Celebrar uma nova fase da vida também pode ser um gesto arquitetônico. Em São Conrado, na Zona Sul do Rio de Janeiro, um apartamento de 150 m² tornou-se o cenário dessa virada pessoal ao transformar cores, lembranças e histórias vividas em matéria-prima do projeto. Mais do que uma reforma, o espaço passou por um processo de ressignificação, no qual cada escolha dialoga com o passado da moradora e com a paisagem à frente — o mar como extensão do lar.
Assinado pelas arquitetas Daniela Miranda e Tatiana Galiano, do escritório Memoá Arquitetos, o projeto parte de um desejo claro: criar um apartamento alegre, praiano e cheio de identidade, onde o décor não apenas embelece, mas acolhe, conecta e emociona.
Arquitetura que nasce da história pessoal
Desde o início, a proposta se afastou de soluções padronizadas. A moradora, recém-aposentada e vivendo sozinha, buscava um espaço que refletisse seu momento de liberdade e reconexão consigo mesma. Assim, o projeto assumiu um caminho sensível, no qual memórias afetivas orientaram decisões de layout, paleta cromática e composição dos ambientes.

Peças herdadas da família, objetos adquiridos ao longo de viagens e móveis que acompanharam diferentes fases da vida foram integrados ao novo desenho do apartamento. A tapeçaria peruana, por exemplo, ganhou protagonismo no lavabo, enquanto quadros, mesas e cadeiras do acervo pessoal foram reinterpretados com novos tecidos, funções e posicionamentos.
Essa abordagem reforça uma tendência cada vez mais presente na decoração contemporânea: o morar como narrativa, onde a casa deixa de ser vitrine e passa a ser extensão da própria identidade.
Integração e fluidez para um viver mais leve
Do ponto de vista arquitetônico, a principal transformação aconteceu na integração da varanda à sala. A decisão ampliou a área social e criou um espaço contínuo, iluminado e conectado à paisagem natural, valorizando a vista e a ventilação cruzada.
Outro movimento estratégico foi a reconversão da antiga dependência de serviço em um escritório funcional. Integrado à área íntima e separado da cozinha, o novo ambiente atende às necessidades atuais da moradora sem romper a lógica original do apartamento.

Segundo a arquiteta Tatiana, a varanda passou a ser um dos espaços mais simbólicos do projeto. “A varanda integrada à sala foi concebida como um refúgio afetivo — um espaço para desacelerar, tomar café da manhã admirando o mar, receber amigas e cultivar boas lembranças”, explica.
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Cores como linguagem emocional
A paleta de cores desempenha um papel central na atmosfera do apartamento. Tons de azul dominam os ambientes principais, dialogando diretamente com o mar à frente. Nuances de verde e vermelho surgem como pontos de contraste, trazendo vitalidade e calor ao conjunto.
Na varanda, o uso do ladrilho hidráulico azul e branco reforça a estética praiana, enquanto as paredes laterais receberam a tinta Azul França, criando uma moldura cromática que potencializa a vista externa. Já nas áreas internas, a continuidade visual foi garantida pela restauração das tábuas corridas originais de Cumaru, preservando a memória material do imóvel.

A cozinha traduz o espírito provençal praiano do projeto. O piso preto e branco contrasta com os armários em verde menta suave, resultando em um ambiente luminoso, acolhedor e com charme atemporal.
Ressignificar para permanecer
Poucos itens novos foram incorporados ao décor, e essa escolha foi intencional. A poltrona da sala, a mesa de centro e a marcenaria sob medida em freijó, com portas em palha natural, surgem como complementos discretos, pensados para dialogar com o que já existia.

A cômoda herdada da mãe da moradora foi transformada em bar na varanda, enquanto uma antiga mesa de cabeceira ganhou novo lugar no corredor íntimo, acompanhada de um quadro carregado de significado. São gestos que revelam como a arquitetura afetiva pode prolongar histórias em vez de apagá-las.
Para Daniela, o resultado final traduz um equilíbrio delicado entre passado e presente. “O projeto materializa o estilo que chamamos de provençal praiano, combinando aconchego, frescor e a história da própria moradora”, conclui.
Quando a casa se torna extensão da memória
Mais do que seguir tendências, o apartamento em São Conrado mostra como cor, memórias afetivas e escolhas conscientes podem transformar um imóvel em um lar profundamente pessoal. Um espaço onde o tempo desacelera, as lembranças ganham forma e a decoração deixa de ser apenas estética para se tornar experiência.
Esse projeto reforça uma ideia essencial no universo do design de interiores: casas bem resolvidas não são aquelas que impressionam à primeira vista, mas as que fazem sentido para quem vive nelas — hoje, amanhã e ao longo da vida.





