Uma cadeira de design assinado pode levar meses de estudo até chegar à forma final. Peso, altura, ergonomia, resistência do material, distribuição do encosto: cada detalhe passa por um processo que uma peça de linha industrial simplesmente não recebe. É esse processo que sustenta o preço mais alto — e é exatamente esse preço que gera a maior dúvida de quem está decorando a casa.
“O design assinado é uma chancela de que seu idealizador computou todos os detalhes. Considero a cadeira a peça mais difícil de fazer, porque nela é preciso considerar peso, altura, ergonomia e a comodidade de quem vai utilizá-la”, explica a arquiteta Marina Salomão, à frente do escritório que leva seu nome.
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O valor de uma peça de design assinado não está apenas na estética. Está na certeza de que alguém testou, ajustou e validou cada centímetro daquele objeto antes de ele existir. É isso que separa uma peça assinada de uma peça bonita.
O papel do design assinado no décor
Diferente de um móvel comum, uma peça assinada tem a capacidade de se tornar o centro visual do ambiente. Ela concentra o olhar, organiza a composição ao redor dela e dá ao projeto um ponto de identidade que nenhum item genérico consegue reproduzir.
“Gosto de falar com meus clientes que, sendo possível, eleger um item faz toda a diferença, pois será a cereja do bolo pelo protagonismo que assume”, afirma Marina.
Mas esse protagonismo depende inteiramente de contexto. Uma peça de valor alto, colocada sem curadoria, sem diálogo com o restante do ambiente, perde a força que justificaria seu preço. “A peça pode ter grande valor por si, mas descontextualizada do projeto ela perde sua capacidade de admiração”, avalia a arquiteta. Comprar a peça certa é só metade do trabalho. A outra metade é saber onde ela vai ficar e o que vai estar ao redor dela.
Estética sem função não sustenta o investimento
Um dos equívocos mais comuns na hora de investir em design assinado é priorizar apenas a aparência da peça, ignorando se ela realmente funciona no dia a dia de quem vai usá-la. Uma poltrona pode ser visualmente perfeita e, ainda assim, ser desconfortável o suficiente para nunca ser usada de fato — o que a transforma em escultura, não em mobiliário.

Foi pensando em unir os dois aspectos que Marina Salomão escolheu a poltrona Jangada, do designer romeno Jean Gillon, para compor o cantinho de leitura de seu projeto de estreia na CASACOR São Paulo 2024, batizado de Sertões do Saber. A peça, datada de 1968, nasceu da observação do designer sobre jangadas de pescadores flutuando no mar durante uma viagem à Bahia — uma referência que se traduz na forma orgânica do encosto e no conforto da estrutura.
Esse tipo de escolha reforça um princípio central do trabalho com peças assinadas: elas precisam entregar função tanto quanto entregam presença visual. Sem isso, o investimento perde sentido prático, mesmo mantendo valor estético.
Um investimento que se valoriza com o tempo
O maior obstáculo na decisão de compra costuma ser o preço, principalmente quando o morador compara a peça assinada com opções de mesma finalidade, porém de custo muito menor. Marina argumenta que essa comparação ignora um fator importante: a valorização futura.

Peças de design assinado tendem a se valorizar ao longo dos anos, e em muitos casos podem ser revendidas por valor superior ao pago originalmente. É o que aconteceu com a poltrona Mole, criada pelo brasileiro Sergio Rodrigues em 1957. Quando lançada, não teve repercussão imediata. Menos de uma década depois, conquistou a Europa e venceu, em primeiro lugar, o Concurso Internacional do Móvel, na Itália, em 1961. Hoje, um par da peça arremata a decoração de um dos apartamentos assinados por Marina, posicionado ao fundo do living como fechamento da composição.
Comprar design assinado, nesse sentido, funciona como qualquer outro investimento de longo prazo: exige paciência e critério, mas tende a retornar valor acima do desembolsado inicialmente.
Como escolher a peça certa?
A identificação entre o comprador e o objeto vai além do gosto estético. Envolve a história por trás da peça e o que o designer quis comunicar através dela. Marina já conduziu projetos em que o morador possuía itens de herança familiar, adquiridos de forma inusitada ou carregados de histórias particulares — e, em outros casos, clientes que sonhavam com uma peça específica, mas precisavam de orientação técnica para validar a escolha.

Um exemplo desse processo de curadoria é a poltrona Naos, assinada pelo Studio ADM e produzida em poliuretano expansivo, material de baixo impacto ambiental. Marina a escolheu para protagonizar um ambiente integrado ao living principal de um apartamento, criando um espaço voltado à leitura ou à degustação de vinho.
Peças assinadas se adaptam bem à maioria dos ambientes internos — salas de estar, jantar, TV e dormitórios recebem esse tipo de mobiliário sem restrição. A exceção fica por conta das varandas abertas. Nesse caso, “é preciso verificar se o mobiliário é apropriado e resistente. Se a resposta for sim, será sempre bem-vindo”, adverte a arquiteta.
Peças que não ficam datadas
A característica que sustenta o valor de longo prazo do design assinado é justamente sua atemporalidade. São objetos pensados para durar décadas sem perder relevância estética — o que exige, em contrapartida, que agradem verdadeiramente ao morador, já que vão permanecer sob sua posse por muito tempo.
A poltrona Mad, criada pelo designer Jader Almeida em 2013, já é tratada como clássico contemporâneo. Suas linhas finas e curvas suaves, combinadas ao encosto em palha rattan, equilibram robustez e leveza. Marina utilizou o par da peça para protagonizar um living marcado por elementos naturais e design brasileiro.
Para reduzir o risco de uma escolha equivocada, o processo de curadoria começa antes mesmo da visita à loja. “Durante o briefing colhemos informações sobre os moradores: a rotina da família, do que eles gostam e o estilo individual dos membros. Dessa forma, podemos realizar uma pré-seleção e, muitas vezes, até mesmo acompanhá-los nas lojas para conferir pessoalmente”, conta Marina.
Um cuidado final que costuma passar despercebido: peças de design assinado são comercializadas exclusivamente em lojas autorizadas, sempre acompanhadas de certificado de autenticidade do móvel. Sem esse documento, não há garantia de que o item é, de fato, o que promete ser.
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