele traz um excesso de informação, traz poluição visual, quebra o móvel em duas partes. Pra que? Pra que, gente? Coloca um armário inteiro numa cor só, sem essa divisão, sem esse tanto de informação, que vai ficar muito melhor”, diz a arquiteta.
Um aéreo único, em uma só cor e sem recuos entre módulos, concentra menos elementos para o olho processar de uma vez. Esse ajuste simplifica a leitura da parede e evita que a cozinha pareça ter dois projetos distintos convivendo no mesmo espaço.
Revestimento chamativo na bancada compete com o resto do projeto
A bancada reúne pedra, marcenaria, cuba, torneira e, muitas vezes, eletros à vista. Inserir ali um revestimento com estampa forte ou textura muito marcada soma mais um protagonista a um cenário que já tem vários.

“O revestimento da cozinha é um elemento a mais onde já se tem muita informação e tem muitos outros elementos ali. O revestimento faz parte da base, tem que ser neutro, não coloca revestimento chamativo ali. Quanto mais neutro, mais discreto, menos aparecer, melhor”, explica Clarice Maggi.
Combinar pedra, marcenaria e revestimento de destaque no mesmo plano costuma gerar disputa visual entre os materiais. Reservar o protagonismo para a pedra da bancada ou para a marcenaria, mantendo o revestimento como pano de fundo, facilita a harmonia entre os elementos.
Desenho picotado, com muitos recortes, tira a elegância da cozinha
Nichos pequenos, prateleiras soltas, portinhas de tamanhos variados e combinações de cor em cada módulo formam o quarto ponto de atenção. Cada peça isolada pode parecer resolvida sozinha, mas o conjunto perde unidade.
“Quanto mais único, mais inteiro for esse desenho da cozinha, mais elegante, mais leve fica. A gente precisa ter mais unidade no móvel. Quanto mais inteiro, menos segmentação e divisão tiver, melhor vai ficar, mais elegante vai ficar”, afirma a arquiteta.
Um desenho com poucos módulos, volumes maiores e cor única na marcenaria tende a comunicar mais sofisticação do que uma composição recheada de recortes. Essa unidade no móvel é o que diferencia uma cozinha planejada com aspecto elegante de um ambiente visualmente fragmentado, mesmo quando os materiais usados são os mesmos.
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