Não se trata de uma ruptura brusca. O que se observa nos projetos residenciais mais recentes é um movimento gradual de afastamento de tudo que foi feito por hábito, por segurança ou para impressionar numa foto. O foco, agora, deslocou para algo mais difícil de alcançar: ambientes que funcionam de verdade, que têm identidade e que envelhecem bem.
A arquiteta Fabi Carvalho, que acompanha de perto as transformações do mercado de interiores, identifica com precisão esse movimento. Para ela, o design de 2026 vai exigir mais intenção e menos repetição, especialmente nas escolhas que parecem óbvias, mas que já começam a soar datadas.
Sobre o especialista
Fabi Carvalho, é arquiteta, designer de interiores e especialista em Neuroarquitetura, com foco em projetos residenciais e corporativos de alto padrão.
O porcelanato polido chegou ao limite
Durante anos, o porcelanato polido foi sinônimo de sofisticação. O reflexo do piso dava a ilusão de amplitude e elegância, e a escolha virou quase automática em projetos residencais. O problema é justamente esse: virou automática.

Além da questão estética, o material cobra um preço prático alto. Marca tudo, escorrega com facilidade e exige limpeza constante. Em 2026, o luxo nos interiores migra para o conforto visual e tátil. O que ganha espaço é o porcelanato acetinado, o porcelanato natural e os revestimentos com textura discreta, que entregam sofisticação sem brilho de corredor de shopping.
Nicho iluminado virou muleta decorativa
Poucas escolhas decorativas se tornaram tão mecânicas quanto o nicho com fita de LED. A lógica era simples: destaca o ambiente, não custa caro e todo mundo faz. O resultado, porém, é exatamente esse, todo mundo fazendo a mesma coisa, sem hierarquia visual, sem função real e sem projeto luminotécnico por trás.
O futuro da iluminação residencial está na luz pensada, não na luz espalhada. Cada ponto de luz precisa de uma razão de existir: valorizar uma textura, criar aconchego, direcionar o olhar para um ponto específico. Nicho iluminado sem esse raciocínio é apenas enfeite, e enfeite passa de moda rápido.
Projetos feitos para a foto, não para a rotina
Esse é um dos equívocos mais comuns e mais difíceis de perceber antes de morar no espaço. O ambiente parece perfeito nas imagens, mas no dia a dia revela problemas de circulação, falta de storage, superfícies que não suportam o uso real. A arquiteta Fabi Carvalho aponta que o verdadeiro luxo em 2026 estará em espaços que funcionam bem e acolhem quem vive ali, não em projetos pensados para impressionar na entrega.

A fotografia de arquitetura tem um papel importante na divulgação dos projetos, mas quando ela se torna o objetivo central, o morador paga o preço. Essa inversão de prioridades é um dos erros que os profissionais mais atentos já estão corrigindo.
Casas sem personalidade
Quando tudo segue tendência, nada conta a história de quem mora. Esse é um diagnóstico simples, mas que define bem o que está acontecendo com parte dos projetos residenciais produzidos nos últimos anos. A decoração de interiores ficou genérica, padronizada, intercambiável.
A nova sofisticação está em ambientes com identidade, com objetos que têm significado, com escolhas que refletem o gosto real dos moradores. Não é saudosismo, é autenticidade. E autenticidade, diferentemente de tendência, não sai de moda.
Lustre protagonista em espaço pequeno
A peça quer ser estrela, mas o palco não comporta. O lustre de impacto em pé-direito baixo cria exatamente o efeito contrário ao desejado: o espaço parece ainda menor, a escala fica comprometida e o desconforto visual é imediato.

Elegância, nesse contexto, passa a ser sinônimo de proporção. Um pendente de dimensão adequada, uma arandela bem posicionada ou uma luminária de piso com boa articulação entregam muito mais resultado do que uma peça imponente no lugar errado. O grande erro aqui é confundir impacto visual com acerto de projeto.
Cozinha toda branca: de atemporal a genérica
A cozinha branca com bancada branca e marcenaria branca foi durante anos uma escolha considerada segura e atemporal. Em parte, ainda é. O problema está no excesso. Quando absolutamente tudo é branco, o resultado não é sofisticação, é ausência de identidade.
Em 2026, a neutralidade continua presente, mas com mais inteligência. Texturas sutis, contrastes cromáticos discretos e materiais como o porcelanato que imita pedra natural ou a marcenaria em tom amadeirado entram para dar vida ao ambiente. O branco puro começa a parecer vazio, não clean.
Móvel assinado sem contexto
Ter uma poltrona icônica ou uma luminária de design autoral no projeto é um recurso legítimo, desde que a peça converse com o restante do ambiente. O que passa a sair de moda é o móvel famoso jogado num espaço sem linguagem, sem curadoria, sem coerência.
Fabi Carvalho reforça que ter uma peça icônica sem contexto vira ostentação deslocada, não curadoria. O que diferencia um projeto com referência de um projeto que apenas exibe peças caras é exatamente isso: a capacidade de fazer todos os elementos dialogarem entre si, independente do valor individual de cada um.
Casa sem sombra: luz demais também é erro
Tudo claro, tudo iluminado, tudo no mesmo nível. Esse padrão dominou muitos projetos nos últimos anos, especialmente com o avanço das fitas de LED e dos spots embutidos. O resultado, porém, é visualmente cansativo.

Ambientes precisam de pausa visual. A sombra, quando controlada, é parte do projeto. Ela cria profundidade, aconchego e hierarquia. Em 2026, a iluminação em camadas passa a ser o padrão técnico desejável, e a uniformidade luminosa começa a ser lida como erro de projeto, não como escolha de segurança.
Decoração copiada de catálogo
A casa vira showroom. Falta história, falta memória, falta dono. Esse é um fenômeno que cresceu com as redes sociais: ambientes montados a partir de referências de Pinterest ou perfis de decoração, sem nenhuma adaptação à realidade, à rotina e à personalidade de quem vai morar ali.
A tendência que cresce em resposta é clara: ambientes com cara de vividos. Objetos com história, peças garimpadass, plantas que cresceram ali, quadros que têm significado. Não é bagunça, é vida. E vida, num ambiente, é o que nenhuma tendência consegue substituir.
Projetos que ficam datados rápido
Esse talvez seja o erro mais caro, e o menos visível no momento da escolha. Materiais fora de escala, cores muito ligadas a um momento específico e layouts que não preveem adaptações futuras transformam o projeto num retrato de uma época, não num lar que atravessa o tempo.
O que realmente vai durar em 2026 são os projetos construídos com intenção: bases neutras e sólidas, materiais naturais de qualidade, marcenaria bem executada e escolhas decorativas que não dependem de tendência para fazer sentido. Projeto que envelhece bem não é conservador. É inteligente.
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