Guardar tudo não é o mesmo que organizar. Essa é a primeira confusão que precisa ser desfeita antes de qualquer reorganização de armário de cozinha. O problema raramente é a falta de espaço, mas sim a ausência de um critério que defina onde cada coisa deve ficar e por quê. “Um planejamento inteligente é aquele que entrega a máxima eficiência para a utilização”, define a arquiteta Cristiane Schiavoni, à frente do escritório que leva seu próprio nome. Para ela, um mobiliário bem desenhado e uma ordenação de excelência são as chaves para o sucesso de qualquer projeto de cozinha.
O ponto de partida para qualquer reorganização eficiente exige medir e inventariar os objetos antes de comprar organizadores ou definir a marcenaria. Cristiane Schiavoni sugere o caminho de contar e medir os objetos: “Dessa forma garantimos que tudo seja acomodado corretamente nos seus devidos lugares”, explica a arquiteta. Isso inclui considerar a altura correta para a instalação dos nichos e um possível reforço estrutural para prateleiras que vão receber eletrodomésticos mais pesados.

“Tudo deve ter o seu local previamente definido”, completa. Em um dos projetos assinados por ela, as moradoras pediram uma despensa separada da cozinha, o que liberou espaço interno para guardar mantimentos e eletrodomésticos sem disputar lugar com panelas e utensílios do dia a dia.
As medidas ergonômicas e a regra do Triângulo de Trabalho
Para que a setorização recomendada funcione na prática, a distribuição dos móveis e utensílios deve acompanhar o fluxo natural das tarefas diárias, respeitando o conceito do triângulo de trabalho. Esse princípio conecta as três estações principais do cômodo: a área de armazenamento na geladeira, a área de higienização na pia e a zona de cocção no fogão. A soma das distâncias entre esses três pontos deve variar entre quatro metros e sete metros e noventa centímetros, garantindo que o trajeto durante o preparo de uma refeição ocorra de forma fluida.
Para garantir conforto físico e evitar dores nas costas, a bancada principal deve ser instalada entre noventa e noventa e quatro centímetros do piso acabado. Já a chamada zona de conforto tátil, compreendida entre setenta centímetros e um metro e sessenta centímetros de altura, deve concentrar os utensílios de uso diário. Os armários suspensos fixados sobre a pia exigem profundidade máxima de trinta e cinco centímetros, mantendo um vão livre de cinquenta a sessenta centímetros em relação à pedra para garantir iluminação sobre a bancada sem risco de impactos na cabeça do morador.
Armários até o teto e a hierarquização do espaço vertical
Armário que vai do piso ao teto parece a solução ideal para quem tem pouco espaço, mas na prática cria um desafio de acesso se não houver planejamento. “No dia a dia essa ‘vantagem’ se torna um desafio e fonte de riscos, uma vez que muitos precisarão do auxílio de uma escada ou um banco. E nesses casos, não podemos desconsiderar o risco de quedas, sem contar que dá uma certa preguiça de buscar aquilo que está tão guardado”, aponta Cristiane.
A saída apresentada pela profissional está na hierarquização do espaço vertical. A parte superior do armário, localizada acima de um metro e noventa centímetros do piso, deve receber apenas o que é usado raramente, aquela forma de bolo que só sai do lugar no Natal ou o conjunto de taças de ocasião especial. Já o conteúdo com funcionalidade diária precisa estar alocado em pontos de fácil alcance, sem exigir escada, banco ou esforço físico.
Setorização, potes e soluções para a área do fogão
A recomendação mais valiosa da arquiteta é determinar áreas específicas dentro da cozinha, seja para a despensa, preparo, cocção e limpeza. Panelas e utensílios de cozinha ficam perto do fogão ou do cooktop, onde a marcenaria deve priorizar gavetões profundos com corrediças telescópicas de alta capacidade. Tábuas e facas ficam próximas à área de preparo. Pratos e copos de mesa ficam acomodados perto da mesa de jantar. “O principal benefício da setorização é manter tudo à mão do usuário”, ressalta Cristiane.

Para o acúmulo de potes e recipientes de plástico ou vidro, a especialista explica que existem duas formas de organização: empilhar os potes e reservar as tampas em um compartimento separado com divisores reguláveis, ou guardar cada pote já com sua tampa encaixada, opção que exige mais espaço disponível no armário.
Potes transparentes resolvem a identificação rápida do conteúdo, e a arquiteta reforça que “esses recipientes facilitam demais na identificação do que se procura, seja na geladeira ou no porta-temperos”.

Instalar ganchos próximos ao fogão também simplifica a rotina de quem cozinha com frequência, mantendo conchas e facas à vista. Em um projeto assinado por Cristiane, moradores apaixonados por gastronomia pediram uma estante próxima ao fogão justamente para deixar os temperos à mostra, um recurso técnico que acelera o processo na hora de cozinhar, unindo praticidade diária e arquitetura sob medida.
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