De fora, ninguém percebe. A fachada é única, o telhado é único, o jardim é único. Mas essa residência de 537 metros quadrados no Park Way, em Brasília, abriga duas famílias completas: de um lado, um casal com dois filhos; do outro, os pais dela. E foi assim, deliberadamente, que o Studio Gontijo projetou essa casa multigeracional desde a fundação.
O desafio não era estético. Era existencial. Os proprietários queriam morar próximos sem morar juntos, uma distinção sutil que muda completamente a lógica de um projeto arquitetônico. “A casa foi pensada para equilibrar independência e integração, permitindo que cada grupo tenha seus próprios espaços, ao mesmo tempo em que compartilha áreas destinadas ao encontro”, explica a arquiteta Mariana Hummel, que assina o projeto ao lado de Gabriela Gontijo e Jade Ávila, à frente do Studio Gontijo.
Duas alas, um volume central
A solução encontrada pelas arquitetas foi organizar a construção em duas alas independentes, cada uma funcionando como uma casa completa, conectadas por um volume central que reúne sala de estar e cozinha. Essa área comum é o ponto de equilíbrio do projeto: nem cada família isolada em sua ala, nem uma convivência forçada o tempo todo.

“Sempre imaginei uma casa que aproximasse, mas que também respeitasse os espaços e os tempos de cada um”, conta a moradora Marcela Carvalho.
“Dividir a casa com minha filha significa ter o privilégio de estar perto, de compartilhar o café da manhã, um jantar improvisado ou simplesmente saber que estamos a poucos passos uma da outra, sem que isso invada nossa individualidade.”

Essa fala resume o que a arquitetura contemporânea tem buscado resolver em projetos multigeracionais: a convivência não pode depender de sacrifício de autonomia. Quando o desenho do espaço acerta essa equação, o resultado aparece no cotidiano, não apenas na planta baixa.
A sala que dissolve fronteiras
Na sala de estar, tons neutros e madeira natural criam uma base sóbria, enquanto amplos panos de vidro eliminam a fronteira entre interior e exterior. O jardim, assinado pelo Estúdio Solo, deixa de ser paisagem de fundo e passa a compor o ambiente como mais um elemento do paisagismo integrado à decoração.

O grande erro em espaços de convivência multigeracional costuma ser o excesso de mobiliário, como se fosse preciso preencher cada canto para justificar o metro quadrado. Aqui, a lógica é oposta: poucos elementos, mas de peso. A poltrona Zeca, assinada por Zanine Caldas, e um tapete português de Arraiolos passado entre gerações mostram que a casa foi montada para guardar memória, não apenas para exibir design.
Cozinha como centro de gravidade social
A cozinha integrada é onde a proposta social do projeto fica mais evidente. Uma ilha central em Corian divide o ambiente entre a área de preparo, com marcenaria em lâmina natural de freijó que embute os eletrodomésticos, e a área de jantar. Essa disposição garante que quem está cozinhando permaneça em contato visual e social com quem está à mesa.

“O projeto parte da valorização das referências afetivas da família. Queríamos uma arquitetura simples, acolhedora e que envelhecesse com qualidade junto com seus moradores”, afirma Mariana.
Essa frase carrega um detalhe técnico relevante: pensar uma casa para envelhecer bem exige escolha de materiais que resistam ao uso diário sem perder identidade. É o que se vê no piso em tábuas corridas de madeira canela imperial de demolição, que percorre praticamente todos os ambientes íntimos e funciona como elemento unificador entre os blocos.
Onde a casa se abre para o jardim
Em um dos blocos, uma varanda integrada à cozinha se transforma, quando totalmente aberta, em um espaço único para refeições e contemplação da paisagem. O piso de pedra bossa nova e o mobiliário externo reforçam a ideia de que, em climas como o de Brasília, a área externa funciona como uma extensão real do espaço habitável, não como complemento.

Os corredores que conectam os blocos, revestidos em granito branco escovado e emoldurados por esquadrias de vidro, cumprem função dupla de circulação e transição visual constante com o paisagismo. Em vez de corredores fechados e escuros, viram passagens que prolongam o contato com o jardim.
A casa que parece uma só

O resultado prático da solução das arquitetas é que a divisão estrutural desaparece na experiência de quem visita. “O mais curioso é que ninguém percebe que são duas casas. Para quem vê de fora, existe um único lar, e talvez seja exatamente essa a maior tradução do que somos: uma família unida, conectada pelo afeto, mas que entende que amor também é respeitar a privacidade, os silêncios e a autonomia”, resume Marcela.
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