Madeira, café moído na hora e memória afetiva. Esses três elementos formam a base de um negócio que nasceu em plena pandemia, dentro de um apartamento em Curitiba, das mãos de uma profissional que, até então, passava os dias diante de telas repletas de código. A trajetória de Alessandra Aracélia com a marca Meuu Café mostra que o método rigoroso da Tecnologia da Informação e a delicadeza do artesanato criativo não apenas coexistem, como se fortalecem mutuamente.
A ideia surgiu em 2020, num momento em que o mundo havia sido obrigado a parar. Diante de uma rotina completamente redesenhada, Alessandra decidiu criar algo concreto, que carregasse conforto e esperança. A escolha foi um suporte para café, pensado para resgatar aquele tipo de memória que pertence ao corpo: o cheiro da bebida passada na hora, o ritual da tarde na casa dos avós, o som do coador pingando devagar. “Eu queria criar algo que resgatasse memórias e que pudesse estar na mesa quando o mundo finalmente pudesse se abraçar de novo”, conta ela.
Com a ajuda do pai, o primeiro protótipo ficou pronto em oito dias. O que era uma peça isolada se transformou em linha, e a linha virou marca. Hoje, a Meuu Café reúne coadores artesanais, canecas, o próprio café em grão e uma seleção de itens sazonais, como geleia de café e chocolate. O fio condutor é sempre o mesmo: valorizar o ritual do café coado, aquele que exige presença e não cabe em cápsula.
O que a TI tem a ver com artesanato
A resposta é: tudo. Alessandra tem mais de uma década de experiência em grandes empresas de tecnologia, e foi exatamente esse repertório que ela decidiu aplicar ao novo projeto. Planejamento por etapas, definição de metas, análise de indicadores, uso estratégico de ferramentas digitais, o mesmo rigor que sustenta um sistema de software passou a sustentar uma bancada de marcenaria.

“Eu peguei todo o conhecimento que tinha da área de TI e apliquei no meu empreendimento. Sempre trabalhei com organização e projetos. Isso me ajuda a tomar decisões mais conscientes e a estruturar cada etapa do crescimento”, explica.
O grande erro de quem começa a empreender com artesanato e produtos autorais é tratar o negócio como hobby enquanto ele está sendo construído. Alessandra não cometeu esse equívoco. A gestão de negócios criativos exige o mesmo nível de atenção que qualquer outra área: controle de estoque, precificação correta, análise de canais de venda e planejamento de lançamentos sazonais. A diferença é que, nesse caso, tudo isso coexiste com a textura da madeira e o aroma do café recém-torrado.
Raízes que viram produto
A inspiração para o que hoje é uma marca estruturada vem de muito antes da pandemia. Alessandra cresceu em Apucarana, no Paraná, e a infância na casa dos avós foi marcada por um tipo de experiência sensorial que não se esquece: o café secando ao sol, sendo torrado e moído na hora, servido de manhã e à tarde, com aquele cheiro que preenche a casa inteira.
“Eu lembro do cheiro do café fresco, passado na hora. Aquela experiência ficou muito forte em mim. Eu queria proporcionar isso para outras pessoas”, conta.
Essa memória afetiva não é detalhe decorativo da marca. É o produto em si. Cada coador artesanal carrega a intenção de devolver ao cotidiano um gesto que foi sendo substituído pela praticidade industrializada. Há um apelo de decoração funcional e identidade afetiva nos objetos da Meuu Café: eles não são apenas utensílios, são objetos com narrativa, do tipo que ganham espaço em cozinhas planejadas, bancadas de café em casa e projetos de interiores que valorizam o artesanato brasileiro.
Ecossistema e visibilidade
Ter um bom produto não é suficiente. Alessandra entendeu isso cedo e buscou se conectar ao ecossistema de empreendedorismo e inovação de Curitiba. Após se formalizar como MEI, passou a participar de eventos e ações da Agência Curitiba de Desenvolvimento e Inovação, o que trouxe visibilidade e, mais importante, uma rede de troca real com outros empreendedores.

“Participar dos encontros trouxe visibilidade e muitos insights. Você aprende com outras pessoas, troca experiências e sai com ideias que podem ser aplicadas no seu negócio”, relata.
O presidente da Agência Curitiba, Dario Paixão, reforça que esse tipo de suporte é parte de uma estratégia maior: “A Agência Curitiba atua como catalisadora, conectando empreendedores a oportunidades, capacitações e redes de apoio. Nosso objetivo é ajudar a estruturar ideias e impulsionar negócios, respeitando a identidade de cada projeto”.
Hoje, a Meuu Café vende pelas redes sociais, pelo site próprio e em feiras, abertas e fechadas. A estrutura de distribuição ainda é enxuta, mas intencional: cada canal foi escolhido com base em análise de retorno e perfil de cliente, não por acaso.
O que realmente faz a diferença na prática
Para quem quer começar, Alessandra é direta: não espere o cenário ideal, porque ele não existe. Comece com os recursos disponíveis e evolua no processo. Coloque a ideia no papel, defina etapas claras e não tente dominar tudo antes de agir. O aprendizado acontece na prática, não antes dela.
O que realmente faz a diferença, segundo ela, é transformar a experiência que você já tem em diferencial competitivo. Quem vem da área de saúde traz raciocínio clínico. Quem vem da educação traz didática. Quem vem da TI traz método. Nenhum conhecimento anterior é descartável quando se está construindo algo do zero. “Eu não comecei sabendo tudo. Fui aprendendo no caminho. E vale a pena”, resume Alessandra.





